Durante milhões de anos, pequenos ossos ficaram encerrados na rocha até, finalmente, contarem a sua história sombria. Trata-se de fósseis com cerca de 150 milhões de anos, pertencentes a duas crias de pterossauro que, ao que tudo indica, morreram num episódio meteorológico extremamente violento, segundo concluíram agora paleontólogos.
O que torna esta descoberta especialmente notável não é apenas a possibilidade de reconstituir o modo como morreram. É, também, o simples facto de ossos tão delicados terem chegado até nós em tão bom estado.
Porque é tão raro fossilizar pterossauros
Os pterossauros tinham esqueletos extraordinariamente leves. Como explica o paleontólogo Rab Smyth, da Universidade de Leicester (Reino Unido), os seus ossos eram ocos e de paredes finas: uma vantagem decisiva para o voo, mas um enorme obstáculo para a fossilização.
Além disso, se já é improvável preservar um único indivíduo, encontrar fósseis que ainda permitam inferir a causa da morte é algo mais raro ainda. Neste caso, os investigadores perceberam que estas duas particularidades estão interligadas: as mesmas tempestades violentas que matavam podiam, simultaneamente, criar as condições ideais para preservar.
O enigma de Solnhofen: por que aparecem tantos juvenis?
Existe uma característica intrigante no registo fóssil de pterossauros. Os calcários litográficos de Solnhofen, do Jurássico Superior no sul da Alemanha, já forneceram centenas de exemplares de pterossauros - na maioria individuais e incompletos, mas ainda assim um conjunto riquíssimo para estudar várias espécies e a sua anatomia.
O problema é que, por algum motivo, a esmagadora maioria desses exemplares é de pterossauros juvenis.
Isto parece contraditório: os pterossauros estão, em geral, mal representados no registo fóssil devido à fragilidade dos ossos. E os ossos de juvenis são ainda mais frágeis do que os de adultos. Então, porque razão é que, precisamente aqui, se preservam preferencialmente os mais novos?
Crias de pterossauro Pterodactylus “Afortunado I” e “Afortunado II”: a pista decisiva
Smyth e a sua equipa suspeitaram que um par de crias poderia ajudar a resolver o mistério. As duas pertencem ao género Pterodactylus, foram descobertas com um ano de intervalo e receberam, com ironia, as alcunhas de “Afortunado I” e “Afortunado II”.
Estes dois indivíduos eram minúsculos - com corpos menores do que os de um rato moderno - e surgem excecionalmente preservados: completos, intactos e com o esqueleto articulado, quase como se nada tivesse mudado desde o dia em que morreram.
Há outro detalhe marcante: ambos apresentam fraturas nos ossos das asas. Num deles, a fratura está na asa esquerda; no outro, na asa direita. E as duas quebras parecem ter ocorrido de forma muito semelhante: uma fratura limpa e oblíqua do úmero, sugerindo que a força foi aplicada com um movimento de torção. Perante estes indícios, os investigadores avançaram para uma reconstrução forense do evento.
Uma tempestade, ventos extremos e uma lagoa: como a morte levou à preservação
Os calcários de Solnhofen formaram-se no que, em tempos, foi o leito lodoso de uma lagoa de água salgada. Segundo a reconstrução da equipa, as duas crias encontraram o seu fim durante uma tempestade poderosa, com ventos violentos capazes de lhes partir os ossos das asas em pleno impacto.
De seguida, esses mesmos ventos terão lançado as crias, com apenas uma ou duas semanas de vida, para dentro da lagoa. Com a água agitada e revolvida pelas condições de tempestade, os pequenos corpos frágeis conseguiram afundar rapidamente. No fundo, sedimentos finos cobriram-nos depressa e, ao longo do tempo, novas camadas foram-se acumulando, selando os restos e preservando-os por eras.
Como os cientistas inferem a causa da morte a partir dos ossos
A interpretação não depende apenas de “ossos partidos”. A forma e o ângulo da fratura, a presença de quebras compatíveis entre indivíduos, e o contexto sedimentar (um ambiente de deposição de lama fina, capaz de soterrar rapidamente) ajudam a distinguir entre fraturas ocorridas no momento da morte e danos muito posteriores, por pressão das rochas ou erosão. Neste caso, a combinação entre fraturas semelhantes e o cenário de deposição reforça a hipótese de um episódio súbito e energético, como uma tempestade.
Porque é que há tantos juvenis e tão poucos adultos no fundo da lagoa
A abundância de outros restos diminutos no mesmo nível fossilífero dá suporte a esta explicação. Pterossauros mais velhos e robustos teriam maior capacidade de resistir e sobreviver às tempestades que vitimaram os mais novos. Naturalmente, também acabariam por morrer um dia - mas, em condições calmas, se caíssem na água, os cadáveres tenderiam a flutuar, desarticular-se e decompor-se antes de afundarem, perdendo-se grande parte do esqueleto.
Deste modo, no fundo da lagoa acabariam por se acumular sobretudo os ossos dos indivíduos mais pequenos e vulneráveis, oferecendo uma solução elegante para um problema que durante muito tempo permaneceu sem resposta.
O que isto muda na leitura do ecossistema de Solnhofen
Durante séculos, muitos cientistas assumiram que o ecossistema da lagoa de Solnhofen era dominado por pterossauros pequenos. Smyth considera agora que essa imagem está profundamente enviesada: grande parte destes pterossauros não seria residente da lagoa. Em vez disso, muitos seriam juvenis inexperientes, provavelmente a viver em ilhas próximas, que foram apanhados por tempestades intensas e arrastados para a água.
Implicações mais amplas para o registo fóssil de pterossauros
Este caso sublinha como o registo fóssil pode refletir, não a fauna “típica” de um local, mas sim os efeitos de eventos raros (tempestades, cheias, deslizamentos) e de processos de preservação seletiva. Ao reconhecer estes filtros, torna-se possível interpretar com mais rigor tanto a distribuição de idades (juvenis vs. adultos) como a presença de espécies em determinados ambientes.
Os resultados foram publicados na revista científica Biologia Atual.
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