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Psicólogos explicam porque algumas pessoas se sentem desconfortáveis ao receber elogios.

Jovem sorridente com a mão no peito enquanto conversa com duas pessoas num café acolhedor.

Um elogio fica suspenso no ar como um balãozinho: “Estás com ótimo aspeto hoje.”
Sorris quase por reflexo, as bochechas apertam… mas o estômago dá uma volta estranha.
Por dentro, uma voz pequenina salta logo: “Estão a exagerar… não é a sério… e agora, o que é que eu digo?”

Em vez de receberes, desvias-te. Fazes uma piada. Apontas para a nódoa na camisola ou dizes que “nem tiveste tempo de te arranjar”.
A outra pessoa fica um pouco baralhada - e, às vezes, até ligeiramente desiludida.

Mais tarde, no autocarro ou na cozinha, a cena repete-se na tua cabeça.
Porque é que três palavras simpáticas soaram tão… desconfortáveis?
E porque é que um simples “Fizeste um ótimo trabalho” pode parecer mais perigoso do que o silêncio?

Quando os elogios parecem um holofote em vez de um abraço

Há quem descreva os elogios como uma manta quente.
Outras pessoas vivem-nos mais como uma lanterna apontada de repente à cara.

Os psicólogos dizem que isto não tem a ver com falta de educação nem com ingratidão.
Tem a ver com o que um elogio toca cá dentro: vergonha, dúvida, histórias antigas sobre quem somos.
Se cresceste num ambiente onde o elogio era raro, condicionado, ou vinha logo seguido de crítica, até um “Boa!” dito com doçura pode soar como o primeiro passo para algo que vai doer.

Então o corpo contrai-se.
A mente começa a procurar perigo.
E um instante que devia ser leve passa a parecer, estranhamente, inseguro.

A Sara, 32 anos, recebe ótimos comentários no trabalho - e mesmo assim fica paralisada sempre que o chefe lhe diz: “Arrasaste nessa apresentação.”
O coração acelera, as mãos ficam húmidas e ela dispara: “Oh, não foi nada… tive foi sorte.”

Ela sabe que soa a desvalorização.
Vê aquela sombra rápida a atravessar a expressão do chefe.
Mesmo assim, as palavras saem mais depressa do que ela consegue travá-las.

Em casa, a fazer scroll no telemóvel, aparecem-lhe publicações sobre “amor-próprio” e “valoriza-te”.
Ela cumpre todas as “caixas” da vida adulta: emprego, casa, amigos.
Mas um elogio inofensivo pesa mais do que uma lista inteira de tarefas.
E não é caso único: alguns estudos sugerem que pessoas com baixa autoestima podem sentir-se pior depois de feedback positivo, porque isso entra em choque com a forma como se veem.

Os psicólogos explicam que, quando um elogio contradiz a tua narrativa interna, o cérebro trata-o como um e-mail suspeito.
Não bate certo com a versão de “ti” que ficou arquivada, e o sistema assinala-o.

Se, no fundo, acreditas que “sou medíocre, no máximo”, então “és brilhante nisto” não é apenas inesperado.
É destabilizador.
Aceitar implicaria atualizar uma identidade inteira construída ao longo de anos.

Por isso, proteges a identidade antiga.
Discutes com o elogio na tua cabeça - ou em voz alta.
A inquietação não está nas palavras; está no que elas ameaçam mudar.
E a mudança, mesmo quando é positiva, raramente é um processo calmo.

Um detalhe que quase ninguém diz: elogios também mexem com a cultura e com o contexto

Em muitos contextos, incluindo em Portugal, fomos socializados para “não nos armarmos”, para não parecermos convencidos, para diminuir o que fazemos bem com um “não foi nada”.
Isso pode criar uma confusão interna: queremos conexão e reconhecimento, mas tememos parecer vaidosos ou alvo de comentários.

Além disso, no trabalho e nas redes sociais, os elogios nem sempre vêm “limpos”: podem ser misturados com comparação, exposição e expectativas.
Para quem já aprendeu a viver em modo de alerta, um elogio pode soar a início de avaliação - como se o carinho viesse com uma ficha de desempenho escondida.

Como responder a elogios quando os elogios te dão vontade de fugir

Um truque suave que muitos psicólogos sugerem é quase ridiculamente simples: treinar dizer “Obrigado” - e mais nada.
Em voz alta.
A sós.

Fica na casa de banho ou no corredor e imagina situações reais:
“Bom trabalho naquele projeto.” - “Obrigado.”
“Adoro o teu outfit.” - “Obrigado.”

Ao início, vai parecer rígido e até falso.
O teu cérebro vai querer acrescentar: “Foi em promoção”, ou “Tive ajuda”, ou “Tive sorte”.
Deixa a vontade passar como uma onda e volta à versão curta.

Não estás a tentar convencer-te de um dia para o outro de que és incrível.
Estás só a treinar a boca a não fugir de um momento gentil.

Muita gente sabota elogios sem se aperceber.
Faz piadas para desviar, muda de assunto, ou devolve outro elogio demasiado depressa - como quem passa uma batata quente.

“Adorei a tua apresentação!”
“Oh não, a tua é que foi muito melhor, eu nem sabia bem o que estava a fazer.”
À superfície, isto parece humildade.
Por baixo, ensina o teu sistema nervoso que o elogio é perigoso e tem de ser evitado.

Sejamos realistas: ninguém consegue fazer isto todos os dias de forma perfeita.
Treinar confiança pode soar a trabalhos de casa extra numa vida que já vai cheia.
Começa pequeno.
Escolhe um elogio esta semana que vais aceitar sem discussão - mesmo que o cérebro esteja aos gritos.
Repara no que acontece a seguir.
Normalmente o mundo não desaba.
A outra pessoa só sorri de volta.

A psicóloga Dr.ª Kristin Neff costuma dizer que a autocompaixão não é convencer-te de que és o melhor, mas tratar-te como tratarias um amigo querido que está a passar por dificuldades.
Receber um elogio é um dos lugares pequenos onde essa atitude, em silêncio, muda tudo.

  • Faz uma pausa antes de responder a um elogio.
    Uma respiração lenta dá ao teu sistema nervoso espaço para acalmar.
  • Usa um guião simples: “Obrigado, significa muito para mim.”
    Repetir a mesma frase reduz o pânico de “o que é que eu digo agora?”.
  • Resiste ao impulso de discutir com o elogio.
    Sem “mas”, sem autocrítica colada no fim.
  • Repara onde sentes o desconforto no corpo.
    É no peito, na garganta, no estômago?
  • Escreve uma frase por dia sobre algo que fizeste bem.
    Ajuda o cérebro a deixar de tratar os elogios como território estrangeiro.

Um exercício extra para integrar elogios sem te sentires exposto

Experimenta “aterrar” o elogio em factos, sem o diminuir. Por exemplo:
“Obrigado - estive mesmo a preparar-me para isto.”
“Obrigado - tenho tentado melhorar nessa parte.”

Isto mantém a aceitação, dá contexto realista e reduz a sensação de que estás a aceitar uma “verdade absoluta” sobre ti. Também ajuda a criar uma ponte entre o elogio e a tua identidade, sem teres de mudar tudo de uma só vez.

Repensar o que os elogios dizem (e não dizem) sobre ti

Há outra camada que os psicólogos têm visto em consultas e em estudos.
Para muitas pessoas, elogios soam a contrato.

“Se acham que sou talentoso, não posso falhar da próxima vez.”
“Se dizem que estou bem hoje, tenho de continuar assim.”
E então o elogio deixa de ser uma oferta e transforma-se em pressão.

Isto pode ser particularmente intenso para mulheres, para pessoas racializadas e para quem passou a vida a sentir que tinha de “provar” o dobro.
Nesses casos, o feedback positivo pode soar como um padrão que, a partir de agora, tens de cumprir para sempre.

Algumas pessoas também temem inveja ou retaliação.
Brilhar demais em certas famílias, escolas ou locais de trabalho pode ter custos.
Então o mais seguro parece ser encolher perante a luz - fingir que o elogio não assenta.

Os psicólogos propõem outra leitura: um elogio é apenas o retrato de alguém num instante, não a tua biografia inteira.
É um momento, não uma sentença.

“Fizeste bem aquela apresentação” não quer dizer, secretamente, “tens de ser perfeito em todas as apresentações daqui para a frente”.
“Ficas-te ótimo com essa cor” não significa que és obrigado a acordar com ar de editorial de moda todos os dias.

Quando os elogios deixam de parecer veredictos, ficam mais leves.
Podes avaliá-los, guardar os que te parecem verdadeiros, pôr de lado os que não encaixam.
Não tens de engolir todas as palavras sem mastigar.
E também não precisas de as cuspir todas.

Por baixo de tudo isto, existe uma pergunta discreta - quase tímida: e se as pessoas que te elogiam não estiverem completamente erradas sobre ti?
Não é que vejam tudo.
Não é que conheçam os teus pensamentos mais sombrios ou os teus piores erros.

Mas e se, por um segundo, estiverem a vislumbrar uma versão tua um pouco mais gentil, um pouco mais corajosa, um pouco mais capaz do que aquela que transportas na cabeça?
Essa hipótese pode picar.
Pede-te que afrouxes a mão numa identidade construída à base de autocrítica.

Alguns leitores vão sentir-se prontos para experimentar isto.
Outros vão querer bater a porta e apagar a luz.
As duas reações fazem sentido.
A parte interessante é o que fazes da próxima vez que alguém disser: “Ei, fizeste isso mesmo bem”, e o teu corpo quiser fugir.
Segues o guião antigo - ou tentas uma frase nova, só uma vez, para ver como sabe?

Ponto-chave Detalhe Valor para o leitor
O desconforto com elogios tem raízes Está ligado à autoestima, a críticas passadas e à identidade Reduz a vergonha ao mostrar que há uma razão psicológica
Respostas curtas e treinadas ajudam Guiões simples como “Obrigado” acalmam a ansiedade Dá uma ferramenta prática e fácil para usar na vida real
Reenquadrar o elogio diminui a pressão Ver elogios como retratos, não como sentenças Facilita aceitar palavras gentis sem te sentires preso

Perguntas frequentes

  • Porque é que me sinto estranho quando alguém me faz um elogio?
    Porque o elogio muitas vezes entra em choque com a forma como te vês.
    O cérebro tenta proteger uma autoimagem familiar - mesmo que essa imagem seja dura - e por isso o elogio pode soar desconfortável ou “errado”.

  • Não gostar de elogios é sinal de baixa autoestima?
    Nem sempre, mas é frequente.
    Pessoas com autoestima mais baixa tendem a desconfiar de feedback positivo ou a sentir que não o merecem, o que torna os elogios stressantes.

  • Como é que deixo de desviar todos os elogios que recebo?
    Começa por reparar nas tuas reações automáticas e depois experimenta uma resposta simples como: “Obrigado, agradeço mesmo.”
    Treina quando estás sozinho para, no momento, soar menos estranho.

  • E se eu honestamente não concordar com o elogio?
    Não tens de acreditar totalmente para aceitares a gentileza.
    Podes dizer: “Obrigado, é muito simpático da tua parte dizer isso”, e tratar como a perspetiva da outra pessoa, não como uma verdade absoluta.

  • A terapia pode ajudar nisto?
    Sim.
    Os terapeutas trabalham muitas vezes as crenças profundas e as experiências passadas que fazem o elogio parecer inseguro, e ajudam-te a construir uma visão de ti mais flexível e mais compassiva.

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