Dia e noite, muitas pessoas apertam ou rangem os dentes sem darem por isso. Faça a si próprio estas três perguntas.
Pelo menos uma vez por semana, você:
- sente dor ou sensibilidade na têmpora, na face, no maxilar ou junto ao ouvido?
- tem dor ao abrir a boca ou ao mastigar?
- nota que o maxilar bloqueia, estala ou fica preso?
Se respondeu “sim” a pelo menos uma destas perguntas, é possível que esteja a apertar ou a ranger os dentes (o chamado bruxismo).
Então, porque é que isto acontece? E haverá forma de parar? Vamos ver.
O que acontece quando aperta ou range os dentes (bruxismo)?
Apertar ou ranger os dentes é um acto involuntário. Sem nos apercebermos, activamos os músculos da mastigação, contraindo-os, empurrando ou retraindo a mandíbula inferior e juntando os dentes com força - seja a apertá-los, seja a esfregá-los uns contra os outros.
Quase uma em cada seis pessoas faz isto durante o sono, e cerca de uma em cada quatro fá-lo quando está acordada.
Quando ocorre enquanto dormimos, o ranger pode produzir um som muito característico. (Se dorme acompanhado, é possível que seja o seu parceiro a dar por isso!)
Faz mal?
Quando é ligeiro e esporádico, apertar ou ranger os dentes raramente causa problemas.
Mas, se acontece com frequência ou com muita força, este hábito pode desencadear várias alterações nos dentes, na articulação do maxilar e nos músculos, perturbar o sono e contribuir para cefaleias de tensão ou dor no ouvido.
Com o tempo, estas situações podem tornar-se dolorosas e também dispendiosas de tratar.
Além disso, a longo prazo, pode levar a fracturas e fissuras dentárias.
Porque é que eu faço bruxismo (aperto ou ranjo os dentes)?
Na maioria dos casos, há uma combinação de factores físicos, psicológicos e de estilo de vida.
A probabilidade de apertar e ranger aumenta se:
- vive com stress, ansiedade ou depressão
- toma determinados medicamentos, incluindo alguns usados no controlo da esquizofrenia, da psicose e da depressão
- consome em excesso cafeína, nicotina e/ou álcool
- tem sono interrompido, inclusive por ruídos inesperados, como notificações do telemóvel
Existe ainda uma associação forte com a apneia do sono - uma condição em que a respiração pára repetidamente durante o sono, reduzindo o fornecimento de oxigénio ao cérebro e ao corpo.
Quando o oxigénio está baixo, o organismo liberta hormonas do stress. Estas aumentam a frequência cardíaca e podem desencadear espasmos musculares por todo o corpo, o que também pode intensificar o apertar e o ranger.
O dentista consegue perceber só de olhar para os dentes?
O dentista costuma começar por rever problemas de saúde e a medicação que toma. É provável que pergunte se sente dor no maxilar, dores de cabeça, dificuldade em mastigar ou episódios de bloqueio do maxilar. Também pode questionar como tem dormido.
Na observação intra-oral, procurará dentes ou restaurações lascados e sinais de desgaste.
Um desgaste dentário invulgarmente acentuado pode igualmente indicar refluxo ácido. Neste caso, o ácido do estômago pode chegar à boca e amolecer o esmalte - a camada dura que protege o dente.
Por isso, quem aperta e range os dentes e, ao mesmo tempo, sofre de refluxo tende a lascar e desgastar os dentes com maior rapidez.
Outro sinal frequente são linhas esbranquiçadas no interior das bochechas e marcas onduladas à volta da língua. Estas aparecem quando, ao apertar ou ranger, as bochechas e a língua ficam pressionadas contra os dentes.
Outros sinais que o dentista pode procurar incluem:
- gengivas retraídas ou diminuídas
- dentes soltos ou com mobilidade e
- dentes que se deslocaram da sua posição original
O que posso fazer?
O bruxismo (apertar e ranger os dentes) tem, regra geral, boa margem de controlo. Um profissional de saúde pode ajudá-lo a perceber as causas e a aliviar os sintomas.
O seu médico pode rever a medicação e investigar possíveis problemas subjacentes, como refluxo, artrite na articulação do maxilar ou apneia do sono.
Pode também pedir ao médico para o avaliar em relação à apneia do sono, de forma a perceber se precisa de um exame de polissonografia.
Este exame é considerado o padrão de referência para diagnosticar perturbações do sono, incluindo o apertar e o ranger dos dentes.
Para decidir se o exame se justifica, o médico fará perguntas sobre a qualidade do sono, níveis de fadiga e se adormece durante actividades do dia-a-dia.
Um fisioterapeuta com especialização em dor maxilar pode ajudar em casos de bloqueio articular, estalidos ou cefaleias de tensão, recorrendo a uma combinação de exercícios específicos e alongamentos adaptados.
A medicação analgésica também pode ser útil.
O dentista pode sugerir uma goteira nocturna ou uma placa oclusal para proteger os dentes do desgaste, diminuir a tensão muscular e reduzir os estalidos do maxilar. Estes dispositivos, geralmente em acrílico ou nylon, são feitos à medida para se adaptarem aos dentes do maxilar superior - semelhantes a um protector bucal desportivo, mas mais pequenos.
Quando estas opções não são suficientes para controlar os sintomas, algumas pessoas ponderam injecções de toxina botulínica para bloquear os sinais que comandam certos movimentos dos músculos do maxilar, reduzindo o apertar e a dor associada.
Ainda assim, a toxina botulínica é cara e não resulta em todos os casos. Além disso, o efeito é temporário, pelo que serão necessárias consultas frequentes com um neurologista ou um dentista com formação específica.
Em síntese
Se suspeita que está a apertar ou a ranger os dentes, o melhor primeiro passo é falar com o seu médico ou dentista.
No entanto, convém lembrar: fisioterapia, goteiras e analgésicos actuam sobretudo nas consequências do apertar e do ranger - não nas causas.
Por isso, também vale a pena procurar estratégias para reduzir o stress e consolidar bons hábitos de sono.
Pequenas mudanças para relaxar e desacelerar - como reduzir a cafeína e o álcool e manter os dispositivos electrónicos fora do quarto à noite - podem melhorar a saúde e ajudar a evitar dor e tratamentos dispendiosos.
- Arosha Weerakoon, Docente Sénior e Dentista Generalista, Faculdade de Medicina Dentária, Universidade de Queensland, e Amit Arora, Professor Associado em Saúde Pública, Universidade de Sydney Ocidental*
Este artigo é republicado a partir de The Conversation ao abrigo de uma licença Creative Commons. Leia o artigo original.
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