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AFIA alerta: “A meta de emissões da UE para 2035 é inatingível”

Carro elétrico branco moderno estacionado em interior junto a posto de carregamento.

A indústria automóvel europeia está sob pressão crescente e enfrenta desafios disruptivos que tornam urgente repensar a competitividade e a inovação.

Esta foi uma das mensagens centrais da 12.ª Automotive Industry Week, promovida pela AFIA - Associação de Fabricantes para a Indústria Automóvel - em Lisboa, entre 4 e 6 de novembro.

Competitividade europeia em risco na indústria automóvel europeia

José Couto, presidente da AFIA, deixou um aviso inequívoco: a Europa está a perder competitividade face a concorrentes como a China. “Os veículos entram no continente com custos mais baixos e isso atrai os consumidores. A concorrência está a ganhar quota de mercado e a Europa não tem mecanismos eficazes para reagir.” Na perspetiva de Couto, a perda de liderança tecnológica está a colocar a indústria automóvel no “centro da tempestade”.

Esta preocupação repercute-se diretamente em Portugal. O setor de componentes automóveis pesa 5% do PIB, representa 8,8% do emprego na indústria transformadora e assegura mais de 63 mil postos de trabalho diretos. A importância do setor depende, em grande medida, da sua capacidade exportadora e de continuar a inovar tecnologicamente para se manter competitivo.

Metas de 2035 são inatingíveis

Walt Madeira, da S&P Global Mobility, considerou que as metas de emissões definidas pela União Europeia para 2035 são “inatingíveis. Os preços dos automóveis estão elevados e há novos intervenientes no mercado com práticas agressivas.” De acordo com o responsável, o mercado europeu encontra-se estagnado, ao passo que o crescimento mais expressivo está na Ásia, sobretudo na China, onde a indústria segue uma estratégia de longo prazo.

“Por cada carro que a Europa exporta para a China, estes exportam dois para a Europa. Atualmente, os carros chineses representam 6% do mercado europeu, mas isso vai aumentar rapidamente”, alertou Madeira. Na sua leitura, a Comissão Europeia terá de reavaliar estas metas, sob pena de colocar em risco a competitividade do setor.

Matthias Zink, presidente da CLEPA, voltou a sublinhar a necessidade de recuperar a competitividade europeia: “Estamos numa encruzilhada. Os americanos promovem, os chineses planeiam, os europeus regulamentam.” Para Zink, o excesso de burocracia trava a inovação e o investimento, sendo igualmente essencial diminuir o fosso de inovação face a outros blocos económicos. “Ainda vamos a tempo de recuperar, mas é preciso começar já”, concluiu.

“A pior coisa que se pode fazer à indústria automóvel é a imposição de acabar com os motores de combustão interna em 2035. Não podemos atuar na diminuição das emissões proibindo tecnologias. Deve ser um processo de ajustamento gradual, até chegarmos ao objetivo pretendido”, disse António Costa e Silva, ex-ministro da Economia.

Portugal no ecossistema europeu

Apesar do contexto desafiante, Portugal dispõe de fatores estratégicos relevantes. Madalena Oliveira da Silva, presidente da AICEP (Agência para o Investimento e Comércio Externo de Portugal), apontou o talento altamente qualificado, a eficiência produtiva e a localização geográfica como vantagens para abastecer a Península Ibérica e outros mercados europeus.

Ainda assim, a responsável salientou que “é preciso mais do que talento”. Para manter Portugal competitivo, são determinantes o investimento em I&D, a inovação e a internacionalização. Jorge Castro, vice-presidente da AFIA, destacou também que 98% dos veículos produzidos na Europa integram componentes fabricados em Portugal, evidenciando o peso do setor na economia nacional.

Adaptação e transformação

José Couto defendeu que o setor tem pela frente uma transformação profunda, com aposta em novos processos, produtos e soluções, sem perder o foco na qualidade e na inovação. A eletrificação é um caminho inevitável, mas deve avançar com metas exequíveis e com políticas que permitam à Europa e a Portugal competir de forma sustentável num mercado global em que a China e os EUA têm forte predominância.

“A meta da UE para 2035 é inatingível. Precisamos de refletir, adaptar e agir já, para que a indústria europeia e portuguesa continue a crescer e a gerar valor”, disse Couto, sintetizando o principal alerta da AFIA.

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