Aí começa o fascínio das perenes: plantas que regressam ano após ano, sem que seja preciso voltar a plantá-las de cada vez. Mas, afinal, o que conta como perene, como se distingue das plantas anuais - e por que razão algumas supostas “flores de longa duração” acabam por não voltar?
O que as perenes são realmente - e o que não são
No sentido mais amplo, qualquer planta que viva mais de dois anos é uma planta vivaz. Nessa categoria caberiam até todas as árvores e arbustos. No entanto, quando se fala em “perene” num jardim doméstico típico, quer-se dizer outra coisa.
No dia a dia da jardinagem, as perenes são plantas plurianuais, cujas partes aéreas morrem no outono e que rebentam novamente na primavera a partir de raízes, tubérculos ou rizomas.
Exemplos clássicos são as hostas, os delfínios, os lírios-diurnos, as equináceas ou as peónias. No inverno, quase nunca se veem - ficam debaixo da terra à espera do sinal de partida na primavera.
Anuais, bienais, perenes - o ciclo de vida é o que conta
Para classificar corretamente as perenes, ajuda olhar rapidamente para os três tipos básicos de plantas de jardim:
- Plantas anuais: germinam, crescem, florescem, frutificam e morrem numa única estação. Exemplo: calêndula, zínia, manjericão.
- Plantas bienais: no primeiro ano formam sobretudo folhas, costumam florescer apenas no segundo e depois desaparecem. Exemplo: dedaleira, malva-rosa.
- Plantas perenes (vivazes em sentido amplo): sobrevivem vários anos e, muitas vezes, voltam a florir de forma regular.
A realidade do jardim torna tudo um pouco mais confuso: muitos jardineiros tratam certas espécies perenes como anuais, porque perdem vigor visualmente ou são sensíveis ao frio.
Lenhoso ou herbáceo - uma diferença importante
Para enquadrar as perenes, a questão “é lenhosa ou não?” tem um papel central.
As árvores e os arbustos formam, ao longo dos anos, camadas de tecido morto e lenhificado - aquilo a que chamamos madeira. Só as camadas mais jovens, por baixo da casca, transportam água e nutrientes. Para produzir madeira, uma planta tem de sobreviver vários anos. Por isso, vale a seguinte regra:
Toda a planta lenhosa é perene - mas nem toda a planta perene é lenhosa.
Mesmo pequenos arbustos entram nesta categoria. Os mirtilos ou alguns arbustos-anões ficam com apenas poucos centímetros de altura e quase parecem perenes, mas botanicamente são plantas lenhosas.
As perenes clássicas de jardim, pelo contrário, são herbáceas: os seus rebentos não ficam permanentemente lenhosos. No outono, geralmente recuam até perto do solo; as partes subterrâneas é que resistem ao inverno.
Perenes não lenhosas: energia invisível debaixo da terra
Muitas das plantas de jardim mais apreciadas pertencem precisamente a este grupo. Recolhem-se no outono, mas antes disso acumulam reservas de energia em raízes, tubérculos ou bolbos. Na primavera, arrancam de novo a partir daí.
Bolbos, tubérculos, rizomas - pequenos milagres de reserva
Quem percebe como as perenes guardam as suas reservas consegue identificá-las com mais facilidade - sobretudo quando ainda não se vê nada à superfície.
- Bolbos: órgãos de reserva em camadas, como nas tulipas, narcisos ou alhos ornamentais. Guardam nutrientes para a brotação no ano seguinte.
- Tubérculos: zonas engrossadas de raiz ou caule, por exemplo nas dálias ou nas batatas.
- Rizomas: caules subterrâneos rastejantes, como nas íris ou em muitas gramíneas.
Onde existe um bolbo, tubérculo ou rizoma robusto, quase sempre está por trás uma planta perene.
As plantas anuais, em contrapartida, investem sobretudo em sementes - precisam de garantir a sua continuidade numa só estação. Estruturas de reserva elaboradas não lhes compensam.
Gramíneas no jardim: relvado e não produto descartável
As gramíneas podem ser anuais ou perenes. Nos relvados ornamentais e na maioria dos jardins decorativos usam-se sobretudo variedades perenes - um relvado que desaparecesse ao fim de um ano seria um pesadelo para a maioria dos proprietários.
Algumas gramíneas de pradaria, como o panicum e a bouteloua, são perenes típicas e formam, com o tempo, touceiras densas. Muitas gramíneas ornamentais podem ficar no canteiro durante todo o ano; os seus caules secos dão estrutura ao jardim de inverno.
Quando as “perenes” não voltam - os equívocos mais comuns
Os fóruns de jardinagem estão cheios de perguntas como “As minhas tulipas desapareceram - não eram perenes?”. A resposta costuma ser mais complexa do que parece.
| Problema | possível causa |
|---|---|
| A perene não volta a rebentar | encharcamento, apodrecimento, ratos-de-campo ou geada extremamente severa |
| Surgem folhas, mas não flores | bolbo ou raiz esgotados, nutrientes em falta ou local inadequado |
| A planta fica mais fraca de ano para ano | adubação excessiva contínua, plantação demasiado apertada, cuidados errados |
As tulipas, em particular, são muitas vezes vendidas como perenes, mas no jardim comportam-se mais como anuais. Muitas variedades modernas gastam no primeiro ano tanta energia em flores grandes e espetaculares que quase não lhes sobra reserva para uma floração forte no segundo ano.
Quem quiser manter tulipas durante muitos anos precisa de solo bem drenado, rega moderada depois da floração e um longo período de descanso.
Outro caso clássico: os amores-perfeitos. Botanicamente, são perenes. Mas no segundo ano costumam parecer menos bonitos, florescem de forma mais escassa e tornam-se parcialmente lenhosos. Por isso, a maioria dos jardineiros trata-os como anuais e substitui-os com regularidade.
Perenes escondidas: na verdade são perenes, mas no jardim usam-se como anuais
Algumas plantas de uso alimentar surpreendem muitos jardineiros amadores: no seu habitat natural são perenes, mas entre nós são quase sempre cultivadas apenas durante uma estação.
- Tomateiros: na sua origem tropical são plantas vivazes, mas na Europa Central não sobrevivem ao inverno ao ar livre.
- Pimentos e malaguetas: também são perenes e podem continuar a ser cultivados num local de inverno protegido.
- Batatas: formam tubérculos a partir dos quais poderiam rebentar novamente, mas na agricultura são plantadas de novo todos os anos.
Num estufa ou dentro de casa, jardineiros ambiciosos conseguem realmente manter tomateiros durante vários anos. As produções tendem a diminuir, mas continuam a dar frutos durante muito tempo.
Plantas “voluntárias”: são persistentes ou apenas um achado casual?
Quem jardina há algum tempo conhece-as bem: de repente aparece um tomate entre as cenouras ou um girassol no meio do canteiro. Essas plantas nascem de sementes que caíram na terra no ano anterior e germinam agora quando encontram condições favoráveis.
Estas “voluntárias” parecem perenes, mas, na verdade, são plantas novas vindas de semente fresca.
Exemplos típicos destas campeãs da auto-sementeira são:
- tomates
- abóbora e courgette
- melões
- feijão
- girassóis
Na horta, isso pode ser uma sorte - quem não ficaria contente com um tomate extra sem pagar? No jardim ornamental, porém, convém controlar estes visitantes; caso contrário, podem abafar as plantações planeadas.
Olhar prático: como reconhecer perenes no próprio jardim
Quem está a começar neste hobby costuma ficar sem saber o que fazer na primavera, perante canteiros despidos. Algumas regras simples ajudam a identificar as plantas:
- Marcar no outono: usar pequenas estacas para assinalar onde estão as perenes cuja folhagem desaparece por completo.
- Verificar a estrutura: se um rebento parece lenhoso, pertence mais provavelmente a arbustos ou subarbustos (lavanda, alecrim).
- Espreitar o subsolo: se, ao escavar com cuidado, aparecerem bolbos, tubérculos ou raízes grossas, há boas hipóteses de se tratar de uma perene.
- Guardar as etiquetas: não deite fora as plaquetas das plantas compradas no centro de jardinagem; junte-as para manter a organização.
Um pequeno conselho para jardineiros impacientes: muitas perenes despontam tarde. A equinácea, o gerânio-de-jardim ou algumas gramíneas gostam de levar o seu tempo a rebentar. Arrancá-las demasiado cedo por “pânico” faz muitas vezes perder plantas já estabelecidas.
Mais utilidade nas perenes: plantas medicinais e aromas duradouros
Muitas das chamadas “ervas aromáticas” são, na verdade, perenes ou subarbustos. Quando são bem colocadas logo de início, dão prazer durante anos.
- Echinacea (equinácea): muito apreciada como planta medicinal e por atrair abelhas.
- Mil-folhas: perene silvestre robusta, útil em infusão e como flor de corte.
- Hortelã: perene vigorosa que, sem limitação regular, depressa toma conta de todo o canteiro.
Na hortelã percebe-se bem a força das perenes: se for colocada diretamente no canteiro, forma rapidamente uma verdadeira manta. O melhor é usá-la num vaso grande ou num limitador de raízes enterrado.
Para quem está a começar, vale a pena combinar perenes robustas e fiáveis (por exemplo, lírios-diurnos, alfazema-dos-jardins, equinácea-púrpura) com algumas espécies mais experimentais. Com o passar dos anos, não cresce só o canteiro - também aumenta o conhecimento sobre os moradores silenciosos e duradouros do jardim.
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