O aquecedor do escritório estava no máximo, mas a Emma continuava a tremer à secretária. Com os dedos duros sobre o teclado, mais uma camisola de malha por cima da sua camisola habitual e as mãos enroladas em torno de uma chávena de chá já morno, ouvia os colegas brincar com a ideia de que devia ser “quase um lagarto”. Ela ria-se com eles, mas, por dentro, estava farta de ser sempre a pessoa que sentia frio quando toda a gente parecia estar bem.
No comboio para casa, enquanto percorria o telemóvel, um único fraseado fez parar o polegar: “Sentir frio o tempo todo pode ser sinal de que não está a ingerir gorduras suficientes.”
Essa pequena linha acertou-lhe mais em cheio do que esperava.
Também é fácil subestimar o impacto de refeições demasiado leves quando os dias se tornam mais longos e os horários apertam. Entre uma manhã passada no escritório, deslocações e intervalos curtos para comer, muitas pessoas acabam por juntar alimentos “ligeiros” demais e muito pouco que realmente sustente o corpo ao longo do dia.
Quando o frio deixa de ser pontual e passa a ser o seu “normal”
Há o frio que se sente quando se esquece o casaco. E há aquele frio que parece ficar colado aos ossos, mesmo em espaços aquecidos. Aquele arrepio silencioso e persistente que leva a procurar uma manta no início do outono, enquanto os amigos ainda estão de manga curta.
Se isto lhe soa familiar, provavelmente conhece bem a rotina: meias grossas, bebidas quentes, camadas sobre camadas, e mesmo assim continua a esfregar as mãos nas reuniões. Com o tempo, deixa de se queixar em voz alta. Limita-se a aceitar que o corpo parece funcionar em “bateria fraca”.
Nutricionistas dizem que ouvem esta queixa cada vez mais, sobretudo de pessoas que reduziram em grande escala óleos, frutos secos e outras gorduras em nome de uma ideia de “alimentação limpa”. Uma nutricionista de Londres disse-me que vê jovens mulheres que andam sempre de camisola dentro de casa porque estão constantemente a sentir frio.
Elas enumeram com orgulho as saladas, os batidos e os iogurtes magros, mas mencionam, quase de passagem, que evitam queijo, abacate e “demasiado óleo” porque têm medo de engordar. Os exames nem sempre mostram qualquer drama evidente. Ainda assim, o corpo vai enviando mensagens discretas: mãos frias, pés frios, pouca energia, ciclos irregulares. Sinais que tendemos a desvalorizar como se fossem apenas “o meu caso”.
Gorduras saudáveis e temperatura corporal: alimentar o aquecedor interno
Há aqui uma lógica simples. As gorduras não são apenas calorias que “devem ser gastas no ginásio”. Funcionam como os troncos que ardem devagar na lareira do metabolismo. Sem quantidade suficiente, o corpo tem menos combustível fiável para manter a temperatura interna estável, sobretudo quando o ambiente muda.
Além disso, certas gorduras ajudam a formar a camada de isolamento sob a pele e dão suporte às hormonas que também influenciam a regulação térmica. Se a ingestão de gordura desce demasiado durante demasiado tempo, o organismo entra discretamente em modo de poupança. E onde é que isso se nota primeiro? Em si. Sente. Frio.
Como dar ao corpo a gordura de que precisa
Então, o que é que mudar isto significa na prática, para lá dos gráficos de nutrição? Pense em pequenas doses regulares de gorduras de qualidade em cada refeição, em vez de uma única pizza “descontrolada” ao sábado à noite. Um fio de azeite sobre os legumes. Um punhado de frutos secos com o café da tarde. Meio abacate esmagado numa torrada em vez de compota simples.
Estas pequenas adaptações somam-se ao longo do dia. Dão ao metabolismo algo estável com que trabalhar, em vez de picos rápidos de açúcar que o deixam com fome, trémulo e gelado uma hora depois. O seu corpo não quer apenas comida: quer o tipo certo de combustível.
Muita gente que está sempre fria diz, quase com orgulho, “na verdade, não como muita gordura, como coisas leves”. A intenção é boa. Absorveram anos de mensagens do tipo “a gordura faz engordar”, por isso compram lacticínios magros, evitam a gema, passam ao lado dos frutos secos porque “têm demasiadas calorias” e medem o molho da salada gota a gota.
Depois chegam as 16 horas, estão geladas, exaustas e a procurar bolachas porque “precisam de energia”. Sejamos honestos: ninguém consegue viver assim todos os dias sem, mais cedo ou mais tarde, começar a fraquejar. A restrição pode parecer virtuosa no papel. Num corpo real, numa vida real, muitas vezes só se sente como… frio.
“As pessoas vêm ter comigo e dizem: ‘Tenho frio, estou cansada, mas estou a comer tão limpo’”, explica a nutricionista francesa Clara M., especializada em saúde metabólica feminina. “Quando voltamos a introduzir gorduras saudáveis, passam duas semanas com receio. Depois, um dia, enviam-me uma mensagem: ‘Já não estou a congelar.’ Normalmente, essa é a primeira grande mudança.”
- Azeite: junte uma colher de sopa aos legumes cozinhados, às sopas ou a tigelas de cereais.
- Peixe gordo (salmão, sardinha, cavala): procure incluí-lo em uma ou duas refeições de jantar por semana.
- Abacate: metade ao pequeno-almoço ou ao almoço acrescenta cremosidade e energia duradoura.
- Frutos secos e sementes: um pequeno punhado como lanche ou polvilhado em papas de aveia ou saladas.
- Ovos inteiros: mantenha a gema; é aí que estão a maior parte dos nutrientes e das gorduras.
Ouvir o que o corpo frio está a tentar dizer
Quando começa a prestar atenção, o padrão pode tornar-se surpreendentemente claro. Repara que nos dias em que come apenas saladas leves e fruta, ao fim da tarde já está enroscada em mantas. Nos dias em que comeu salmão com legumes assados e uma quantidade decente de azeite, consegue estar no sofá apenas com uma t-shirt sem tremer.
Isto não é magia. É o seu corpo a sussurrar, silenciosamente: “Obrigada, era isto que eu precisava.” A parte difícil é confiar nessa mensagem mais do que no velho medo de que qualquer gordura no prato seja automaticamente um problema à espera de aparecer na cintura.
O frio também pode ser um ponto de partida útil para perguntas mais amplas. Será que está a restringir sem lhe chamar propriamente dieta? Evita comer quando tem fome e depois “vai-se safando” com café e uma barra de cereais? Está ainda a treinar com intensidade por cima de tudo isto?
Nada disto a torna vaidosa ou disparatada. Torna-a humana numa cultura obcecada por ser cada vez mais pequena. Mas existe um custo discreto. Menos combustível, menos equilíbrio hormonal, menos isolamento, menos calor. Um corpo que sobrevive, mas que não se sente verdadeiramente habitado.
Não precisa de mudar tudo de um dia para o outro. Pode experimentar como uma cientista curiosa, usando o seu próprio corpo como o único caso de estudo que interessa. Durante uma semana, adicione uma colher de manteiga de frutos secos ao pequeno-almoço e repare nas mãos às 11 horas. Troque um iogurte magro por outro com nata integral e acompanhe a sensação de frio ao fim da tarde.
Se o frio constante começar a aliviar, mesmo que ligeiramente, isso já é informação. Já é sinal de que o seu “problema” talvez não seja má circulação nem uma característica de personalidade, mas sim um corpo que esteve a receber combustível a menos durante demasiado tempo. E isso é algo que pode mudar.
Outros sinais que merecem atenção quando sente frio com frequência
Além da alimentação, vale a pena observar o contexto geral. O sono em falta, o stress prolongado e períodos longos sem comer podem acentuar a sensação de frio, especialmente quando se juntam a refeições pouco consistentes. Em paralelo, se o frio surgiu de forma súbita ou se vem acompanhado de cansaço marcante, queda de cabelo ou tonturas, faz sentido falar com um profissional de saúde.
Também é útil olhar para a estação do ano sem dramatismo, mas com realismo. No inverno, o corpo já trabalha mais para manter a temperatura. Se, nessa altura, a ingestão de energia e gorduras estiver demasiado baixa, é ainda mais fácil entrar num ciclo de mãos geladas, pouca disposição e vontade constante de petiscar.
| Ponto-chave | Detalhe | Valor para o leitor |
|---|---|---|
| As gorduras saudáveis ajudam a manter a temperatura corporal | Fornecem energia de libertação lenta e ajudam a preservar o equilíbrio hormonal e térmico | Perceber por que motivo sentir frio sem parar pode estar ligado ao que põe no prato |
| Pequenos ajustes diários funcionam melhor do que dietas extremas | Incluir gorduras em cada refeição ajuda a estabilizar a energia em vez de depender de picos de açúcar | Ideias concretas para se sentir mais quente sem planos alimentares complicados |
| O frio é um sinal corporal útil | Um arrepio persistente pode apontar para ingestão insuficiente de comida ou dietas demasiado “leves” | Incentiva a ouvir o corpo em vez de ignorar as mensagens que ele envia |
Perguntas frequentes
- Sentir frio é sempre sinal de que não estou a comer gorduras suficientes? Não necessariamente. O frio constante também pode estar ligado a problemas da tiroide, anemia, tensão arterial baixa ou determinados medicamentos. Se o sintoma for intenso ou recente, vale a pena fazer uma avaliação médica. Mas, se além disso também come muito pouca gordura e poucas calorias, compensa testar mudanças alimentares suaves.
- Em quanto tempo posso começar a sentir-me mais quente depois de aumentar as gorduras? Algumas pessoas notam diferenças em poucos dias, sobretudo na energia. Noutras, podem ser precisas algumas semanas de alterações consistentes. Pense nisto como reconstruir as reservas de energia do corpo, e não como carregar num interruptor.
- Comer mais gordura não me vai fazer engordar? Comer mais de qualquer coisa pode levar a aumento de peso se estiver muito acima das necessidades, mas as gorduras saudáveis muitas vezes ajudam a controlar a fome e a reduzir o petiscar constante. Muita gente percebe que a fome estabiliza e que deixa de procurar tanto alimentos açucarados quando deixa de temer as gorduras.
- Quais são as melhores gorduras saudáveis para começar? Opções simples: azeite virgem extra, abacate, frutos secos, sementes, manteigas de frutos secos naturais, ovos inteiros e peixe gordo como salmão ou sardinha. Comece por melhorar o que já come: junte azeite aos legumes, frutos secos aos lanches e abacate às sandes.
- Devo eliminar por completo os produtos magros? Não precisa de os proibir, mas depender apenas de tudo o que é magro muitas vezes deixa o corpo com combustível a menos. Em geral, funciona melhor uma combinação: algum iogurte inteiro, algumas opções magras, mas com uma fonte de boa gordura algures no prato.
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