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Gigante vulcão antigo descoberto por cientistas no fundo do Pacífico.

Pessoa a monitorizar dados geológicos numa embarcação, com ilha vulcânica e pôr do sol ao fundo no mar.

Nas profundezas do Pacífico, geólogos identificaram uma estrutura colossal que durante anos foi interpretada de forma errada - até que novos dados mudaram por completo a história.

A milhares de quilómetros de qualquer costa, escondido sob vários quilómetros de água, existe um vulcão que ultrapassa tudo o que se costuma imaginar à escala terrestre. Um consórcio internacional de investigadores demonstrou que o que parecia ser um conjunto de montes submarinos é, afinal, um único e gigantesco vulcão-escudo: formou-se há cerca de 145 milhões de anos e, embora hoje esteja silencioso, continua a ser uma peça-chave para compreender a dinâmica interna do planeta.

O Maciço de Tamu, vulcão-escudo da Dorsal de Shatsky que se disfarçou de cordilheira

O centro das atenções é o Maciço de Tamu, um enorme vulcão submarino situado na Dorsal de Shatsky, um planalto oceânico remoto no Pacífico, aproximadamente 1 600 km a leste do Japão. Durante muito tempo, a interpretação dominante foi a de que ali existiam três elevações independentes. Só com medições sísmicas mais finas se percebeu que as estruturas pertencem ao mesmo sistema vulcânico contínuo.

A reanálise de ondas acústicas enviadas através do fundo do mar - e registadas após o seu retorno - revelou escoadas de lava ininterruptas. Em vez de se quebrarem entre “montes” distintos, essas camadas prolongam-se por toda a área, ligando as supostas unidades separadas numa única edificação.

O Maciço de Tamu ocupa cerca de 310 000 km² - uma área comparável à de Itália ou ao estado norte-americano do Novo México.

Por esta razão, é considerado o maior vulcão individual da Terra. Ao contrário de alinhamentos vulcânicos como os do Havai, onde vários edifícios se sucedem, aqui trata-se de um só gigante de perfil baixo e extremamente amplo.

Um gigante plano, não um “cone” vulcânico clássico

Quando se pensa em vulcões, a imagem típica é a de um cone bem marcado - como o Etna ou o Fuji. O Maciço de Tamu foge totalmente a esse padrão: é um colosso muito achatado, com vertentes que se estendem por centenas de quilómetros e inclinações tão suaves que, no terreno (se fosse possível observá-las diretamente), seriam difíceis de notar.

O topo do vulcão encontra-se a cerca de 2 000 m abaixo da superfície. A base desce até profundidades próximas de 6,5 km. Entre estes níveis, acumula-se um vasto “escudo” de lava solidificada, que ajudou a moldar a bacia oceânica envolvente.

A forma é explicada por episódios de emissão de lava muito fluida, libertada a partir de uma zona central, que se espalhou amplamente sobre a crosta oceânica. Em vez de erupções explosivas com cinzas, tudo indica que dominaram fluxos basálticos que avançaram como um tapete viscoso, construindo camadas sucessivas.

  • Inclinação das vertentes: apenas alguns graus
  • Ponto mais alto: ~2 km abaixo do nível do mar
  • Zonas mais profundas na base: ~6,5 km abaixo da superfície
  • Tipo de estrutura: vulcão-escudo de dimensão excecional

Dimensão em perspetiva: Mauna Loa e Olympus Mons

Para contextualizar a escala, compare-se com o Mauna Loa, no Havai, frequentemente descrito como o maior vulcão ativo do planeta: a sua área ronda 5 000 km². O Maciço de Tamu é várias vezes maior.

A comparação mais surpreendente surge quando se olha para Marte: o Olympus Mons é o maior vulcão conhecido do Sistema Solar, mais alto e com um topo mais íngreme. Ainda assim, em termos de área total, ambos pertencem a uma faixa semelhante de “supervulcões-escudo”. O caso de Tamu demonstra que a Terra também consegue produzir estruturas tão monumentais como as de outros mundos - mas, no nosso planeta, muitas permanecem ocultas sob o oceano.

O Maciço de Tamu integra o grupo de elite dos maiores vulcões do Sistema Solar - e, apesar disso, passou décadas quase fora do radar científico.

Erupções há 145 milhões de anos: um crescimento rápido e depois silêncio

Do ponto de vista geológico, trata-se de um “ancião”. As datações apontam para a sua formação há cerca de 145 milhões de anos, no Cretáceo Inferior, quando os dinossauros dominavam os continentes e o Pacífico atravessava uma fase diferente da sua evolução.

Há poucos indícios de atividade posterior, o que sugere um cenário de construção relativamente rápida: enormes volumes de magma terão ascendido do manto, rompido a crosta num intervalo de tempo curto (à escala geológica) e edificado praticamente toda a estrutura. Depois, a região estabilizou e manteve-se vulcanicamente inativa.

Este padrão - fases breves e intensas de produção magmática - é conhecido em diversos planaltos oceânicos e pode estar ligado a plumas do manto: zonas profundas e mais quentes que ascendem, alimentando episódios excecionalmente volumosos de fusão.

O que o Maciço de Tamu revela sobre o interior da Terra

O Maciço de Tamu funciona como uma janela para processos do manto terrestre. A sua dimensão mostra até que ponto a atividade vulcânica oceânica pode ser extrema sem deixar sinais óbvios à superfície. Se um evento deste tipo ocorresse em ambiente continental ou emersivo, é plausível que tivesse impactos muito maiores no clima, nos oceanos e na biosfera.

Os resultados também apontam para implicações mais amplas:

  • a fronteira conceptual entre “vulcão” e “sistema vulcânico” pode precisar de revisão;
  • certos planaltos oceânicos poderão ser, mais vezes do que se pensava, formados por vulcões individuais gigantes;
  • o papel destas estruturas na criação e reorganização de nova crosta oceânica poderá estar subestimado.

Cada nova pista - seja de testemunhos de perfuração, sísmica, batimetria ou gravimetria - melhora o retrato do que acontece no interior do planeta. E não é apenas uma questão histórica: compreender onde e como se acumulam grandes volumes de magma ajuda a discutir a estabilidade das placas oceânicas e a identificar contextos onde poderão formar-se grandes câmaras magmáticas no futuro.

Um aspeto adicional, frequentemente menos referido, é que grandes edifícios submarinos também podem influenciar a circulação oceânica local: alteram a topografia do fundo, desviam correntes e condicionam a deposição de sedimentos ao longo de milhões de anos. Mesmo extintos, estes relevos podem ter efeitos persistentes na arquitetura do fundo do mar.

Porque é que só agora se reconhecem estes gigantes

O facto de um vulcão com uma área comparável à de um país ter sido mal interpretado durante tanto tempo expõe os limites do nosso conhecimento sobre o oceano. Grandes porções do fundo marinho continuam apenas mapeadas de forma aproximada. Muitas estruturas aparecem primeiro como simples elevações no relevo, sem que a sua origem fique clara.

Para uma classificação robusta, são necessárias campanhas complexas e dispendiosas:

  • navios levantam a topografia do fundo com sonar;
  • geram-se perfis sísmicos ao enviar impulsos sonoros para o subsolo;
  • sensores registam os ecos, permitindo reconstruir limites de camadas e corpos de lava;
  • testemunhos de perfuração fornecem amostras para datação e análises geoquímicas.

Como estes projetos exigem tempo, orçamento e logística, regiões remotas como a Dorsal de Shatsky tendem a receber menos atenção, apesar do seu enorme interesse científico.

Numa perspetiva futura, campanhas de perfuração mais extensas poderiam esclarecer melhor a composição química das lavas de Tamu e testar, com maior rigor, a ligação a uma pluma do manto - ajudando a distinguir entre modelos concorrentes para a origem de grandes planaltos oceânicos.

O que é, afinal, um vulcão-escudo

O Maciço de Tamu pertence à classe dos vulcões-escudo. O nome descreve a geometria: uma estrutura larga e pouco inclinada, semelhante a um escudo pousado no solo. Em geral, formam-se por erupções repetidas de lava basáltica relativamente fluida, que percorre grandes distâncias antes de solidificar.

Características típicas de um vulcão-escudo:

  • muitas camadas finas de lava sobrepostas;
  • pouca explosividade (predominam escoadas em vez de colunas de cinzas);
  • base muito ampla, frequentemente com centenas de quilómetros de extensão.

No meio submarino, vulcões-escudo como o de Tamu ficam facilmente ocultos: crescem longe de costas e ilhas e, após o fim da sua atividade, acabam gradualmente cobertos por sedimentos.

Há risco para as pessoas? Praticamente nenhum

A conclusão é tranquilizadora: não existem sinais de perigo direto associado ao Maciço de Tamu. A evidência indica que está inativo há um período muito longo, tornando um reativamento extremamente improvável. O valor principal está na ciência - na reconstrução de processos antigos e na comparação com outros megavulcões.

Ainda assim, este conhecimento pode contribuir de forma indireta para a avaliação de riscos noutros contextos. Perceber como volumes gigantescos de magma podem ser libertados no oceano ajuda a avaliar melhor consequências potenciais de hotspots, cadeias vulcânicas e plumas do manto - desde alterações na química marinha até efeitos no sistema climático global a muito longo prazo.

O que esta descoberta diz sobre o nosso planeta

Este vulcão-escudo ancestral no Pacífico é um lembrete de quanto permanece escondido na Terra. Embora os satélites registem a superfície com grande detalhe, o fundo do mar continua, em muitos locais, pouco conhecido. A cada nova campanha de medição surgem formas e estruturas que antes não eram corretamente interpretadas.

Assim, o Maciço de Tamu é mais do que um recordista: funciona como um arquivo geológico no oceano profundo. Nas suas rochas está registada a história de um enorme pulso de magma que remodelou o fundo do Pacífico - e sinais de quão dinâmico pode ser o interior do planeta, mesmo em regiões que hoje parecem totalmente “tranquilas”.

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