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Parece ter chegado a um impasse burocrático o Retorno de Amostras de Marte (MSR)

Homem a analisar amostras de Marte num laboratório com imagem do rover e plano B desenhado na mesa.

A missão Mars Sample Return (MSR) da NASA parece ter esbarrado num muro burocrático antes de cumprir a sua promessa.

Era suposto ser a grande consagração do estudo de Marte, mas o Congresso dos EUA cortou drasticamente o financiamento e, na prática, travou a missão tal como tinha sido concebida.

Apesar de décadas de investigação e de avanços tecnológicos, a questão da habitabilidade de Marte continuou difícil de fechar. Os rovers Curiosity e Perseverance alargaram e aprofundaram o nosso entendimento do planeta e trouxeram indícios tentadores de períodos quentes e húmidos, compatíveis com a vida.

Mas o passo seguinte era trazer para a Terra amostras de rocha marciana, para que os laboratórios modernos pudessem analisá-las com todo o seu potencial.

Já em 2011, devolver amostras de Marte era visto como uma prioridade elevada nas iniciativas de ciência planetária da NASA.

Ainda hoje, a página da NASA dedicada à MSR diz que “Mars Sample Return (MSR) would be NASA's and ESA's (European Space Agency) ambitious, multi-mission campaign to bring carefully selected samples to Earth.”

“MSR would fulfill one of the highest-priority Solar System exploration goals from the science community. Returned samples would revolutionize our understanding of Mars, our Solar System, and prepare for human explorers to the Red Planet.”

O rover Perseverance foi a primeira fase da missão e tem cumprido esse papel de forma exemplar. O robô recolheu e armazenou 33 tubos com amostras de rochas e poeiras interessantes, prontos para serem recuperados pela MSR.

Agora, o destino dessas amostras ficou incerto.

A NASA sabia que estava a entrar em terreno difícil. O custo estimado para recuperar as amostras subiu para 11 mil milhões de dólares. Depois de trabalharem em novas arquiteturas de missão, conseguiram baixar a estimativa para cerca de 7 mil milhões.

Mas continuavam a ser apenas estimativas e, por se tratar de uma missão sem precedentes, havia uma grande margem de incerteza nesses valores.

O problema é o dinheiro. A NASA está sob forte pressão para reduzir o orçamento. Como a MSR continuava a exigir verbas avultadas e a tecnologia necessária ainda não estava totalmente clara, tornou-se a candidata óbvia ao cancelamento.

A missão era extremamente complexa. O desenho atual previa o envio de um lander para a superfície. O Perseverance entregaria os tubos de amostras ao lander e, se isso não fosse possível, um par de pequenos helicópteros de recolha trataria da tarefa.

O lander também levaria um foguetão que enviaria as amostras para a órbita marciana. A partir daí, estas encontrariam uma nave em órbita que as traria de volta à Terra. Dizer que se tratava de uma operação complexa é pouco.

O orçamento ainda reserva algum dinheiro para desenvolver tecnologia ligada a futuras explorações de Marte, mas trata-se de um montante reduzido.

Parte desse dinheiro poderá dar origem a novas soluções e a uma forma mais económica de recuperar as amostras já armazenadas. Mas isso está longe de ser certo.

Também é possível que se desenvolva tecnologia capaz de analisar eficazmente as amostras à superfície, tornando desnecessário o regresso à Terra. Só que a capacidade dos laboratórios terrestres também continuará a evoluir ao mesmo ritmo. É difícil imaginar como estudá-las em Marte poderá alguma vez ser tão eficaz como estudá-las aqui.

O futuro está sempre por escrever e ninguém o conhece ao certo. Talvez a MSR seja retomada mais tarde. Talvez a ESA avance sozinha. A China tem planos para uma missão de retorno de amostras de Marte e, com o caminho agora aberto, pode tornar-se a primeira a trazer material marciano para a Terra.

Ainda assim, a sua missão não é tão sofisticada como a da NASA/ESA. Enquanto as amostras do Perseverance foram escolhidas com grande cuidado para maximizar o valor científico, a missão chinesa é mais do tipo “apanhar e seguir viagem”.

Felizmente, é provável que os tubos de amostras fiquem ali à espera durante muito tempo, sem grande risco de degradação no ambiente frio e seco de Marte.

Mas, para os cientistas que dedicaram coração e cabeça a esta missão ambiciosa, a notícia terá de ser profundamente desoladora.

Este artigo foi originalmente publicado pela Universe Today. Leia o artigo original.

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