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Doença de Parkinson: oligómeros de alfa-sinucleína podem perfurar membranas celulares

Imagem 3D de fibras nervosas com células e bactérias vermelhas ao redor.

A doença de Parkinson está ligada à formação, no cérebro, de agregados tóxicos da proteína alfa-sinucleína, que interferem com a comunicação normal entre células nervosas. Um novo estudo acrescenta uma peça importante ao puzzle: além desses aglomerados, formas mais pequenas da mesma proteína - os oligómeros de alfa-sinucleína - podem danificar as células de outra maneira, ao criarem poros nas membranas celulares.

O que os investigadores observaram nos oligómeros de alfa-sinucleína

Uma equipa da Universidade de Aarhus, na Dinamarca, analisou estes oligómeros, moléculas menores que também surgem associadas à doença de Parkinson. Recorriendo a um modelo celular criado em laboratório, os investigadores concluíram que os oligómeros conseguem abrir pequenas perfurações na membrana das células.

Estas ruturas tornam a membrana menos “estanque”, permitindo a entrada e saída de moléculas de forma descontrolada. O resultado poderá ser um conjunto de desequilíbrios químicos no interior da célula, algo que pode ter um papel relevante na progressão da doença.

“Somos os primeiros a observar diretamente como estes oligómeros formam poros - e como esses poros se comportam”, afirma a biofísica Mette Galsgaard Malle.
“É como ver um filme molecular em câmara lenta.”

Um processo em três etapas e poros que não param quietos

De acordo com as observações, a ação dos oligómeros segue um processo em três fases: primeiro, a fixação à membrana; depois, uma inserção parcial; e, por fim, a formação do poro.

Um detalhe crucial é que, depois de criadas as aberturas, estas não se mantêm necessariamente iguais ao longo do tempo. Em vez de serem estruturas estáticas, os poros mostraram-se dinâmicos, alternando entre estados de abertura e fecho de forma repetida.

Os investigadores obtiveram “instantâneos” das membranas simuladas que permitiram acompanhar, passo a passo, como o dano se desenvolvia.

“Este comportamento dinâmico pode ajudar a explicar porque é que as células não morrem de imediato”, diz o biólogo molecular Bo Volf Brøchner.
“Se os poros ficassem permanentemente abertos, as células provavelmente colapsariam muito rapidamente. Mas, como abrem e fecham, as bombas da própria célula podem conseguir compensar temporariamente.”

Porque é que as mitocôndrias podem ser um alvo preferencial

Um dos resultados mais intrigantes foi a preferência dos oligómeros por membranas mais curvas. Este tipo de curvatura é típico, por exemplo, das mitocôndrias, estruturas responsáveis pela produção de energia dentro das células.

Esta afinidade pode contribuir para compreender melhor como certos componentes celulares são afetados e, consequentemente, apontar direções para contrariar mecanismos que alimentam a doença de Parkinson.

O que falta confirmar e porque a causa do Parkinson continua em aberto

Apesar dos dados, os autores sublinham que ainda é necessário validar estes efeitos em neurónios vivos. Ainda assim, os resultados ajudam a clarificar possíveis mecanismos pelos quais a doença de Parkinson pode provocar lesões celulares.

A doença de Parkinson é complexa e os cientistas continuam sem consenso sobre a sua origem. A acumulação nociva de proteínas analisada neste trabalho, por exemplo, pode ser simultaneamente causa e consequência da condição.

Sabe-se também que a alfa-sinucleína tem funções importantes num cérebro saudável, e permanece por esclarecer porque é que, na doença de Parkinson, este sistema “descarrila”. Diversos fatores de risco já foram associados à doença - como alimentação, genética e historial médico - e é possível que contribuam em conjunto, por vias diferentes, para o problema.

Possíveis caminhos para travar os danos: nanocorpos e novas estratégias

Tal como acontece com outros estudos sobre Parkinson, esta investigação não só aprofunda a compreensão do que pode estar a acontecer nas células, como também sugere hipóteses de intervenção que, em teoria, poderiam abrandar - ou até prevenir - parte do processo.

A equipa já experimentou nanocorpos capazes de reconhecer oligómeros depois de estes se formarem. No entanto, por enquanto, esses nanocorpos ainda não impedem que os poros surjam nas membranas.

Um aspeto adicional a explorar é se bloquear a formação de poros será mais eficaz quando combinado com abordagens que reduzam o stress celular associado, como estratégias centradas na proteção das mitocôndrias e no reforço dos mecanismos celulares de controlo de qualidade de proteínas. Outra questão relevante é perceber se diferentes “tipos” de oligómeros (com tamanhos e conformações distintas) têm capacidades diferentes para perfurar membranas, o que poderia influenciar futuras terapias.

Próximos passos: de um sistema limpo para a biologia real

Os autores descrevem o seu método como uma forma de isolar variáveis e medir fenómenos com precisão, antes de avançar para ambientes biológicos mais complexos.

“Criámos uma configuração experimental ‘limpa’, onde conseguimos medir uma coisa de cada vez”, explica Malle. “Agora precisamos de dar o passo seguinte e investigar o que acontece em sistemas biológicos mais complexos.”

O estudo foi publicado na revista ACS Nano.

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