A história do Citroën ZX Rally Raid C05 e o seu percurso nos ralis-raid
Nem todos os automóveis chamados a brilhar no próximo leilão do Concurso d’Eleganza Villa d’Este fazem da elegância ou do requinte a sua principal arma. O Citroën ZX Rally Raid foi, desde o início, pensado para se impor nas mais duras provas mundiais de todo-o-terreno, herdando a responsabilidade do Peugeot 405 Turbo 16 Grand Raid e trocando qualquer preocupação estética pela máxima eficácia competitiva.
Esse caminho depressa o transformou num dos projectos mais emblemáticos da divisão desportiva da marca francesa. O exemplar em causa, o C05 com o chassis VF7RT1GR094GR0015, fez a sua estreia oficial no Rali dos Faraós de 1990.
Ao volante estava Ari Vatanen, campeão do Mundo de Ralis em 1981 e vencedor por quatro vezes do Paris-Dakar. Na primeira aparição do C05, o resultado foi um respeitável quarto lugar da geral, abrindo, ainda assim, um ciclo desportivo de enorme qualidade.
Em 1991, o carro tomou parte no Paris-Trípoli-Dacar, prova em que foi conduzido por Alain Ambrosino até ao sexto posto entre 184 inscritos. No mesmo ano, regressou ao Rali dos Faraós e ajudou a Citroën a ocupar todo o pódio, terminando na terceira posição.
A campanha competitiva do ZX Rally Raid C05 prosseguiu em 1992, com um sétimo lugar na nova versão do Paris-Dacar, já com chegada à Cidade do Cabo. No ano seguinte, em 1993, voltou a conseguir o sétimo posto, desta vez com a nova decoração vermelha.
Depois de terminar a sua vida em competição, o C05 passou a servir como banco de ensaios para motores. Mais tarde, foi recuperado e conservado pela Citroën Heritage, onde permaneceu entre 1994 e 2011.
No mesmo ano em que saiu dessa tutela, o Citroën ZX Rally Raid C05 foi comprado por um coleccionador privado. O novo proprietário confiou o automóvel à equipa especializada da SMG Challenge, liderada por Philippe Gache, para uma restauração profunda ao nível do chassis, da mecânica - motor de quatro cilindros, 2,0 litros, turbo, 320 cv, com posição central traseira; caixa manual de sete velocidades; tracção integral - e também dos elementos de suspensão e travagem.
Uma referência do desporto automóvel de todo-o-terreno
Num mercado em que a história desportiva pesa tanto como o estado de conservação, este Citroën distingue-se pela combinação rara entre autenticidade, trajecto competitivo bem documentado e ligação directa a alguns dos nomes mais fortes dos ralis-raid. Para os coleccionadores, não se trata apenas de um automóvel de competição: é uma peça de engenharia que resume uma era em que a robustez e a fiabilidade eram decisivas para chegar ao fim.
A preservação do exemplar ganha ainda mais relevância por manter intacta a identidade técnica e visual com que enfrentou as grandes maratonas africanas. Esse tipo de continuidade é particularmente valorizado em unidades de competição históricas, sobretudo quando acompanhadas por documentação detalhada e por componentes de época devidamente catalogados.
Tempos de reforma
Desde então, o C05 marcou presença em vários eventos de prestígio, como o Goodwood Festival of Speed, o Rally Day em Castle Combe e o Salon Privé Concours d’Elegance no Blenheim Palace. Em 2021, recebeu um novo depósito de combustível e um conjunto de seis jantes com o mesmo desenho das originais, reforçando a fidelidade ao modelo de fábrica.
Actualmente, o Citroën ZX Rally Raid C05 apresenta a decoração original de 1990 - a icónica decoração Camel com que Vatanen se destacou nos desertos do Egipto - e será um dos principais automóveis do leilão do Concorso d’Eleganza Villa d’Este.
A estimativa da leiloeira Broad Arrow situa o valor de venda entre 475 mil e 525 mil euros.
Esta unidade inclui ainda um vasto conjunto de documentação histórica, material de época, fotografias, notas de andamento e dois fatos de competição Citroën Sport de 1991.
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