A primeira coisa que salta à vista não é o calor.
É o verde.
Nos arredores de Riade, no ponto em que os blocos de apartamentos cor de areia se desfazem na linha do deserto, avançam camiões de plataforma longa carregados de árvores envolvidas em serapilheira. Trabalhadores jovens, com coletes cobertos de pó, saltam para o chão - o suor a brilhar-lhes no rosto - e vão encaixando palmeira após palmeira em covas já abertas, ao longo de um boulevard acabado de inaugurar e que, por enquanto, ainda não leva a lado nenhum. O ar cheira a gasóleo, a terra húmida e a algo quase improvável nesta latitude: um leve aroma a mata.
A algumas centenas de quilómetros, no Dubai, gruas giram sobre um parque junto à água, mangueiras lançam água residual tratada para valas de rega, e jovens árvores vindas de África e da Europa aguardam debaixo de telas de sombreamento, como se fossem convidados de honra particularmente frágeis.
É assim que se parece uma estratégia climática quando um deserto se transforma numa mega-cidade - e depois percebe que está a ficar demasiado quente para se respirar com conforto.
Nações do deserto a correr para plantar florestas de sombra
A Arábia Saudita e os Emirados Árabes Unidos estão a importar milhões de árvores por ano para arrefecer cidades que cresceram para fora mais depressa do que a sombra conseguiu acompanhar. Autoestradas largas, torres envidraçadas e moradias em betão reforçaram a ilha de calor urbana, tornando um simples passeio ao fim da tarde numa prova de resistência.
Com moradores e investidores internacionais a pressionar, os planeadores urbanos estão a apostar forte no verde. Fala-se de corredores de resiliência climática e de florestas urbanas; no terreno, porém, a realidade parece mais simples: filas de homens exaustos a abrir buracos na areia, tentando plantar um futuro mais fresco, muda a muda.
No Parque King Salman, em Riade, percebe-se a escala da ambição. Ainda em construção, o projecto quer tornar-se um dos maiores parques urbanos do mundo - praticamente uma pequena cidade dentro da cidade. Em paralelo, responsáveis sauditas apontam para a Iniciativa Verde Saudita, que promete plantar 10 mil milhões de árvores a nível nacional nas próximas décadas.
No Dubai e em Abu Dhabi, os viveiros municipais transbordam. Navios descarregam contentores com mudas vindas de Espanha, Itália, Quénia e até da Austrália, escolhidas pela resistência ao sol abrasador e a solos com elevada salinidade. Um gestor de paisagismo no Dubai brincava que o seu trabalho, hoje, é sobretudo “fazer controlo de tráfego para árvores”, a indicar aos motoristas onde largar o próximo lote de carga viva.
A lógica, à primeira vista, é directa: mais árvores, mais sombra, menos calor. Estudos de universidades do Golfo indicam que ruas sombreadas podem ser sentidas como 5 a 10 °C mais frescas do que ruas a descoberto; e bairros com copas densas registam, em imagens de satélite, temperaturas de superfície significativamente mais baixas.
Mas há também uma camada política. À medida que a Arábia Saudita promove mega-projectos futuristas como NEOM e The Line, as imagens de vales verdes entre paredes de vidro ajudam a suavizar críticas internacionais sobre combustíveis fósseis. Já os EAU, acabados de acolher a COP28, recorrem a fotografias de avenidas luxuriantes e a novos cinturões de mangais para reforçar a marca de “hub” atento ao clima. As árvores funcionam, ao mesmo tempo, como ferramenta climática e símbolo de relações públicas - a criar raízes na areia e no imaginário global.
Há ainda outro benefício, menos mediático, mas decisivo: saúde pública. Sombra contínua em percursos pedonais reduz a exposição ao stress térmico, melhora a caminhabilidade e pode diminuir a necessidade de deslocações curtas de carro - desde que a cidade também ofereça passeios utilizáveis, ligações ao metro e zonas de estar protegidas.
E há um detalhe prático que raramente aparece nos renderings: a logística. A importação em massa implica quarentenas fitossanitárias, cadeias de frio quando necessário, e uma calendarização afinada para plantar em janelas mais frescas do ano. Uma árvore atrasada no cais, em plena época de calor, chega ao terreno já “no limite”.
O custo escondido de importar uma floresta para o deserto
Plantar uma árvore na Península Arábica não é o mesmo que plantá-la num subúrbio europeu chuvoso. Cada muda que chega por mar ou por avião precisa de um pequeno sistema de suporte à vida: rega gota-a-gota, água residual tratada e, muitas vezes, uma malha de protecção contra areia e vento. Não é raro ouvir designers de paisagem a falar mais de diâmetros de tubagem e tolerância à salinidade do que de estética.
O modelo é altamente engenheirado. Equipas desenham corredores de arrefecimento com árvores ao longo de vias principais e rotas pedonais, ligando parques, centros comerciais e estações de metro para que as pessoas consigam deslocar-se sob sombra o máximo de tempo possível. A prioridade deixa de ser “embelezar” e passa a ser garantir que a cidade é suportável depois das 15h, em agosto.
Aos poucos, os residentes vão aprendendo o novo “ritmo” da infraestrutura verde. Em Abu Dhabi, um estafeta filipino descreveu como planeia o trajecto para seguir ruas com neem e árvores de ghaf, ganhando alguns graus de alívio durante um turno duro. Em Jedá, famílias ajustam as visitas aos novos parques costeiros ao fim da tarde, onde importações recentes partilham espaço com espécies locais mais robustas - todas alimentadas por águas cinzentas provenientes dos edifícios em redor.
Ainda assim, nem tudo corre bem. Certos boulevards recém-plantados parecem exuberantes nas publicações oficiais, mas, ao vivo, exibem-se secos e desiguais porque as linhas de rega não chegaram a tempo ou porque houve atrasos orçamentais. E sejamos francos: após a fotografia do corte da fita, nem sempre há acompanhamento árvore a árvore. Algumas definham silenciosamente na areia - prova de que plantar depressa é mais fácil do que manter durante décadas.
O impulso pela sombra abriu discussões reais nos círculos de planeamento. Porquê comprar espécies não nativas e sedentas quando a região já tem árvores resilientes como ghaf ou sidr, sobreviventes de séculos de seca? Porquê perseguir uma estética de “parque europeu” em cidades com precipitação muito reduzida?
Especialistas alertam para a possível descida de aquíferos, para o consumo energético da dessalinização e para o risco de criar “florestas com sede” que só vivem com bombagem constante. Não se climatiza um país inteiro apenas com folhas. O consenso emergente é que as árvores funcionam melhor quando combinadas com materiais de construção mais frescos, coberturas reflectoras, passagens sombreadas e menos superfícies escuras de asfalto. Caso contrário, tornam-se decoração verde por cima de um problema muito quente.
Entre a ambição e a realidade: como o Golfo está a aprender a “verdejear” com sensatez (Arábia Saudita e EAU)
Por trás das imagens polidas, está a acontecer uma mudança mais discreta e pragmática. Em Riade, engenheiros desenham hoje “caldeiras” e caixas de plantação que captam cada gota das raras chuvas, deixando-a infiltrar-se nas raízes em vez de desaparecer em drenagens. Sistemas de rega passam a estar ligados a sensores, libertando água sobretudo à noite, quando a evaporação é menor.
Nos limites urbanos dos EAU, parcelas experimentais misturam espécies importadas com espécies nativas, avaliando quais resistem com menos água e mais vento. Muitas vezes, os vencedores são arbustos locais pouco fotogénicos - não brilham em brochuras, mas aguentam agosto sem dramas.
Os planeadores também reconhecem algo que raramente entra nos comunicados: nem todas as ruas precisam de ser verdes. Certas zonas são reservadas para copas densas; outras para vegetação baixa e estruturas de sombra com menor consumo de água. Cresce a atenção a paragens de autocarro frescas, arcadas e passagens cobertas que funcionam com ou sem árvores.
Ao mesmo tempo, muitos residentes vivem uma ambivalência. Adoram os novos parques e passeios arborizados, mas desconfiam da factura hídrica escondida numa região já dependente de dessalinização. É aquele instante conhecido: entrar na sombra de uma árvore jovem, sentir alívio imediato - e, logo a seguir, perguntar quanto custa manter viva aquela pequena ilha de conforto.
“Plantar árvores no deserto não é copiar a Europa”, disse-me um arquitecto paisagista no Dubai. “É desenhar sombra com respeito pelo lugar onde vivemos. Se a árvore não faz sentido para a nossa água, o nosso solo e o nosso modo de vida, então é apenas uma decoração caríssima.”
- Escolher primeiro espécies resistentes - Ghaf, sidr, tamareira e acácia toleram muito melhor calor, sal e vento do que importações delicadas.
- Usar água residual tratada - Cidades sauditas e dos EAU encaminham cada vez mais água reciclada para parques, separadores centrais e árvores de rua.
- Pensar em sombra, não apenas em beleza - Forma dos ramos, densidade foliar e altura contam mais do que flores quando o objectivo é baixar a sensação térmica.
- Arrefecer também o chão - Pavimentos claros, superfícies permeáveis e vias mais estreitas reduzem o calor reemitido nas zonas sombreadas.
- Planear manutenção - Uma árvore morta é pior do que nenhuma: desperdiça água, dinheiro e confiança em projectos climáticos públicos.
Que futuro nasce de um milhão de árvores importadas?
A Arábia Saudita e os EAU estão a tentar algo arrojado: reescrever a relação entre as cidades do deserto e o território que as sustenta. A expansão das mega-cidades trouxe modernidade - e depois trouxe exaustão - e agora há uma corrida para suavizar o impacto com cinturas verdes, túneis de sombra e parques urbanos gigantes que, há dez anos, nem estavam no mapa.
Existe uma tensão no centro desta estratégia. Estados ricos em petróleo financiam importações de árvores e rega apoiada por dessalinização para arrefecer estilos de vida urbanos que os combustíveis fósseis ajudaram a construir. Ainda assim, dentro dessa contradição, está a formar-se um laboratório útil para outras regiões quentes e densas. De Phoenix a Nova Deli, há quem observe como o Golfo testa reciclagem de água, selecção de espécies e a ideia simples - mas poderosa - de colocar uma árvore exactamente onde uma pessoa mais precisa dela.
O teste verdadeiro não serão as imagens de satélite deste ano nem as promessas climáticas mais brilhantes. Será saber se, daqui a 20 anos, uma criança a caminho da escola em Riade ou em Sharjah recorda a cidade como um lugar onde a rua foi misericordiosa. Onde o verão continuou a arder, mas alguém, algures, planeou sombra suficiente para ela conseguir continuar a andar.
| Ponto-chave | Detalhe | Valor para o leitor |
|---|---|---|
| Importação de árvores em escala massiva | Milhões de mudas enviadas para cidades da Arábia Saudita e dos EAU para alinhar estradas, parques e mega-projectos | Ajuda a perceber como cidades em crescimento acelerado reagem quando o calor se torna um obstáculo diário |
| Água e escolha de espécies fazem a diferença | Transição para árvores nativas ou resistentes, água residual tratada e rega inteligente em vez de relvados “à europeia” | Mostra o que funciona de facto em climas quentes e secos, em vez do que apenas fica bem nas redes sociais |
| Sombra como infraestrutura | Árvores integradas com pavimentos frescos, passagens cobertas e regras de planeamento urbano | Oferece ideias práticas adaptáveis a qualquer cidade quente para tornar as ruas mais habitáveis |
FAQ
Pergunta 1 - Porque é que a Arábia Saudita e os EAU importam tantas árvores em vez de plantarem apenas espécies locais?
As espécies locais fazem parte da combinação, mas a procura de sombra rápida e densa junto de novos mega-projectos ultrapassou a capacidade actual de produção dos viveiros regionais. As importações tapam esse vazio enquanto os programas de plantas nativas são ampliados.Pergunta 2 - Plantar todas estas árvores arrefece mesmo as cidades?
Ruas e parques com sombra podem ser sentidos vários graus mais frescos, sobretudo ao nível do peão. As árvores não resolvem a crise climática, mas podem tornar o quotidiano mais suportável durante o calor extremo do verão.Pergunta 3 - Esta estratégia não desperdiça água preciosa no deserto?
Essa é a crítica principal. As cidades tentam limitar o impacto usando água residual tratada e rega gota-a-gota, mas a pegada hídrica continua elevada e permanece um tema sensível no debate local.Pergunta 4 - Que espécies têm tido mais sucesso nas mega-cidades do Golfo?
Espécies resistentes como ghaf, sidr, tamareiras, acácias e algumas importações seleccionadas pela elevada tolerância ao calor e ao sal tendem a sobreviver melhor com menos água e menor manutenção.Pergunta 5 - Outras cidades quentes podem copiar o que a Arábia Saudita e os EAU estão a fazer?
Sim, com adaptação. As ideias-base - mistura de árvores de sombra, água reciclada, materiais mais frescos e desenho urbano orientado para o conforto - já estão a inspirar políticas de cidades do sul da Europa ao Norte de África.
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