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A prática supostamente sustentável que prejudica o ambiente (greenwashing revelado)

Homem sentado a trabalhar num portátil numa mesa de madeira junto a uma janela, com chávena e cartão verde.

Fazer “neutralidade carbónica” por 3,99 £? A pergunta apareceu no ecrã com a mesma naturalidade de um empregado de bar simpático a sugerir arredondar a conta para uma boa causa. Carreguei em sim, senti o corpo a descontrair e nessa noite adormeci com uma espécie de brilho limpo - como se tivesse lavado o dia num duche quente e o tivesse visto desaparecer pelo ralo. Semanas depois, encostado à janela do aeroporto, com o cheiro a combustível de aviação a atravessar a pista, dei por mim a perguntar o que, afinal, eu tinha comprado. Entre o clique e a chamada para embarque, a narrativa que eu tinha inventado começou a desfazer-se.

O milagre dos quatro libras: a tentação do crédito de compensação de carbono

O botão da compensação de carbono é uma guloseima para a consciência: organizado, barato e imediato. Carrega-se ali e, durante uns instantes, o mundo parece ter solução. É precisamente essa a sedução da chamada prática sustentável que nos venderam: continuar quase tudo igual e “exportar” o problema para uma floresta futura algures, com o nosso nome num registo.

Não estou aqui para ridicularizar o impulso. Ele nasce de um lugar decente. Aliás, mostra vontade de fazer parte da solução quando a vida vai aos solavancos: o trabalho aperta, as crianças precisam de boleia, os comboios atrasam-se e, por vezes, a única coisa que nos mantém de pé é a sensação de que dá para equilibrar um estrago com um pagamento.

Só que a matemática não se comove com boas intenções. O carbono libertado a cerca de 11 600 metros está no céu hoje. As árvores - quando existem, quando crescem, quando não são cortadas - vão retirando esse carbono ao longo de décadas, não de dias. O desfasamento temporal é real, e o risco também. Fechei o separador e imaginei uma pequena árvore algures com o meu nome preso a ela.

A conta que raramente vemos

Existe um intervalo silencioso entre a promessa e a atmosfera. Uma tonelada de CO₂ de um avião entra já na equação do aquecimento, como mais uma camada (pequena, mas cumulativa) a reter calor. Uma tonelada “evitada” no papel fica arrumada num registo, tão limpa como uma célula numa folha de cálculo. Lá fora, porém, os ventos mudam, os incêndios chegam, os projectos falham, e nem sempre os números resistem ao mundo real.

Quase não sentimos essa latência porque os esquemas de compensação são desenhados para parecerem instantâneos: o selo verde surge assim que o pagamento é confirmado. E, no meio dessa rapidez, evitamos a pergunta mais incómoda: a redução foi adicional, ou teria acontecido na mesma? Se a resposta se aproxima de “na mesma”, o planeta fica com um comunicado; o céu fica com o mesmo carbono.

Quando a boa intenção vira licença: “neutralidade carbónica” como rótulo

Em teoria, compensar é uma ponte enquanto se constroem formas melhores de nos deslocarmos, aquecermos casas e produzirmos bens. Na prática, muitas vezes funciona como uma autorização. Uma marca estampa “neutralidade carbónica” numa garrafa ou numa página de uma companhia aérea não porque as emissões tenham caído, mas porque alguém encontrou uma floresta barata numa tabela. O comportamento mantém-se, o título fica mais verde e o relógio continua a contar.

Vi cadeias de cafés anunciarem copos compostáveis com grande entusiasmo, enquanto os contentores e a recolha para compostagem simplesmente não existiam. O copo vai para o lixo indiferenciado, onde se degrada mal, ou para a reciclagem, onde atrapalha o processo. Na mão, parece virtuoso; no sistema, pode ser exactamente o contrário. Por vezes, a parte mais cara de uma “ideia verde” é o autocolante.

Entretanto, os reguladores no Reino Unido começaram a reagir. Afirmações vagas como “eco-friendly” (amigo do ambiente) ou “planet positive” (positivo para o planeta) passaram a gerar queixas, e alguns anúncios já foram retirados por abusarem destas expressões leves e arejadas. É sinal de mudança de humor. Ainda assim, entre um slogan e uma política concreta sobra muito espaço - e muito volume de vendas.

A floresta que não era floresta: biodiversidade, justiça e permanência

Gostamos de imaginar as compensações como um bosque alto e misto, com pássaros, fungos e vida no chão coberto de folhas. Só que, por vezes, o que nasce no terreno é uma fila militar de árvores não autóctones, todas iguais, sem sombra verdadeira. A biodiversidade não explode; o solo altera-se; o sub-bosque cala-se. E se o projecto empurrar agricultores para fora da terra ou retirar espaço a comunidades indígenas, o dano agrava-se - e a contabilidade do carbono começa a parecer uma história para encobrir outra história.

Numa tarde no País de Gales, passei ao lado de uma encosta com rebentos recentes, todos da mesma altura, presos com cordel azul. Cheirava a plástico húmido e resina. O vento fazia os protectores baterem uns nos outros, como uma percussão discreta. Não era feio - era magro. A ideia estava lá, mas a vida ainda não; e lembrei-me dos folhetos que prometem uma resposta viva para um problema que nos vai anestesiando.

Depois há a questão da permanência. Uma floresta pode arder. Um mercado pode colapsar. Um projecto pode ser reclassificado. Créditos evaporam-se mais depressa do que a sensação de alívio que sentimos ao “doar na caixa”. Entretanto, as emissões que nos levaram a clicar em “compensar” continuam lá em cima, a fazer o que sempre fizeram: reter calor.

O que ajuda mesmo (e o que perguntar) - escolhas reais antes de “compensar”

Há práticas vendidas como prática sustentável que não são apenas fracas: desviam-nos de decisões que cortam emissões de forma efectiva. Isolar um apartamento com correntes de ar vale mais do que plantar uma árvore que nunca veremos. Trocar voos curtos por comboio quando dá, remendar roupa, partilhar ferramentas, comer um pouco menos de vaca - isto não fica bonito num panfleto, mas mexe no contador. E sejamos sinceros: ninguém faz isto de forma impecável todos os dias.

As compensações não são necessariamente más; são, na melhor das hipóteses, um último recurso. Mesmo dentro delas, há opções mais robustas - proteger turfeiras, recuperar zonas húmidas, ou financiar fogões melhorados que substituem fogueiras poluentes e ainda trazem ganhos de saúde. A diferença é aborrecida e técnica: adicionalidade, verificação, permanência. Não são palavras glamorosas, mas valem mais do que slogans quando é preciso rigor.

Compensações não são reduções. Reduções são reduções. Uma coisa é um recibo; a outra é uma máquina alterada, um hábito novo, uma conta de energia mais baixa no fim do ano. Se uma empresa grita “neutralizar”, pergunte o que é que ela deixou de fazer. Se a parte silenciosa continua barulhenta - os mesmos aviões, os mesmos combustíveis, o mesmo consumo de energia - a resposta está aí.

Um teste melhor para promessas “eco-friendly” e “planet positive”

O primeiro filtro é pouco elegante, mas decisivo: tempo. O carbono é evitado hoje ou só em 2043? Se a neutralidade depende de uma promessa a décadas de distância, há instabilidade logo na base.

O segundo filtro é a transparência. Os projectos são identificados e auditados, com informação verificável, ou fica tudo escondido atrás de uma plataforma com ícones arrumadinhos e sem localização nem relatórios claros?

O terceiro filtro somos nós. Podemos deslocar o incentivo ao premiar reduções reais: comprar menos coisas e melhores, escolher o comboio de vez em quando - mesmo que seja menos “perfeito para o Instagram” do que a fotografia da asa ao nascer do sol. E, quando aparece a opção de compensar, encará-la como um pequeno extra, não como o prato principal.

Um ponto que quase nunca entra na conversa: padrões, auditorias e a diferença entre “barato” e “credível”

Há também um detalhe prático que merece atenção: nem todas as compensações são iguais. Alguns projectos seguem padrões e auditorias mais exigentes; outros vivem de documentação frágil. Para quem quer ir além do selo e perceber onde está a pisar, ajuda procurar evidência de verificação independente, relatórios públicos, metodologias claras e mecanismos de correcção quando algo falha. Se a informação não existe, ou se é impossível perceber para onde vai o dinheiro, a confiança é só estética.

Outro aspecto pouco falado é a prioridade do local. Medidas perto de casa - eficiência energética no edifício, electrificação de frotas, melhoria de transportes públicos, redução de desperdício - tendem a ser mais fáceis de acompanhar e a criar benefícios colaterais (menos poluição do ar, contas mais baixas, mais conforto). Nem sempre substituem a compensação, mas muitas vezes reduzem a necessidade de sequer lá chegar.

Porque é que caímos nisto

Não é por sermos ingénuos. É cansaço. A vida é um nó de obrigações e concessões, e o botão da compensação faz-nos uma festa no braço e diz: “pronto, já está”. O selo aparece, a culpa baixa, o dia segue. Esse alívio emocional vale alguma coisa - e é por isso que o marketing funciona. Devolve-nos a sensação de competência.

Todos conhecemos o momento em que o carrinho está cheio e o detergente com o rótulo “neutralidade carbónica” parece uma pequena absolvição. Na fila, o leitor apita; um som curto e limpo que sugere que escolhemos bem. Talvez tenhamos escolhido. Ou talvez a empresa tenha ligado a nossa boa vontade a um projecto que iria acontecer de qualquer forma e tenha declarado o saldo como fechado.

Há ainda outra camada: esperança. A ideia de que, se muitos de nós assinalarem a opção certa, o sistema acaba por se inclinar para o bem. Eu não quero apagar essa faísca. Quero apenas orientá-la para o duro: energia, transportes, aquecimento, alimentação, edifícios. Coisas em que tocamos com as mãos, não apenas com o rato.

Entre compromisso e greenwashing

O greenwashing nem sempre é um vilão de bigode retorcido num fato caro. Às vezes é alguém razoável numa sala de reuniões que precisa de um “resultado” até sexta-feira. Trocar plástico por papel sem criar recolha adequada. Colocar “biodegradable” (biodegradável) num saco que só se degrada numa instalação que a sua cidade não tem. A história vende porque não é fantasia total - é um fragmento de verdade servido como se fosse o bolo inteiro.

Se uma promessa parece fácil, pergunte o que é que teve de ser difícil. A empresa mudou fornecedores, adaptou fábricas, pagou mais por energia limpa, cortou voos, reduziu embalagens, redesenhou rotas? Ou encomendou um vídeo brilhante e comprou créditos num mercado tão barato que daria para pagar com as moedas esquecidas no porta-objectos do carro?

O teste de honestidade também funciona ao contrário. Quando uma marca admite aquilo que ainda não consegue fazer e mostra passos concretos, é aí que eu fico atento. Prefiro ler que metade da frota já passou para carrinhas eléctricas e que existe um calendário para o resto, do que ver “planet positive” prometido para o último trimestre. Verde é uma cor. Descarbonização é um plano.

O caminho mais discreto: menos ícones, mais atenção

O que eu tento fazer agora - com falhas - é isto: viajar de avião menos vezes, optar pelo comboio quando dá, e, quando voo, contribuir para um fundo que eu consiga rastrear. Pergunto a amigos se conhecem bons cafés de reparação e, de vez em quando, arranjamos uma torradeira que cheira vagamente a migalhas queimadas e a vitória. Leio as letras pequenas de “compostável” e só compro quando consigo ver o contentor que, de facto, vai compostar.

Continuo a falhar. Continuo a pegar no copo errado, a esquecer o saco, a carregar no botão quando a cabeça está a meio caminho entre mensagens e trabalho. Isto não é sobre pureza. É sobre atenção. Pequenas mudanças que não parecem heróicas, repetidas vezes suficientes para pesarem mais do que um único ícone de folha numa página de pagamento.

Consciência barata, planeta caro. É essa a armadilha que tento reconhecer. A boa notícia é que o inverso também se verifica: um pequeno custo nas escolhas, um ganho maior para todos. É entre estas duas frases que vive o trabalho verdadeiro - e, curiosamente, é aí que mora também o alívio mais real.

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