A domesticação do fogo é frequentemente apontada como a faísca que deu início ao percurso evolutivo que conduziu a humanidade aos níveis actuais de inteligência. De acordo com a chamada hipótese da culinária, o fogo permitiu aos primeiros humanos acederem a um leque mais amplo de alimentos seguros, alimentando o crescimento de cérebros maiores e abrindo caminho ao aparecimento do Homo sapiens.
Sedimentos cozidos e pirite indicam fogo deliberado em Barnham (Reino Unido)
Uma descoberta recente de sedimentos cozidos, artefactos e fragmentos de pirite usada para acender fogo, encontrada numa pedreira de argila no Reino Unido, sugere que os humanos já tinham capacidade para criar fogo há mais de 400.000 anos.
"Esta descoberta extraordinária recua este ponto de viragem em cerca de 350.000 anos", afirma o arqueólogo do British Museum Rob Davis.
"As implicações são enormes. A capacidade de criar e controlar o fogo é um dos pontos de viragem mais críticos da história humana, com benefícios práticos e sociais que alteraram a evolução humana."
Os investigadores suspeitam que o uso do fogo tenha começado de forma oportunista, com humanos a aproveitarem chamas provenientes de incêndios florestais. Há evidências deste tipo de utilização do fogo com mais de 1 milhão de anos, uma prática que poderá ter sido valiosa para a preservação de carne e para outras formas de cozinhar.
Ainda assim, a aptidão para iniciar fogos - em vez de apenas manter os já existentes - terá surgido mais tarde.
Até aqui, a prova directa mais antiga de fogo deliberadamente produzido por humanos tinha apenas 50.000 anos. Uma análise de 2018 a machados de mão encontrados em França sugeriu que estes eram repetidamente percutidos contra um mineral como a pirite - um procedimento capaz de gerar faíscas.
Agora, Davis e colegas identificaram dois pequenos fragmentos de pirite oxidada em Barnham, uma localidade no Reino Unido. Um destes fragmentos apareceu perto de artefactos aquecidos, incluindo quatro machados de mão de sílex estilhaçados pelo calor e uma lareira marcada por sedimento avermelhado.
"Estudos geológicos mostram que a pirite é localmente rara, o que sugere que foi levada deliberadamente para o local com o propósito de fazer fogo", escrevem os investigadores no artigo.
Os testes aos sedimentos cozidos também indicaram que as suas propriedades resultaram, com elevada probabilidade, de aquecimento repetido, compatível com uso humano - uma fogueira - e não com uma combustão única e isolada.
Na Inglaterra do Paleolítico, os autores apontam que os responsáveis por estes acendedores de fogo seriam provavelmente Neandertais, o que reforça a ideia de que os nossos parentes mais reservados eram capazes de comportamentos complexos, incluindo pensamento abstracto e avanços tecnológicos.
A capacidade de produzir fogo teria permitido aos humanos alimentar-se e criar laços em grupos maiores. Além disso, o fogo deu aos nossos antepassados acesso a novas tecnologias, como a produção de cola para ferramentas mais avançadas.
"O acesso ao fogo durante todo o ano teria proporcionado um foco comunitário reforçado, potencialmente como catalisador para a evolução social", concluem Davis e a equipa.
"Ter-se-ia tornado possível cozinhar de forma rotineira, o que poderia ter alargado o consumo de raízes, tubérculos e carne, reduzido a energia necessária para a digestão e aumentado a ingestão de proteína.
"Estas melhorias alimentares podem ter contribuído para um aumento do tamanho do cérebro, para uma cognição mais apurada e para o desenvolvimento de relações sociais mais complexas."
Esta investigação foi publicada na Nature.
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