Saltar para o conteúdo

Para travar o avanço do deserto, a China aposta numa “Grande Muralha Verde” com milhares de milhões de árvores.

Homem planta árvore numa área desértica com fileiras de árvores ao fundo e rega por tubos azuis.

Durante quase meio século, Pequim tem tentado traçar uma linha verde no meio da areia, recorrendo a florestas como barreira entre cidades em expansão e desertos que avançam. A ideia parece directa - plantar árvores, travar a poeira, proteger pessoas -, mas no terreno tudo é mais complexo, e o impacto ultrapassa largamente as fronteiras chinesas.

Porque é que o norte da China continua a secar

O norte da China nunca foi um território fácil. Os Himalaias funcionam como um enorme muro que bloqueia a entrada de ar húmido vindo do sul, criando uma sombra de chuva que deixa as grandes planícies e planaltos do lado mais árido. Este padrão natural ajuda a explicar porque é que os desertos de Gobi e Taklamakan, em conjunto, já ocupam mais de 1,6 milhões de km², uma extensão superior à da Mongólia.

A partir da década de 1950, porém, a pressão climática passou a somar-se a uma transformação económica acelerada. A expansão urbana consumiu terrenos agrícolas. Florestas foram exploradas e abatidas, ou substituídas por agricultura. Ao mesmo tempo, rebanhos de ovelhas e cabras intensificaram o sobrepastoreio em pradarias frágeis, removendo a vegetação que ajudava a fixar solos finos e vulneráveis.

Quando a cobertura vegetal desaparece, o vento ganha terreno. Em zonas da Mongólia Interior e nas franjas do Gobi, investigadores estimam que o deserto tenha avançado, em certos períodos, a um ritmo superior a 3 500 km² por ano, engolindo áreas que antes produziam cereais e sustentavam aldeias.

A areia também não fica onde está. Com base em estudos de campo e dados de satélite, algumas regiões do norte podem hoje registar grandes tempestades de areia até dez vezes por mês durante a época crítica. Estas ocorrências tingem o céu de amarelo sobre cidades como Pequim, elevam a poluição por partículas finas e levam ao cancelamento de voos e ao encerramento de escolas.

O mesmo processo que arranca matéria orgânica ao solo compromete o seu futuro: quando a camada superficial se perde ao vento, torna-se muito mais difícil a recuperação das plantas e a permanência dos agricultores.

As consequências sociais já são visíveis. Em vários pontos na periferia do deserto, governos locais reassentaram aldeias onde a agricultura deixou de ser viável, acrescentando uma dimensão económica e humana a um problema que começou por ser, sobretudo, de uso do solo.

O nascimento da Grande Muralha Verde e do Programa de Florestas de Protecção dos Três Nortes

Perante o aumento das tempestades de areia e o risco para a segurança alimentar, Pequim lançou, em 1978, uma das maiores campanhas de arborização da era moderna. O plano, oficialmente denominado Programa de Florestas de Protecção dos Três Nortes, concentra-se em três grandes regiões setentrionais, desenhando uma faixa que vai do nordeste, atravessa o norte e se estende até ao noroeste.

O objectivo foi formulado de forma simples e contundente: erguer uma barreira viva para travar o avanço do deserto. Até 2050, prevê-se que esta cintura de florestas e cortinas de abrigo se estenda por cerca de 4 500 km, formando aquilo a que os meios de comunicação rapidamente chamaram a Grande Muralha Verde.

Os números impressionam. Desde o final da década de 1970, terão sido plantadas mais de 66 mil milhões de árvores, e os planos apontam para mais 34 mil milhões nas próximas décadas. Em 2024, as autoridades chinesas anunciaram que uma faixa florestal passa a circundar totalmente o Taklamakan, um dos desertos mais secos e remotos do planeta.

Visto do espaço, partes significativas de uma fronteira antes nua surgem hoje como faixas finas, mas nítidas, de verde, cosidas entre dunas, estepe e cidades.

Em algumas áreas, a cobertura vegetal mais do que duplicou em relação ao final dos anos 1940, atingindo 25% ou mais. Responsáveis locais apontam para dunas estabilizadas, terras agrícolas recuperadas e níveis de poeira mais baixos como sinais de que a estratégia funciona.

Um aspecto muitas vezes subestimado é a manutenção: plantar é apenas o início. A sobrevivência das árvores depende de protecção contra pastoreio, substituição de mortalidade, controlo de pragas e, em certos locais, apoio hídrico cuidadoso - custos recorrentes que exigem financiamento e capacidade técnica ao longo de anos.

Também tem aumentado o papel da tecnologia. Monitorização por satélite, levantamentos no terreno e modelos climáticos passaram a orientar decisões sobre densidade de plantação, escolha de espécies e localização das faixas, reduzindo a dependência de metas uniformes e favorecendo correcções mais rápidas quando um método falha.

A Grande Muralha Verde muda mesmo o clima?

Em teoria, transformar areia em coberto florestal traz benefícios climáticos relevantes. Árvores sombreiam o solo, retêm humidade e removem dióxido de carbono da atmosfera. Superfícies mais escuras e vegetadas podem alterar temperaturas e padrões de vento a nível local, enfraquecendo tempestades de areia e podendo influenciar, ainda que ligeiramente, a precipitação.

Medições no terreno indicam que, pelo menos em algumas zonas, as faixas arborizadas reduzem a velocidade do vento junto ao solo e ajudam a manter a terra no lugar. Vários estudos associam projectos específicos de cortinas de abrigo a uma diminuição de tempestades de areia severas em cidades próximas.

Ainda assim, o quadro geral continua incerto. Climatólogos lembram que ciclos naturais de precipitação, além de mudanças climáticas regionais mais amplas, tornam difícil atribuir tendências às florestas por si só. Há anos com menos tempestades, seguidos de novos picos; e uma única década mais húmida pode ocultar um processo de aridificação mais profundo.

A composição da floresta também é determinante. Grande parte das primeiras fases apostou em monoculturas de crescimento rápido - grelhas extensas de uma só espécie, como choupos ou pinheiros, escolhidas pela rapidez e pela facilidade, e não pela resiliência a longo prazo. Essa opção trouxe uma lição dura.

Em 2000, um único surto de doença eliminou cerca de mil milhões de choupos em Ningxia, uma zona-chave da rede de cortinas de abrigo. A perda expôs a fragilidade de plantações uniformes em ambientes hostis.

A diversidade não é um luxo na silvicultura de zonas áridas; funciona como um seguro. Quando uma espécie falha, outras conseguem manter a linha.

Para além de pragas e doenças, existe uma limitação central: a água. Muitas destas regiões recebem menos de 200 mm de chuva por ano. Árvores de raízes profundas podem alcançar aquíferos, mas, se a densidade de plantação for elevada, podem secar os solos mais depressa do que a natureza os consegue recarregar.

Quando plantar árvores pode agravar a desertificação

Hoje, investigadores e agências ambientais na China discutem uma pergunta que, nos anos 1980, pareceria estranha: será que a arborização, se for mal concebida, pode acelerar a desertificação?

Cientistas como Xian Xue, da Academia Chinesa de Ciências, têm alertado para esse risco. Plantações densas e muito exigentes em água, instaladas sobre dunas activas e em locais onde a precipitação continua extremamente baixa, podem baixar o nível das águas subterrâneas. Quando o lençol freático desce, as árvores definham, e o que fica são troncos mortos e areia exposta - por vezes onde antes existia pelo menos uma cobertura rala de ervas.

Esta deriva verde - impor floresta onde o ecossistema tende naturalmente para matos, estepe ou arbustos esparsos - pode ainda colidir com usos tradicionais do território. Pastores nómadas e semi-nómadas, que historicamente deslocavam os animais de forma sazonal, por vezes vêem as rotas interrompidas por plantações, concentrando os rebanhos em áreas menores e agravando aí o sobrepastoreio.

Os decisores enfrentam, assim, um equilíbrio delicado: reduzir a erosão, garantir meios de subsistência e poupar água ao mesmo tempo. Esse conjunto raramente cabe num modelo único.

Da “muralha” ao mosaico: soluções mais inteligentes e locais para a Grande Muralha Verde

As fases mais recentes da Grande Muralha Verde evidenciam uma mudança clara de abordagem. Em vez de linhas longas e contínuas de árvores altas, muitas regiões estão a experimentar um mosaico de usos do solo ajustado às condições locais.

  • Arbustos baixos e tolerantes à seca onde a precipitação é mínima
  • “Ilhas” de bosque em torno de aldeias e campos, em vez de faixas uniformes
  • Recuperação de pradarias nativas em áreas mais adequadas a pastoreio do que a produção florestal
  • Culturas lenhosas (por exemplo, árvores de fruto ou de fruto seco) que combinam valor económico com protecção do solo

Em zonas frágeis, as autoridades também promovem interdições ao pastoreio ou restrições sazonais, para dar tempo à vegetação de recuperar. A monitorização por satélite e as campanhas no terreno permitem ajustar, de ano para ano, densidades de plantação, combinações de espécies e calendários de rega, em vez de fixar um plano rígido e imutável.

O projecto evoluiu de uma muralha de “tamanho único” para um vasto e irregular laboratório de gestão de zonas áridas, estendido por todo o norte da China.

No plano internacional, o esforço chinês alimenta um debate mais amplo sobre megaprogramas de arborização. Países do Sael, por exemplo, lançaram a sua própria Grande Muralha Verde em África. A experiência de Pequim sugere que o sucesso depende menos dos números que aparecem nas manchetes e mais do que se planta, onde se planta e de como isso respeita a realidade local de água e solo.

O que isto significa para o clima, a alimentação e a vida quotidiana

O que está em jogo vai muito além da paisagem. Solos estabilizados ajudam a proteger colheitas de milhões de agricultores que trabalham na margem das terras áridas. Menos tempestades de areia podem reduzir custos de saúde e perdas de produtividade em cidades a sotavento.

Do ponto de vista climático, as florestas do norte e as pradarias restauradas armazenam quantidades relevantes de carbono, embora as estimativas variem bastante e muitas plantações ainda sejam jovens. O seu valor mais sólido pode não estar apenas no carbono acumulado, mas na protecção de sistemas agrícolas e comunitários essenciais ao abastecimento alimentar.

Aspecto Benefício potencial Principal risco
Faixas arborizadas Reduzem a velocidade do vento, retêm areia, protegem culturas Uso excessivo de águas subterrâneas, surtos de pragas
Recuperação de pradarias Apoia pastores, evita a formação de crostas no solo Exige gestão do pastoreio e fiscalização de longo prazo
Culturas lenhosas Rendimento para agricultores e controlo da erosão Dependência de mercado, risco de monocultura

Quem vive junto à orla do deserto já sente os dois lados da mudança. Algumas famílias passaram a obter rendimento com a manutenção de cortinas de abrigo ou com pomares instalados onde antes dominava a areia. Outras enfrentam restrições ao uso tradicional de terra e água, ou vêem projectos falhar após poucos anos particularmente secos.

Para lá da China: lições de um ensaio à escala de um continente

Para outros países de zonas áridas que observam a China, sobressaem várias conclusões. Em primeiro lugar, a reflorestação em ambientes secos tende a funcionar melhor quando respeita os tipos de vegetação nativa e os limites hídricos. Arbustos baixos adaptados à seca ou ervas autóctones podem oferecer protecção semelhante à de árvores altas, sem a mesma sede.

Em segundo lugar, diversidade e flexibilidade são decisivas. Misturar espécies distribui o risco e ajustar tácticas à medida que surgem novos dados climáticos e feedback local impede que erros iniciais se transformem em marcas permanentes na paisagem.

Por fim, qualquer projecto de barreira verde está ligado directamente a alimentação, migração e saúde pública. Uma cortina de abrigo eficaz pode significar uma colheita estável de trigo e ar urbano mais limpo. Uma monocultura falhada pode traduzir-se em campos abandonados e numa nova vaga de deslocação para cidades já sobrelotadas.

À medida que a Grande Muralha Verde se aproxima da meta de 2050, cientistas continuam a refinar modelos que simulam como diferentes padrões de plantação influenciam ventos, precipitação e águas subterrâneas. Esses modelos, combinados com imagens de satélite e ensaios no terreno, sustentam expectativas mais sóbrias: nenhuma floresta travará o Gobi sozinha, mas um mosaico bem desenhado de árvores, arbustos e pradarias pode abrandar a areia e dar às populações mais margem para se adaptarem.

Por agora, o norte da China mantém-se como um laboratório vivo de um esforço raro: redesenhar a fronteira entre floresta, cidade e deserto - não com betão, mas com milhares de milhões de pequenas apostas verdes no futuro.

Comentários

Ainda não há comentários. Seja o primeiro!

Deixar um comentário