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Passo atrás da Stellantis nos elétricos: vai custar milhares de milhões

Carro desportivo elétrico futurista prata com luzes LED azuis num showroom com vista para a cidade ao pôr do sol.

A mudança para o carro 100% elétrico está em curso, mas não ao ritmo que muitos fabricantes colocaram nas suas folhas de Excel. Para grupos como a Stellantis - que aceleraram investimentos e decisões a contar com uma eletrificação mais rápida -, o desfasamento entre o que se previa e o que o mercado realmente está a pedir tornou-se um problema com impacto direto nas contas.

É nesse contexto que aparecem os cerca de 22 mil milhões de euros registados pela Stellantis nas contas de 2025. Não é dinheiro que tenha “evaporado” de um ano para o outro: trata-se do reconhecimento de imparidades.

A empresa admitiu que investimentos feitos nos últimos anos - sobretudo em plataformas elétricas, cadeia de abastecimento e projetos entretanto cancelados - já não vão entregar o retorno inicialmente esperado. Em termos simples, ativos que antes valiam mais no papel passaram a valer menos, e essa correção foi contabilizada de uma vez só.

A reestruturação anunciada em 2025 surge como uma forma de ajustar a rota. Inclui um investimento recorde de 13 mil milhões de dólares nos EUA, o lançamento de novos modelos com diferentes tipos de motorização e o cancelamento de projetos que deixaram de fazer sentido do ponto de vista económico, como a Ram 1500 elétrica.

Os primeiros efeitos operacionais já se notam - as vendas subiram 11% no segundo semestre de 2025, para 2,8 milhões de unidades -, mas o custo desta mudança estratégica foi elevado e refletiu-se diretamente nos resultados, incluindo a suspensão do pagamento de dividendos.

De onde vêm estes encargos?

Segundo o comunicado da Stellantis, a maior parcela - 14,7 mil milhões de euros - resulta, entre outros fatores, do realinhamento dos planos de produto, que inclui o cancelamento de vários modelos ou o ajuste dos volumes previstos para os modelos 100% elétricos em produção, que deverão ficar abaixo do projetado. Estas alterações também reduziram o valor de fábricas e levaram a multas e indemnizações a fornecedores por incumprimento de contratos.

Outra fatia, de 2,1 mil milhões de euros, está ligada ao redimensionamento da cadeia de abastecimento dos veículos elétricos. Aqui entram o encerramento ou a redução de operações em fábricas de baterias, como a venda da participação de 49% da Stellantis na NextStar Energy à parceira LG Energy Solution.

Outros 5,4 mil milhões de euros estão associados a má gestão e garantias, o que inclui futuras reparações e problemas de qualidade, bem como indemnizações relacionadas com cortes de pessoal na Europa

Aposta nos elétricos redimensionada

Apesar disso, a empresa reforçou que quer continuar a liderar no segmento dos elétricos, mas com uma abordagem alinhada com a procura real e não com a oferta: “Nos últimos cinco anos, a Stellantis tornou-se líder em veículos elétricos e vai continuar na vanguarda do seu desenvolvimento. Esta jornada prossegue num ritmo que precisa de ser guiado pela procura, e não por imposições. Estamos comprometidos em oferecer liberdade de escolha, inclusive para clientes cujos estilos de vida e necessidades tornam os veículos híbridos e de combustão interna a solução ideal.”

Perante este cenário, a Stellantis prevê fechar a segunda metade de 2025 com um prejuízo entre 19 mil milhões de euros e 21 mil milhões de euros, mas com receitas líquidas entre 78 e 80 mil milhões de euros - um aumento entre 8% e 11% face ao segundo semestre de 2024.

Antonio Filosa, diretor-executivo da Stellantis, comentou: “Os valores anunciados refletem o custo de superestimarmos o ritmo da transição energética, distanciando-nos das necessidades e desejos reais dos compradores. Refletem também impactos da má execução operacional anterior, cujos efeitos estão a ser corrigidos pela nova equipa.”

Filosa assumiu a liderança do grupo em junho de 2025, sucedendo a Carlos Tavares, que deixou o cargo em dezembro de 2024. O novo Plano Estratégico será apresentado no dia 21 de maio, durante o Investor Day.

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