Mapa do neocórtex: um atlas cerebral com dados de mais de 30 milhões de células e quase 200 estudos revela como se forma e onde surgem falhas
Investigadores do Instituto de Medicina da Johns Hopkins e colaboradores de vários países construíram um mapa molecular do cérebro humano, com foco no neocórtex - a camada externa responsável pelas funções cognitivas.
O atlas assenta em dados de quase 200 estudos publicados e na análise de mais de 30 milhões de células. Com ele, é possível explorar ligações genéticas e vias associadas a condições como perturbações do espetro do autismo e doença de Alzheimer, que afetam milhões de pessoas em todo o mundo.
O responsável pelo estudo, o doutor Carlo Colantuoni, afirmou que o objetivo do trabalho é compreender os mecanismos celulares que moldam o neocórtex e detetar sinais precoces de atrasos no desenvolvimento e de doenças do cérebro. Segundo o investigador, isso pode apoiar a criação de novas terapias.
O estudo integra ainda modelos do cérebro de mamíferos e de ratos, que ajudam a mostrar de que forma a evolução levou à expansão do neocórtex no ser humano. Por exemplo, a maturação dos neurónios no neocórtex humano demora anos, ao passo que nos ratos esse processo leva apenas algumas semanas.
O atlas permite acompanhar as fases do desenvolvimento cerebral ao nível celular, identificando padrões de crescimento normais e desvios ligados a doenças neurodegenerativas. Isto é particularmente relevante para compreender condições raras, como a microcefalia, que afeta o crescimento do cérebro ainda antes do nascimento.
Os cientistas criaram também um portal web aberto, onde investigadores sem competências de programação podem analisar a expressão génica, a coordenação de módulos genéticos e adicionar os seus próprios dados para ampliar o recurso. Isto torna o atlas acessível a um vasto conjunto de especialistas.
Este trabalho faz parte de uma iniciativa mais ampla, o Atlas das Células Humanas (HCA), que desde 2016 mapeia todas as células do corpo humano. As investigações do HCA já conduziram à descoberta de novos tipos de células e a uma melhor compreensão do funcionamento dos órgãos.
O atlas cerebral junta-se a esforços para estudar o efeito dos opioides no cérebro, a regeneração das células ciliadas do ouvido interno para recuperar a audição e a distribuição de vias celulares na demência. Estes estudos ajudam a identificar novos alvos moleculares para tratamento.
Colantuoni sublinhou a importância de envolver parceiros académicos e industriais para investir em projetos deste tipo. No futuro, a utilização de algoritmos de inteligência artificial para analisar grandes volumes de dados e modelar sistemas de células estaminais poderá levar à criação de abordagens terapêuticas personalizadas ligadas às doenças neurodegenerativas.
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