O inverno tem o hábito de pôr a compostagem em pausa. No meu caso, foi uma geada teimosa que transformou o monte de composto, bem arrumado atrás da arrecadação, numa massa silenciosa e sem vida. Eu saía com o balde das cascas, a pisar a relva fria, levantava a tampa… e nada. Nem vapor, nem cheiro a terra, nem o mínimo sinal de actividade. Só restos frios, pesados, a acusarem-me em silêncio. Lembro-me de pensar: “Pronto, acabou. Meses de trabalho para ficar ali parado até à primavera.”
Depois, um vizinho mais velho - daqueles cujas roseiras fazem a rua abrandar - inclinou-se por cima da vedação e mudou tudo com meia dúzia de palavras. Contou-me que usava há anos um “arranque” caseiro quando o monte se recusava a mexer. Uma mistura simples, saída da cozinha e da despensa, disse ele, como quem acorda o composto com uma chávena de café forte. Experimentei uma vez - e o que aconteceu nas duas semanas seguintes ainda pareceu um pequeno truque de magia.
The winter compost heartbreak no one talks about
Se já começaste um monte de composto no outono cheio de esperança, sabes bem o que é essa desilusão do inverno. Folhas secas, aparas de relva, borras de café e restos de legumes, em camadas como uma lasanha de boas intenções. Ficas a olhar, de mãos na cintura, a imaginar composto negro e esfarelado a alimentar as feijoeiras do ano seguinte. Depois a temperatura desce, o monte arrefece, e simplesmente… pára. Nada de vapor quando o viras, nada de redução de volume, nenhum sinal de que haja vida a trabalhar ali dentro.
Todos conhecemos aquele momento em que enfiamos a mão enluvada no monte e só sentimos frio e humidade desapontada. O problema é que os microrganismos que fazem o trabalho pesado na compostagem são como nós: abrandam quando estão com frio e mal-dispostos. A chuva encharca o monte, os nutrientes lixiviam-se, os restos de cozinha ficam pegajosos e compactados. Começas a perguntar-te se construíste, afinal, uma morada barata para ratos em vez de uma fábrica de solo. O romantismo de “fechar o ciclo” passa de repente a parecer um saco do lixo encharcado.
Sejamos honestos: ninguém anda todos os dias, em janeiro, a virar o composto de forquilha na mão, feliz da vida, debaixo da chuva miúda. A maioria de nós faz uma corrida culpada até ao balde, despeja lá as cascas e volta depressa para o quente. O monte fica esquecido até àquela tarde luminosa de fim de fevereiro em que vamos ver o progresso e percebemos que não há progresso nenhum. É aqui que entra este pequeno ativador caseiro. Não substitui bons hábitos de compostagem, mas dá a sensação de estar a empurrar a natureza com delicadeza, em vez de confiar apenas na sorte.
The neighbour’s secret: a homemade “shot of espresso” for the heap
No dia em que soube deste ativador de inverno, o meu vizinho Ken apareceu com um frasco de compota gasto e um sorriso de canto. “O teu monte está a amuar”, disse ele, olhando para a massa congelada junto à vedação. “Está a precisar de comida a sério.” Dentro do frasco havia um líquido castanho turvo, com um cheiro ligeiramente doce e a fermentado, como cerveja fraca esquecida durante a noite. Não parecia, de todo, uma solução milagrosa. Ainda assim, os compostos dele eram lendários, por isso ouvi-o.
What gardeners are actually mixing
Ao longo das últimas épocas, percebi que o Ken não era o único a fazer isto. Jardineiros de várias zonas juram por alguma versão da mesma mistura caseira nos meses frios. A ideia central é sempre a mesma: dar ao monte um impulso de nutrientes rápidos e uma dose fresca de microrganismos para o acordar. A mistura mais comum, que passa discretamente de boca em boca nas hortas, é surpreendentemente simples:
Um balde de água morna, uma boa dose de melaço escuro sem enxofre ou de melaço, uma colherada de terra de jardim ou composto já feito e - esta parte faz algumas pessoas torcer o nariz - um gole de iogurte líquido, kefir, ou até um pouco de cerveja ou fermento de padeiro. Mexe-se tudo até ficar com ar de chocolate quente ligeiramente suspeito. Depois deita-se devagar sobre o monte, insistindo nas zonas mais frias e mais compactadas. É só isso. Nada de ativadores de marca, nada de pós misteriosos. Apenas uma experiência de despensa.
A explicação que se ouve por cima da vedação é deliciosamente pouco científica: “Dá aos micróbios qualquer coisa interessante para comer.” Os açúcares do melaço funcionam como uma bebida energética, enquanto as culturas vivas e a terra trazem bactérias e fungos novos para inocular o monte. A água morna ajuda a elevar ligeiramente a temperatura. Não estás a ressuscitar um monte morto; estás a convencer um monte sonolento a levantar-se com cheiro a pequeno-almoço. Tem qualquer coisa de íntimo cuidar deste mundo invisível, lento, por baixo de uma tampa de paletes velhas.
What actually happens inside the heap
Não precisas de uma licenciatura em biologia para notar a diferença. Alguns dias depois daquela primeira “dose”, voltei com a forquilha e enfiei-a no centro do monte. Subiu uma ligeira nuvem de vapor para o ar frio, trazendo aquele cheiro confortável de chão de floresta húmido. A textura também tinha mudado: menos viscosa, mais esfarelada em certos pontos, como se alguma coisa se tivesse lembrado finalmente da sua função. Não foi dramático, mas foi inconfundível. O monte tinha acordado.
Por trás dessa pequena magia há um processo muito simples. Os açúcares e os microrganismos adicionados dão à comunidade já existente um reforço rápido de energia. Começam a consumir de novo o carbono e o azoto frescos do monte - o cartão rasgado, as borras de café, os restos de cozinha. À medida que se alimentam, multiplicam-se; e, ao multiplicarem-se, geram calor. Mesmo que o interior do monte fique só alguns graus mais quente já faz diferença no inverno, mantendo o sistema a funcionar em vez de congelar no lugar.
The quiet satisfaction of a living pile
Há um tipo muito particular de satisfação em sentir o centro de um monte de composto mais quente do que a própria mão enluvada num dia gelado. É um lembrete de que, mesmo quando o jardim parece morto - canteiros nus, hastes caídas, o bebedouro das aves congelado -, há sempre qualquer coisa a acontecer debaixo da superfície. A vida não pára realmente; abranda, encolhe-se, espera. Quando esse monte se mexe, sentes-te estranhamente incluído nesse ritmo, como se tivesses mantido uma pequena chama acesa quando tudo o resto se apagou.
Muitos jardineiros com quem falei descrevem a mesma pequena dose de orgulho. Não o orgulho de Instagram, com canteiros perfeitos e saquetas de sementes arrumadas. Mas aquela satisfação discreta e íntima de saber que as cascas de cebola e a caixa de cartão da semana passada já estão a caminho de se tornarem nos tomates da próxima primavera. **Esse ativador caseiro deixa de ser um “truque” e passa a ser quase um ritual - uma forma de dizer “ainda não desisti disto”, mesmo com os dedos gelados e as botas a desfazer lama.**
How people actually use it in real, messy gardens
Se leres livros de jardinagem muito polidos, ficas com a impressão de que toda a gente faz camadas de composto como se estivesse a montar uma lasanha perfeita, mede a temperatura, vira semanalmente e regista tudo num caderno. Vamos ser realistas: a maioria de nós deita coisas para lá quando se lembra, às vezes esquece-se de picar o cartão, e só vira o monte quando a culpa fica demasiado alta. É por isso que este ativador de inverno se espalhou mais por sussurros e histórias do que por esquemas bonitos. Cabe bem na realidade de fins de tarde apressados e domingos encharcados.
A maioria dos jardineiros que conheci não complica a receita. Uma pessoa de uma horta em Leeds contou-me que enche um regador com água morna, junta uma colher generosa de melaço barato, acrescenta uma caneca de composto esfarelado do ano anterior, mexe com o que estiver à mão e deita por cima. Um homem de Kent garante que um gole de cerveja sem gás da noite anterior “põe tudo a mexer mais depressa do que qualquer produto da loja”. Outra pessoa confessou que usa apenas o líquido que sobra do kefir e chama-lhe “tónico para composto”. Versões diferentes, o mesmo instinto.
O ritmo costuma ser simples e indulgente. Uma dose a cada três ou quatro semanas nos períodos frios, muitas vezes depois de juntares uma boa camada de material novo. Se puderes, vira o monte; se não, pelo menos enfiar a forquilha para criar alguns canais por onde o líquido possa entrar. Depois deixa o tempo fazer o resto. **Ninguém anda com cronómetro e termómetro na mão; apenas presta um pouco mais de atenção e dá uma ajuda ao composto quando ele começa a fazer birra.**
The small, ordinary scenes that make it stick
Uma das minhas memórias favoritas de inverno é o pequeno jardim urbano de uma amiga. Puxou-me para fora numa tarde gelada para “conhecer o composto”, com uma camisola larga vestida por cima de tudo, uma chávena de chá a fumegar numa mão e botas de borracha desalinhadas nos pés errados. Levantou a tampa, deitou a estranha mistura doce e ficámos os dois a inclinar-nos por cima, à espera de ver absolutamente nada acontecer. Rimo-nos de nós próprios, dois adultos a olhar para um contentor de plástico como se ele estivesse prestes a começar a cantar.
Duas semanas depois, ela enviou-me uma fotografia: uma forquilhada de composto escuro, a fumar levemente, ainda meio feito, com a legenda triunfante “ESTÁ VIVO”. É isso que mantém as pessoas a fazer isto. Não é a ciência, nem a teoria, mas aqueles pequenos momentos de satisfação quase ridículos. Quando algo de que quase desististe muda de rumo em silêncio e prova que sempre esteve a funcionar, só que ao seu teimoso ritmo.
What this little ritual gives back in spring
Quando a primavera finalmente chega, a diferença é difícil de ignorar. Os montes que receberam estes “tratamentos” de inverno tendem a estar mais adiantados: mais esfarelados, mais escuros, mais fáceis de espalhar nos canteiros. Não perfeitos, nem terminados em todo o lado, mas visivelmente vivos. O material do fundo parece mesmo algo em que confiarias para as tuas mudas, e não lixo velho sem nome. Para quem jardina, isso é ouro. Ouro negro, a desfazer-se entre os dedos enquanto os pássaros fazem barulho na vedação.
Há qualquer coisa de discreta e comovente em usar composto que mantiveste vivo durante o inverno para plantar vida nova. Espalhas esse material junto a roseiras que pareciam mortas dois meses antes. Colocas-o em vasos onde os tomates, ainda meio fraquinhos, vão acabar por se encher de frutos. Apertas um pouco entre os dedos e ele cheira a rico, a terra, a vivo sem pedir desculpa. **A lembrança de estar no frio a deitar aquela mistura morna sobre um monte teimoso volta de repente - e tudo passa a parecer ter valido a pena, até às botas enlameadas e às pontas dos dedos dormentes.**
A small act of faith in the grey months
O que mais gosto neste ativador caseiro de composto não é o facto de ser engenhoso, barato ou satisfatoriamente DIY, embora seja tudo isso. É o facto de te pedir para continuares a acreditar no teu jardim quando parece que nada vai voltar a crescer. Ficas ali, na chuva cinzenta, a mexer água morna, melaço, um pouco de terra, talvez um gole de iogurte ou cerveja, e deitas tudo por cima de um monte que a maior parte das pessoas chamaria lixo. Depois afastas-te e confias que algo invisível vai acordar.
Nem todos os lotes fazem milagres. Há montes que continuam lentos, invernos demasiado duros, misturas mais entusiasmadas do que outras. Ainda assim, depois de veres um monte frio e sem vida voltar devagarinho ao movimento depois de uma ou duas doses deste preparado caseiro, é difícil regressar a simplesmente esperar que o tempo resolva tudo. Começas a perceber que, mesmo nos meses mais calmos, o jardim está atento. E com um balde, uma colher e um pouco de fé, podes sussurrar: “Ainda não. Isto ainda não acabou.”
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