A Lua “sorridente” passa por Régulo e Vénus ainda esta semana, num alinhamento tão bonito quanto complexo.
Se por vezes dá a sensação de que o Universo está literalmente a sorrir para nós, esta sexta-feira, 19 de setembro, poderá reforçar essa ideia. Com o céu limpo e um despertador generoso, vale a pena levantar cedo para observar, no crepúsculo da madrugada a leste, um encontro invulgar entre Vénus, Régulo e uma Lua em finíssimo crescente.
Conjunção “emoticon” da Lua, Vénus e Régulo (um dos melhores alinhamentos de 2025)
O cenário aparente é simples - e ao mesmo tempo notável. Na manhã do dia 19, a Lua surge como um crescente minguante com apenas 5% de iluminação, posicionada cerca de 27° a oeste do Sol.
A completar o trio está Vénus, iluminada a 89% e a mostrar um disco com cerca de 11″ de diâmetro aparente. Ao longo de grande parte do ano, Vénus tem sido a protagonista do céu da madrugada, dominando o horizonte oriental antes do nascer do Sol.
Por fim, entra em cena Régulo, com magnitude +1,3, a estrela mais brilhante da constelação Leão - e o terceiro elemento perfeito para fechar o “rosto” no céu.
Apesar de, do nosso ponto de vista, os três caberem confortavelmente dentro de um círculo de 1° no firmamento, este alinhamento é também uma excelente aula sobre distâncias astronómicas: a Lua está “apenas” a cerca de 385 000 km (aproximadamente 1,3 segundos‑luz), Vénus fica a pouco mais de 12 minutos‑luz, e Régulo está muito para lá do Sistema Solar, a cerca de 78 anos‑luz.
O resultado visual pode lembrar um “emoticon”: Vénus e Régulo como olhos brilhantes, e o arco do crescente lunar a desenhar o sorriso. E o mais interessante é que, além do efeito estético, a dança de cada um destes astros traz acontecimentos próprios que tornam a data ainda mais especial.
Ocultações: quando a Lua passa à frente de Régulo e de Vénus
O primeiro acontecimento, mais selectivo, envolve Régulo: no dia 19, a Lua chega a ocultar Régulo (isto é, a passar à frente da estrela) para uma faixa remota do norte da Sibéria. Esta ocultação faz parte de um ciclo emergente de ocultações de Régulo pela Lua, que se estende até 24 de janeiro de 2027.
A ocultação mais mediática, contudo, deverá ser a de Vénus pela Lua. O extremo noroeste do Árctico canadiano terá a melhor combinação de condições, com o fenómeno a ocorrer sob céu escuro a crepuscular. Já o Atlântico Norte e praticamente toda a Europa continental, prolongando-se para sul até ao norte de África, verão a Lua a ocultar Vénus durante o dia.
Mesmo fora da faixa onde ocorre a ocultação, continua a existir um desafio observacional muito interessante: tentar ver Vénus perto da Lua em pleno dia. A estratégia mais eficaz é seguir o par desde a aurora e continuar a observação depois do nascer do Sol, quando já se tem a posição bem “marcada”.
Atenção à segurança: ao tentar esta observação diurna, é essencial manter o Sol totalmente fora do campo de visão, tapando-o com um edifício, uma colina ou outro obstáculo sólido. Nunca aponte binóculos ou telescópio para perto do Sol sem extrema precaução.
E já agora: será que também consegue apanhar Régulo ali ao lado? Para essa missão diurna, binóculos ou um telescópio podem fazer a diferença.
A raríssima dupla ocultação (quase impossível de testemunhar)
Este conjunto completa ainda uma dupla ocultação rara - embora, na prática, seja pouco provável que alguém a consiga observar. Por volta das 12:30 em Tempo Universal (UT) do dia 19, Vénus e Régulo estão separados por cerca de 30′ (meio grau), e ambos só seriam encobertos pela Lua sob um crepúsculo muito claro, visto a partir de uma zona extremamente remota a norte de Dudinka, na Sibéria Árctica (Rússia).
Mesmo assim, é difícil não imaginar a beleza do momento: Vénus e Régulo a “rasparem” o relevo lunar, a entrar e a sair por entre picos e vales ao longo do limbo da Lua.
Onde o “sorriso” se vê melhor
De forma geral, quanto mais a noroeste na América do Norte se estiver, mais o conjunto se parece com um “sorriso” bem definido. No leste dos EUA, por exemplo, Vénus, Régulo e a Lua tendem a alinhar-se quase em linha recta, do sul para norte. Já o Yukon e o Alasca ficam com o prémio do melhor enquadramento: um “rosto” lunar sorridente, com “olhos” muito evidentes, sob um crepúsculo mais escuro.
Para observadores em Portugal, a referência prática mantém-se: procurar o trio baixo a leste na madrugada, preferencialmente a partir de um local com horizonte desimpedido e pouca poluição luminosa. Se tiver oportunidade, uma fotografia com teleobjectiva (ou mesmo um telemóvel acoplado ao ocular de binóculos/telescópio) pode registar o alinhamento - sobretudo se começar a captar ainda com o céu relativamente escuro.
Porque é que este tipo de alinhamento é tão raro?
Quão rara é uma cena destas? Conseguir um agrupamento tão fechado - dentro de um círculo com meio grau, aproximadamente a largura aparente da Lua - não é nada trivial.
Temos cinco planetas visíveis a olho nu (Mercúrio, Vénus, Marte, Júpiter e Saturno) e, além disso, existem quatro estrelas brilhantes próximas da trajectória aparente da Lua: Aldebarã, Espiga, Antares e Régulo.
Para que o “sorriso” resulte, a Lua precisa ainda de estar numa fase apropriada, algures entre o Quarto Minguante e o Quarto Crescente (evitando a Lua Cheia e também um crescente demasiado invisível). Some-se a isto o facto de a Lua se deslocar no céu aproximadamente um diâmetro lunar por hora, o que torna estes encaixes apertados particularmente difíceis de acertar.
Há alguns anos, ficou claro que muitos destes “emoticons” acabam por envolver ocultações de dois objectos brilhantes pela Lua, frequentemente separadas por cerca de uma hora. Este tipo de eventos pode ser pesquisado com relativa facilidade em programas como o Occult 4.2 - afinal, há quem faça disto um passatempo, sobretudo quando o tempo lá fora não ajuda.
Ao analisar o milénio actual até ao ano 3000 d.C., foram identificados 85 eventos deste género.
Claro que muitos ficam demasiado perto do Sol, outros acontecem perto da Lua Cheia, e vários ocorrem sob céu diurno - condições que reduzem drasticamente o interesse observacional. Um dos melhores exemplos de sempre aconteceu na manhã de 23 de abril de 1998, quando a Lua ocultou Vénus e Júpiter (sim, ambos) vistos a partir da Ilha da Ascensão, no Atlântico Sul.
O evento foi efectivamente documentado por Olivier Staiger.
E, ainda assim, continua a ser uma raridade. O próximo caso semelhante encontrado só surge a 15 de outubro de 2036, novamente com Régulo (desta vez em combinação com Saturno).
A Lua segue caminho para o último eclipse de 2025
Convém também manter a Lua “debaixo de olho”: ela encaminha-se para o último eclipse de 2025, com um eclipse parcial profundo que favorecerá a Nova Zelândia, o Pacífico Sul e a Antárctida, já a 21 de setembro.
Haverá mais a dizer sobre isso ao longo desta semana. Por agora, a sugestão é simples: aproveite a rara conjunção “emoticon” desta sexta-feira. Se existe prova de que o Universo tem sentido de humor, esta poderá ser uma delas.
Este artigo foi originalmente publicado pela Universe Today. Leia o artigo original.
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