Saltar para o conteúdo

Neutralidade climática poderá custar 100 mil postos de trabalho na Alemanha

Carro elétrico cinza Europa V em exposição numa sala moderna com luz natural e outros carros ao fundo.

O setor dos fornecedores automóveis volta a deixar um aviso claro aos decisores da União Europeia. A CLEPA (Associação Europeia de Fornecedores Automóveis) tem vindo a chamar a atenção para a possibilidade de se perderem mais de 350 mil empregos até ao final desta década.

A preocupação ganha particular peso na Alemanha: segundo a revista alemã AutoBild, é antecipada a eliminação de cerca de 100 mil postos de trabalho nos próximos quatro anos.

Entre as causas apontadas pela associação estão os custos energéticos e a forma como as políticas de neutralidade climática estão a ser aplicadas. Para a CLEPA, a mudança só poderá resultar se a Europa mantiver aquilo que a sustenta - competências, tecnologia e capacidade industrial - defendendo que a transição para a neutralidade climática depende de preservar a base de produção que a torna viável.

Fornecedores automóveis e CLEPA: o primeiro impacto já se sente

O nervosismo entre fornecedores europeus deixou de ser teórico. Várias empresas já comunicaram despedimentos, incluindo a ZF, a Continental, a Bosch e a Schaeffler.

Ao mesmo tempo, o risco financeiro está a aumentar. Um relatório da consultora Falkensteg prevê que, este ano, o índice de falência entre fornecedores alemães suba 30% face ao ano anterior. Até ao momento, 36 fornecedores já declararam falência, ultrapassando o número registado no ano passado. Um dos fatores decisivos tem sido a procura abaixo do esperado por automóveis elétricos.

Cortes e reestruturações: ZF, Bosch, Schaeffler e Continental

No caso da ZF, foram tornados públicos planos para suprimir 7 600 postos de trabalho na unidade de motores elétricos, o equivalente a um quarto do efetivo dessa área. A empresa pretende, com esta medida, cortar 500 milhões de euros em custos até 2027.

No conjunto do grupo, a ZF aponta para uma redução superior a 14 mil empregos, travando o desenvolvimento de produtos exclusivamente elétricos e redirecionando investimento para tecnologias híbridas plug-in.

O diretor-executivo Mathias Miedreich justificou este desinvestimento com o facto de a transição para os automóveis elétricos estar a avançar a um ritmo mais lento do que o previsto.

Seguindo uma linha semelhante, Bosch e Schaeffler anunciaram reduções de aproximadamente 3% do respetivo efetivo: 13 mil empregos no caso da Bosch e 3 600 no caso da Schaeffler.

Já a Continental optou por extinguir a sua divisão de Investigação & Desenvolvimento dedicada ao automóvel, no âmbito de uma reestruturação que coloca no centro a área de pneus e os negócios industriais, vistos como mais lucrativos.

A Falkensteg vai mais longe e fala em “problemas estruturais profundamente enraizados”, acrescentando que os fornecedores muito dependentes de componentes para motores de combustão enfrentam um cenário com poucas hipóteses de sobrevivência.

Marcas chinesas: pressão acrescida sobre os fornecedores europeus

As marcas chinesas surgem como outro elemento de forte pressão para os fornecedores europeus. Com custos mais baixos, reduzem a margem de manobra de empresas que ainda procuram adaptar-se à nova realidade elétrica e digital.

Peter Pacheco, analista da Gartner, explicou à Automotive News que, na China, tudo acontece a um ritmo consideravelmente superior, tanto na rapidez de desenvolvimento como na velocidade de execução do OEM (Fabricante de Equipamento Original).

O mesmo analista alerta que um simples corte agressivo de custos não resolve o problema - pelo contrário, pode travar a capacidade de inovação. Para responder ao desafio, defende que os fornecedores europeus precisam de reforçar o investimento em tecnologia elétrica e, em paralelo, transformar a cultura corporativa, ao mesmo tempo que enfrentam custos elevados de mão de obra e de energia - fatores que deixam a Europa em desvantagem face à concorrência chinesa.

Pacheco sublinha ainda as questões que ficam do lado das políticas públicas: como baixar os custos do trabalho na Alemanha e como reduzir o preço da eletricidade. Na sua leitura, estes aspetos constituem um desafio direto para o governo e, no conjunto, traduzem-se em desvantagens comerciais quando comparadas com uma empresa chinesa.

O que pode fazer a diferença na Europa

Além dos cortes, começa a ganhar importância a capacidade de requalificar trabalhadores e de reposicionar fábricas e cadeias de fornecimento. A transição para a mobilidade elétrica e para o software no automóvel exige competências diferentes - eletrónica de potência, sistemas de baterias, integração de software e validação digital - e a rapidez dessa reconversão pode ser determinante para evitar perdas adicionais de emprego.

Outra frente passa por criar condições mais competitivas para produzir na Europa: energia a preços previsíveis, processos industriais mais eficientes e um enquadramento que reduza a incerteza para investimento de longo prazo. Sem estas bases, mesmo fornecedores tecnologicamente fortes poderão continuar a perder terreno para concorrentes globais com custos estruturais mais baixos.

Comentários

Ainda não há comentários. Seja o primeiro!

Deixar um comentário