Dois artefactos desenterrados junto à margem de um lago, na Grécia, são - até ao momento - as ferramentas de madeira mais antigas alguma vez encontradas, com uma antiguidade estimada em 430.000 anos, segundo uma notícia divulgada a partir de Nova Iorque pela Agência de Imprensa Associada (AP).
A descoberta, descrita num estudo publicado na segunda-feira na revista Atas da Academia Nacional de Ciências, acrescenta novas pistas sobre o conjunto de tecnologias disponíveis para os humanos antigos numa época em que a madeira raramente se preserva.
Ferramentas de madeira na bacia de Megalópolis: o que foi encontrado
Os investigadores identificaram duas peças de madeira na bacia de Megalópolis, na Grécia:
- Um pau fino e comprido, com cerca de 80 centímetros de comprimento, que poderá ter servido para escavar lama junto à zona húmida.
- Um fragmento mais pequeno e de interpretação incerta, manuseável, feito de salgueiro ou choupo, que pode ter sido usado para trabalhar e moldar ferramentas de pedra, de acordo com os autores.
Porque é tão raro encontrar ferramentas de madeira tão antigas
Os cientistas consideram que os humanos antigos recorriam a uma grande variedade de utensílios feitos de pedra, osso e madeira. Ainda assim, encontrar provas de ferramentas de madeira é particularmente difícil, porque a madeira apodrece rapidamente e, na maioria dos contextos, desaparece sem deixar rasto.
Por isso, estes objectos só costumam sobreviver em condições muito específicas, como: - ambientes gelados, - grutas, - contextos subaquáticos ou permanentemente encharcados.
Como estas peças poderão ter sido preservadas durante 430.000 anos
No caso da bacia de Megalópolis, os utensílios terão sido rapidamente cobertos por sedimentos e, ao longo do tempo, mantidos por um ambiente húmido, criando as condições necessárias para a preservação.
O local já era conhecido dos investigadores: ao longo dos anos, foram aí encontrados outros vestígios, incluindo ferramentas de pedra e ossos de elefante com marcas de corte, indícios compatíveis com actividades de processamento de animais e uso regular de instrumentos.
A datação e o que ainda não se sabe sobre os utilizadores
Os cientistas não dataram directamente as duas peças de madeira. Ainda assim, a idade do sítio - cerca de 430.000 anos - serve como base para estimar a antiguidade dos objectos e enquadrá-los no período a que pertencem.
Até agora, não foram descobertos restos humanos no local, pelo que continua por esclarecer quem terá usado estas ferramentas. Entre as hipóteses apontadas estão neandertais, antepassados humanos mais antigos ou outros grupos humanos então presentes na região.
A autora do estudo Annemieke Milks, da Universidade de Reading, sublinhou o impacto pessoal do achado: “Sempre me entusiasmou poder tocar nestes objectos”.
Um achado promissor, mas difícil de interpretar
Para o arqueólogo Jarod Hutson, do Museu Nacional de História Natural da Smithsonian, é provável que a zona ainda guarde mais “tesouros” do passado à espera de serem encontrados. No entanto, referiu que o aspecto pouco chamativo destas duas peças complica a leitura do seu uso.
“É difícil entusiasmar-nos com isto, porque, à primeira vista, não parecem imediatamente ferramentas de madeira. E não sabemos para que serviam”, afirmou Hutson, que não participou no novo estudo.
Outras descobertas de ferramentas de madeira antigas e o que esta acrescenta
Existem outros exemplos de utensílios de madeira muito antigos, como um conjunto de lanças descobertas na Alemanha e paus de escavação na China com 300.000 anos, que poderão ter sido usados na colheita de plantas.
Ainda assim, este novo achado oferece uma oportunidade rara para observar a diversidade de instrumentos usados na sobrevivência quotidiana e ilumina um “aspecto pouco conhecido da tecnologia dos humanos antigos”, escreveu por correio electrónico a autora do estudo Katerina Harvati, da Universidade de Tübingen.
O que estas ferramentas de madeira podem revelar sobre a vida quotidiana
Ferramentas como paus de escavação ou peças usadas no trabalho da pedra sugerem actividades que nem sempre deixam sinais óbvios no registo arqueológico, desde mexer em sedimentos húmidos até preparar materiais e superfícies para outras tarefas. Numa paisagem ribeirinha, estes objectos podem ter sido essenciais para obter recursos, processar alimentos e apoiar outras tecnologias, complementando as ferramentas de pedra.
Ao mesmo tempo, descobertas em zonas húmidas reforçam a importância de continuar a investigar contextos onde a madeira possa sobreviver: quando o ambiente preserva materiais orgânicos, a arqueologia ganha acesso a partes do quotidiano que normalmente se perdem, oferecendo um retrato mais completo das capacidades técnicas e das estratégias de adaptação dos grupos humanos antigos.
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