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FaceTime e Snapchat: a Rússia decide bloquear totalmente.

Mulher preocupada com telemóvel na mão, sentada à mesa com tablet e computador portátil no ambiente doméstico.

FaceTime, um dos serviços mais emblemáticos da Apple, passa a estar proibido na Rússia - tal como a aplicação Snapchat. As autoridades russas justificam o bloqueio com alegações de segurança interna, embora não apresentem provas concretas que sustentem essas acusações.

Desde a agressão à Ucrânia ordenada pelo regime de Vladimir Putin, a Rússia ficou praticamente desligada do mundo ocidental. Ainda assim, muitos cidadãos continuam a usar alguns produtos norte-americanos, incluindo dispositivos da Apple, recorrendo a canais paralelos e ao chamado “mercado cinzento”. Esta semana, o Governo decidiu bloquear um dos serviços mais utilizados da empresa de Cupertino: o FaceTime. Poucas horas depois, a mesma decisão foi aplicada ao Snapchat.

A medida foi anunciada pela Roskomnadzor - o serviço federal russo responsável pela supervisão das comunicações, das tecnologias de informação e dos meios de comunicação social - que determinou o bloqueio total da actividade do FaceTime no país. O motivo invocado é que a aplicação constituiria uma ameaça para a Rússia, de acordo com declarações reproduzidas pela Reuters. “Segundo as forças da ordem, o FaceTime é utilizado para organizar e executar ataques terroristas no país, recrutar autores e cometer fraudes e outros crimes contra cidadãos russos.”

A Rússia quer os seus próprios serviços tecnológicos (FaceTime e alternativas)

Na prática, a decisão é vista como arbitrária, uma vez que não foi divulgada qualquer evidência pública que confirme as acusações apresentadas. O que parece cada vez mais claro é a intenção russa de reduzir ao mínimo a presença de produtos estrangeiros no seu território - incluindo no sector tecnológico. Assim, para muitos utilizadores, o FaceTime fica efectivamente “fora de jogo”.

Segundo a Reuters, residentes em Moscovo tentaram utilizar a aplicação ontem, mas, em vez de conseguirem efectuar chamadas, depararam-se com a mensagem “utilizador indisponível”. Em paralelo, o país lançou recentemente uma aplicação semelhante chamada MAX. Ao bloquear o serviço da Apple, as autoridades poderão estar a acelerar a migração dos utilizadores para esta alternativa local. Alguns observadores alertam, porém, que a MAX poderá também ser usada para fins de vigilância.

Este tipo de bloqueio encaixa numa estratégia mais ampla: ao empurrar os utilizadores para plataformas desenvolvidas internamente, o Estado ganha margem para impor regras, recolher metadados e controlar mais facilmente aquilo que circula nas redes - tanto em termos de comunicações privadas como de conteúdos públicos.

Bloqueios anteriores: WhatsApp, Telegram, YouTube e até Roblox

O Snapchat e o FaceTime não são, de longe, os primeiros alvos do Governo russo. Entre os serviços que já enfrentaram bloqueios ou restrições contam-se o WhatsApp, o Telegram e o YouTube. Até o Roblox - um jogo muito popular entre os mais jovens - deixou de estar acessível, após ter sido acusado de promover “propaganda LGBT”.

No conjunto, estas medidas funcionam como um mecanismo de isolamento informativo: num país já bastante afastado do ecossistema ocidental, limitar plataformas estrangeiras ajuda a reduzir o acesso a fontes externas e a tornar o espaço digital mais impermeável à informação vinda de fora.

Apple fora da Rússia desde 2022 e iPhone perde utilidade com o bloqueio do FaceTime

A Apple deixou de operar na Rússia em 2022, integrando a lista de marcas que suspenderam actividades logo após o início da invasão da Ucrânia. Mesmo assim, muitos russos continuam a utilizar produtos da marca - quer por terem comprado os equipamentos antes da guerra, quer através de importações por vias não oficiais e do mercado cinzento.

Com a proibição do FaceTime, ter um iPhone na Rússia torna-se cada vez menos vantajoso, sobretudo porque o serviço era um dos poucos elementos do ecossistema Apple que ainda permanecia acessível para uma parte significativa dos utilizadores.

Soberania tecnológica russa e maior controlo sobre conteúdos

A saída rápida de grandes empresas tecnológicas não se limitou à Apple. Perante este recuo, o regime acelerou o desenvolvimento de produtos e soluções nacionais, reforçando a chamada soberania tecnológica. Na prática, este caminho tende a traduzir-se também num maior controlo sobre os conteúdos e as comunicações que passam por essas plataformas, com efeitos directos na privacidade, na liberdade de expressão e no acesso a serviços globais.

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