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Maláui revela a mais antiga **pira funerária** conhecida para um adulto

Arqueólogo escava ossos fósseis numa cova perto de rochas, com ferramentas e desenhos ao lado.

Num antigo abrigo rochoso no coração do Maláui, arqueólogos identificaram a evidência mais antiga do mundo de uma pira funerária para um adulto.

Os vestígios carbonizados, com 9,500 anos, indicam que a pessoa falecida era uma mulher que teria entre 18 e 60 anos quando morreu e que o seu corpo foi cuidadosamente preparado para ser cremado numa grande pira, mantida a arder durante muitas horas. Este acto inseriu-se num ritual funerário deliberado num local que já era usado para práticas relacionadas com a morte há, pelo menos, 8,000 anos.

Uma equipa liderada pela antropóloga Jessica Cerezo-Román, da Universidade do Oklahoma, descreve-o como "a evidência mais antiga de cremação intencional em África, a mais antiga pira adulta in situ do mundo".

A descoberta amplia aquilo que se sabe sobre funerais de caçadores-recolectores, sugerindo que os seus ritos podiam ser bastante mais elaborados do que se supunha.

Cremação intencional e rituais dos caçadores-recolectores: planeamento, recursos e memória social

A cerimónia implicou planeamento e construção, além de um investimento considerável de recursos para recolher e alimentar a grande quantidade de lenha necessária para manter a pira a queimar durante horas, ou mesmo mais tempo.

A utilização continuada do local aponta também para uma memória social partilhada e, possivelmente, até para formas de veneração de antepassados que, durante muito tempo, se pensou serem reduzidas entre grupos de forrageadores móveis.

A solenidade com que os humanos lidam com a morte existe há muitos milénios: o mais antigo enterramento intencional conhecido data de 78,000 anos. Já indícios ainda mais antigos de enterramentos intencionais, possivelmente atribuíveis a outras espécies de hominíneos, continuam a ser alvo de intensa contestação.

No caso da cremação, a evidência é rara antes de cerca de 7,000 anos atrás, sobretudo em culturas de caçadores-recolectores. Os restos humanos cremados mais antigos, encontrados enterrados no Lago Mungo, na Austrália, datam de aproximadamente 40,000 anos, mas não foi identificada qualquer pira.

A mais antiga pira confirmada in situ (quando os restos são encontrados exactamente onde a cremação ocorreu, numa fogueira construída para esse fim) recua a 11,500 anos no que é hoje o Alasca, num rito funerário dedicado a uma criança pequena.

Depois desse episódio, não volta a surgir evidência de cremação em pira até cerca de 7,000 anos atrás, em Beisamoun, no Levante meridional.

O sítio HOR-1, no Monte Hora (Maláui), e o caso de Hora 3

Na base do Monte Hora, no Maláui, existe um sítio arqueológico conhecido como HOR-1, onde há registos de actividade humana ao longo de um período estimado de 21,000 anos. Entre 16,000 e 8,000 anos atrás, o local foi utilizado para práticas mortuárias. Até agora, os arqueólogos identificaram ali os restos de, pelo menos, 11 indivíduos.

Apenas um desses indivíduos apresenta sinais de cremação antes do enterramento. A sua designação oficial é Hora 3 e, embora só tenham sido recuperadas partes do seu esqueleto - ossos dos membros, partes das vértebras e da bacia, e algumas falanges - esses fragmentos, juntamente com o grande depósito de resíduos cinzentos onde apareceram, permitem reconstruir com nitidez o que terá sido o seu ritual funerário.

As marcas de queima e as fracturas nos ossos mostram que foram expostos a temperaturas elevadas durante um período prolongado. Além disso, as incisões observadas indicam que algumas partes do corpo de Hora 3 foram desarticuladas antes da cremação.

Os padrões de coloração nos ossos revelam ainda que estes foram deslocados durante a cremação, possivelmente à medida que o fogo era alimentado e remexido.

Não foram encontrados quaisquer fragmentos do crânio nem dentes, o que sugere que a cabeça poderá ter sido retirada antes da queima. Esta prática - para a qual existem indícios noutros sítios arqueológicos da região - estará provavelmente "relacionada com práticas mortuárias associadas à lembrança, à memória social e à veneração de antepassados, que envolviam a manipulação e a curadoria póstumas de partes do corpo", escrevem os investigadores no artigo publicado.

Entretanto, a extensão e o conteúdo do depósito de cinzas são compatíveis com uma pira composta por, pelo menos, 30 kilograms (66 pounds) de madeira morta, ervas e folhas - um volume significativo de recursos reunidos que teria produzido um fogo duradouro.

Camadas de cinzas sobrepostas aos restos sugerem também que o mesmo ponto continuou a ser usado para fogueiras durante várias centenas de anos após a cremação.

Para os investigadores, isto indica que o sítio era provavelmente aquilo a que os arqueólogos chamam um "lugar persistente", possivelmente associado a território, e que reflecte ligações ancestrais numa paisagem que, ainda hoje, permanece monumental.

"A história de construção de grandes fogueiras nesse local do sítio, a manutenção associada ao evento de cremação e os subsequentes grandes episódios de queima reflectem uma tradição profundamente enraizada de usar e revisitar repetidamente o sítio, intrinsecamente ligada à criação de memória e ao estabelecimento de um 'lugar persistente'", escrevem.

"Estas práticas sublinham actividades mortuárias e rituais complexas, com origens anteriores ao advento da produção de alimentos, e desafiam pressupostos tradicionais sobre a cooperação à escala comunitária e a criação de lugares em sociedades tropicais de caçadores-recolectores."

A investigação foi publicada na revista Avanços da Ciência.

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