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A água está a correr mais depressa e a desaparecer mais cedo no oeste dos EUA.

Pessoa com fato de pesca recolhe amostra de água em rio montanhoso com árvores e neve ao fundo

Os rios do Noroeste do Pacífico estão em permanente movimento, moldados pelos ritmos lentos da neve e pela alternância das estações.

Durante o inverno, a neve acumula-se nas montanhas, permanece retida e, mais tarde, vai-se libertando de forma gradual para ribeiros e cursos de água que sustentam a vida na primavera e no verão.

Esse “atraso” está a encurtar. À medida que as temperaturas sobem, uma parte maior da precipitação de inverno cai sob a forma de chuva, em vez de neve.

À primeira vista, pode parecer apenas uma troca de neve por chuva. Mas a transformação é mais profunda: acelera o relógio natural de uma bacia hidrográfica, porque a água deixa de permanecer armazenada e passa a atravessar o sistema muito mais depressa.

Um escoamento mais rápido nos rios do Noroeste do Pacífico

Em regiões montanhosas, a neve funciona como um reservatório natural: guarda água durante meses e liberta-a lentamente. A chuva comporta-se de outra forma, avançando rapidamente à superfície ou através de camadas pouco profundas do solo.

Um estudo recente concentrou-se em bacias de cabeceira na Bacia do Rio Naches, no estado de Washington. Historicamente, estas áreas recebiam grandes quantidades de queda de neve, e o manto de neve (snowpack) representava uma parcela muito significativa da precipitação anual.

A equipa científica estimou os “tempos de trânsito da água” - quanto tempo a água demora desde que cai como precipitação até sair como caudal no curso de água. Em sistemas naturais, este intervalo pode variar de dias a anos.

Os investigadores concluíram que, em condições futuras, os tempos de trânsito ficam cerca de 18 percent mais rápidos. Em média, a água atravessa estes sistemas 35 to 64 days mais depressa.

Até ao final do século, num cenário de elevadas emissões, o manto de neve diminui acentuadamente. Os níveis máximos de neve descem, em média, mais de 600 mm.

Em simultâneo, a precipitação total altera-se apenas de forma ligeira. Ou seja, a mudança central não é a quantidade de água que cai, mas a forma como ela chega.

As mudanças já se fizeram sentir

Este inverno tem sido exatamente como o nosso artigo dizia que o futuro seria”, afirmou Zach Butler, investigador de pós-doutoramento na Universidade do Estado do Oregon, referindo que as condições recentes de seca de neve (snow-drought) já refletem as tendências climáticas projetadas.

Quando mais precipitação cai sob a forma de chuva, a água contorna a fase lenta de armazenamento. O resultado é um sistema que reage mais depressa aos eventos meteorológicos.

Os cursos de água respondem com maior rapidez à chuva, e a água permanece menos tempo no subsolo. Ainda assim, a mudança não é igual ao longo do ano: inverno e verão mostram tendências opostas.

No inverno, os rios transportam mais água “jovem”, isto é, água que caiu recentemente sob a forma de chuva. Temperaturas mais elevadas aumentam a fração de precipitação em forma de chuva e reduzem o armazenamento em neve, fazendo com que a água chegue aos ribeiros mais rapidamente.

No verão, o cenário inverte-se. Com menos neve retida desde o inverno, os cursos de água passam a depender mais de águas subterrâneas antigas. Assim, durante os meses secos, a “idade” da água aumenta, mesmo quando os caudais globais diminuem.

No futuro, este contraste sazonal tende a intensificar-se. Invernos com escoamento mais rápido e verões com reposição mais lenta reconfiguram todo o ciclo anual dos sistemas fluviais.

Equilíbrio entre água jovem e água antiga

A ideia de idade da água pode parecer abstrata, mas influencia processos bem concretos. A água mais jovem transporta frequentemente contaminantes recentes provenientes da superfície. Já a água mais antiga passou mais tempo a filtrar-se através de solo e rocha.

O estudo indica que tempos de trânsito mais rápidos aumentam a proporção de água jovem no inverno. Isto pode provocar picos mais acentuados de poluentes durante tempestades, porque os contaminantes entram rapidamente nos cursos de água.

Em contraste, no verão, a água mais antiga sustenta os caudais de base (baseflows) que mantêm os rios a correr durante períodos secos. Quando este equilíbrio se altera, os cursos de água podem tornar-se mais irregulares, com máximos mais elevados e mínimos mais baixos.

As implicações vão para além da hidrologia. Há efeitos sobre ecossistemas, qualidade da água e resiliência climática regional.

Caudais de verão mais baixos podem elevar a temperatura da água e reduzir os níveis de oxigénio. Isto coloca pressão adicional sobre espécies aquáticas, sobretudo peixes que dependem de água fria e estável.

O movimento mais rápido da água também altera a forma como nutrientes e químicos circulam no ambiente. Poluentes podem deslocar-se com maior rapidez, enquanto os processos naturais de filtragem dispõem de menos tempo para atuar.

O abastecimento de água no Oeste

Este estudo representa um passo crucial para melhorar as projeções das respostas dos recursos hídricos às alterações climáticas e sublinha a importância de integrar a dinâmica dos tempos de trânsito da água em avaliações hidrológicas futuras”, disse Butler.

Os resultados sugerem que mesmo pequenas mudanças no tipo de precipitação podem remodelar sistemas de água inteiros. A neve não é apenas água congelada: é um mecanismo de temporização. À medida que esse mecanismo enfraquece, os rios perdem o seu pulso estável.

O Noroeste do Pacífico é um exemplo evidente, mas padrões semelhantes podem surgir em regiões montanhosas de todo o mundo.

Perceber como a água se desloca - e não apenas quanta água cai - será determinante para gerir os recursos hídricos no futuro.

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