A margem superior do crescimento contínuo de plantas subiu em todas as regiões do Himalaia analisadas nos últimos 24 anos, segundo um novo estudo.
A investigação ajuda a perceber até onde a vida consegue manter-se nas encostas mais elevadas da cordilheira e aponta para alterações nas condições de neve e de água ao longo de um vasto sistema montanhoso.
Seis regiões, uma mesma subida no Himalaia
De Ladakh, no norte da Índia, na extremidade ocidental do Himalaia, até ao Butão, no extremo oriental da cordilheira, repete-se o mesmo padrão de deslocação para cima na cobertura vegetal contínua mais elevada das montanhas.
Com base em registos de satélite das seis regiões, Ruolin Leng, da Universidade de Exeter, documentou que este limite superior de vida continuou a avançar em altitude.
Contudo, a subida não aconteceu com a mesma velocidade em todo o lado. Em Khumbu, no leste do Nepal, perto do Monte Evereste, o avanço foi de apenas 4,7 pés por ano; já em Manthang, no centro-norte do Nepal, chegou aos 22,8 pés por ano.
Como a deslocação diz respeito à zona mais alta de crescimento contínuo - e não a algumas plantas isoladas -, abre-se uma questão mais ampla sobre o que está a mudar nestas montanhas.
Definir a linha de vegetação
Os cientistas chamam a esse limite superior a linha de vegetação: a faixa mais alta de cobertura vegetal contínua, e não a altitude de um único exemplar sobrevivente.
Plantas isoladas podem ainda surgir mais acima, sobretudo em áreas secas do ocidente, mas os satélites captam sobretudo locais onde o crescimento se tornou preenchido e contínuo.
Esta diferença ajuda a perceber porque é que trabalhos de campo anteriores em Ladakh encontraram plantas perto de 20,200 pés, cerca de 500 pés acima deste limite contínuo.
Manter estes dois limites separados é importante, porque alguns pioneiros não significam que uma comunidade alpina se tenha estabelecido por completo.
Mais verde, mas de forma desigual
A maior parte da área cartografada apresentou “greening”, ou seja, um aumento na cobertura vegetal ou na folhagem, mas essa subida não teve a mesma expressão em todas as regiões.
As áreas orientais já eram mais verdes em 1999, porém também registaram mais “browning” - uma diminuição de cobertura ou de folhagem - do que as zonas ocidentais.
Khumbu e o Butão mostraram as manchas castanhas mais evidentes, enquanto os locais do oeste e do centro mantiveram os ganhos de cobertura vegetal acima das perdas.
Esta divisão indica que o aquecimento não gerou um aumento uniforme da cobertura vegetal e que as condições locais de água continuaram a determinar os resultados.
A neve define o ritmo
A neve surgiu como o sinal climático mais claro por trás da deslocação para cima, sobretudo onde a cobertura de inverno diminuiu ou mudou de calendário.
Menos neve pode expor o solo mais cedo, prolongar a estação de crescimento e deixar mais superfície disponível para raízes e rebentos.
Manthang, no Nepal central, reuniu o avanço mais rápido com um aumento da precipitação, enquanto os locais orientais avançaram mais devagar e perderam mais cobertura.
Estes contrastes sugerem que neve e humidade actuam em conjunto, o que significa que o ar mais quente, por si só, não explica todo o padrão.
Porque a água é importante
O que acontece a estas pequenas plantas tem impacto para lá das cristas, porque o escoamento proveniente da Alta Ásia Montanhosa chega a quase dois mil milhões de pessoas a jusante.
À medida que a vegetação se expande, a evapotranspiração - água que passa do solo e das folhas para a atmosfera - pode aumentar e deixar menos água disponível para o escoamento.
Uma análise montanhosa na Califórnia mostrou que o crescimento de vegetação em altitude pode elevar essa perda de água e reduzir o caudal dos rios.
“Mas as comunidades vegetais também podem afectar o ciclo da água - por isso, os nossos resultados levantam questões importantes que têm de ser investigadas”, afirmou Leng.
Satélites mostram toda a cordilheira
O novo mapa é relevante, em parte, porque acompanhou a cordilheira com pixels de cerca de 98 pés ao longo de mais de duas décadas.
Esta perspectiva prolongada permitiu comparar, com a mesma base, um sistema montanhoso que vai do Ladakh seco, no extremo norte da Índia, ao Butão mais húmido.
A maior parte dos estudos anteriores ou acompanhava parcelas de campo mais pequenas, ou media árvores, e não a cobertura vegetal mais elevada acima da linha de árvores.
Ao abranger toda a cordilheira de uma só vez, a cartografia mostrou que a deslocação era regional e não um fenómeno isolado.
O que os satélites não captam
Ainda assim, as encostas íngremes das montanhas têm características que os mapas de satélite, em escala ampla, continuam sem conseguir captar por completo.
Terreno sombreado virado a norte, vegetação muito escassa e diferenças locais no solo podem esconder ou distorcer o aspecto real da cobertura contínua.
“A zona alpina é um ambiente hostil dominado por plantas mais pequenas e arbustos lenhosos”, disse Leng.
Estas limitações significam que os mapas mostram onde as comunidades vegetais se estão a consolidar, e não cada sobrevivente individual junto à linha de neve.
Pressão sobre espécies especialistas
À medida que a margem viva sobe, as espécies alpinas adaptadas ao frio enfrentam nova pressão de plantas mais adequadas a condições mais amenas.
Estações de crescimento mais quentes e mais longas podem permitir que arbustos e outras plantas tolerantes ao calor se instalem a altitudes mais elevadas, onde antes dominava vegetação baixa e densa.
Estudos de campo anteriores no Himalaia também observaram respostas divergentes, com o aquecimento a favorecer algumas espécies, enquanto extremos mais húmidos prejudicam outras.
Assim, a subida significa mais do que mais verdura, porque pode reorganizar quais as espécies alpinas que conseguem persistir perto do topo.
Direcções futuras de investigação
Para compreender o que se seguirá, os investigadores precisam agora de acompanhar plantas, neve e registos meteorológicos mais robustos nos mesmos locais.
Estações de campo em altitudes elevadas poderiam mostrar quando a neve desaparece, quando as raízes retomam actividade e quando a humidade se torna insuficiente.
Dados locais mais detalhados também permitiriam testar se o “browning” no leste reflecte stress por seca, substituição de espécies, ou pastoreio e uso do solo.
Sem essa validação no terreno, o padrão à escala da cordilheira é claro, mas as causas exactas por detrás de cada mudança local continuam incertas.
O limite superior das plantas no Himalaia está a subir, e essa deslocação liga a ecologia directamente à neve e à água.
Gestores e investigadores dispõem agora de um indicador mais nítido para acompanhar, embora as montanhas continuem a esconder muitas excepções locais.
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