Cientistas encerraram na quarta-feira antigos fragmentos de gelo glaciar num santuário inédito na Antártida, na esperança de conservar, durante séculos, estes registos do passado climático da Terra que estão a desaparecer a grande velocidade.
Os dois núcleos de gelo retirados dos Alpes europeus são os primeiros a ser guardados numa gruta de neve construída de propósito no continente gelado - um espaço que, no futuro, deverá acolher um arquivo de valor incalculável com amostras provenientes de várias regiões do mundo.
Instalado na Estação Concordia, a 3 200 metros de altitude, no interior da Antártida, este santuário do gelo irá manter a colecção em armazenamento natural, a -52 °C, sem necessidade de qualquer sistema de refrigeração.
Os núcleos de gelo fornecem informações preciosas sobre condições climáticas de milhares de anos, e estas amostras poderão permitir que cientistas do futuro decifrem os seus segredos muito depois de os glaciares de origem terem desaparecido.
“Proteger aquilo que, de outra forma, se perderia de forma irreversível… é um esforço para a humanidade”, afirmou Thomas Stocker, cientista climático suíço e presidente da Ice Memory Foundation, a entidade que liderou a iniciativa.
O projecto, ambicioso, levou quase uma década a concretizar-se e implicou desafios não só logísticos, como também diplomáticos, sem precedentes.
O santuário é, na prática, uma gruta com 35 metros de comprimento e 5 metros de altura e largura, escavada a cerca de 10 metros abaixo da superfície, numa massa de neve compacta onde as temperaturas negativas se mantêm constantes.
Em Concordia, sob céu limpo mas com frio intenso, a cerca de 1 000 quilómetros da costa, os cientistas cortaram uma fita azul no momento em que as últimas caixas com amostras de núcleos provenientes do Mont Blanc e do Grand Combine foram colocadas dentro do cofre gelado.
Nas próximas décadas, a intenção é reforçar o arquivo com gelo glaciar de regiões montanhosas como os Andes, os Himalaias e o Tajiquistão, onde a AFP assistiu, em Setembro, à extracção de um núcleo com 105 metros.
Segredos invisíveis dos núcleos de gelo no santuário antárctico
Extraídos das profundezas de glaciares de montanha, os núcleos de gelo vão sendo compactados lentamente ao longo do tempo e aprisionam poeiras e outros indicadores climáticos capazes de contar histórias sobre condições meteorológicas antigas.
Uma camada de gelo transparente sinaliza um período mais quente, em que o glaciar derreteu e voltou a congelar; já uma camada de baixa densidade aponta para neve compactada - e não gelo -, o que pode ajudar a estimar a precipitação.
Amostras frágeis e estaladiças, com fissuras, por sua vez, sugerem queda de neve sobre camadas meio derretidas que depois recongelaram.
Outros sinais permitem obter informação adicional: materiais vulcânicos, como iões de sulfato, podem funcionar como marcadores temporais, enquanto isótopos da água podem revelar temperaturas.
Ainda assim, o verdadeiro valor destas amostras “está no futuro”, afirmou Carlo Barbante, cientista climático italiano e vice-presidente da Ice Memory Foundation.
“Os cientistas irão usar tecnologias que hoje nem sequer conseguimos imaginar e vão extrair do gelo segredos que, neste momento, nos são invisíveis”, disse.
Contudo, estes registos delicados estão a desaparecer rapidamente à medida que o planeta aquece, e os cientistas avisam que, nas próximas décadas, milhares de glaciares irão desaparecer todos os anos.
Na quarta-feira, monitores climáticos dos Estados Unidos e da Europa confirmaram que 2025 foi o terceiro ano mais quente de que há registo, prolongando uma sequência de calor sem precedentes, impulsionada em grande parte pela queima de combustíveis fósseis pela humanidade.
“Estamos numa corrida contra o tempo para salvar este património antes que desapareça para sempre”, afirmou Barbante.
Bem global
Para lá das questões ambientais, a escolha do local pretende garantir o estatuto neutral dos núcleos de gelo, de modo a que fiquem protegidos de interferências políticas e acessíveis a todos.
O santuário funciona numa estação de investigação franco-italiana situada em território regido por um tratado global, e o acesso futuro deverá ser concedido apenas com base no mérito científico.
Ainda assim, estas questões eram “delicadas”, porque actualmente não existe um enquadramento legal que regule uma iniciativa deste tipo, disse à AFP, antes da inauguração do santuário, a directora da fundação, Anne-Catherine Ohlmann.
Era essencial que “este património seja governado para que estes núcleos de gelo estejam disponíveis dentro de algumas décadas, talvez até alguns séculos, para os beneficiários certos, pelas razões certas, para a humanidade”, afirmou.
© Agence France-Presse
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