A China continua a assistir a uma guerra de preços no sector automóvel, apesar dos repetidos apelos de Pequim para travar a escalada. De acordo com a Bloomberg, construtores e concessionários mantêm descontos e condições comerciais muito agressivas para captar compradores.
Esta dinâmica não se restringe a marcas de topo. Tanto o Grupo Volkswagen como a General Motors avançaram, logo na primeira semana do ano, com novas campanhas, cortes de preços e soluções de “preço fixo” em modelos seleccionados, segundo a imprensa local.
Entre os exemplos mais visíveis está a Xiaomi, que passou a propor um crédito sem juros por três anos na compra do SUV YU7, numa tentativa clara de reduzir a barreira de entrada para novos clientes. Já a BMW aplicou reduções em 31 modelos, com cortes que podem chegar aos 301 mil renminbi (cerca de 36 800 euros, à taxa de câmbio actual). O maior abatimento foi no iX1 eDrive25L, cujo valor desceu 24%, para 228 mil renminbi (aproximadamente 27 900 euros).
A dimensão destas campanhas sugere que a concorrência por volume permanece intensa, num contexto em que os consumidores comparam preços ao detalhe e adiam decisões de compra à espera do “próximo” incentivo. Ao mesmo tempo, a pressão comercial tende a comprimir margens, aumentando o risco de algumas marcas dependerem excessivamente de promoções para manterem as vendas.
Os apelos de Pequim e as regras da SAMR para travar a guerra de preços
Esta guerra de preços não começou agora: arrancou em 2023 e, desde então, Pequim tem procurado impor limites à agressividade das campanhas. No mês passado, a autoridade chinesa de concorrência e regulação do mercado (SAMR) publicou minutas de regras destinadas a conter cortes excessivos.
Em termos práticos, o conjunto de propostas prevê a proibição de vender automóveis abaixo do preço de custo e impede descontos que levem a valores finais inferiores ao custo de produção. A intenção é travar práticas que possam distorcer o mercado e criar um efeito dominó na indústria.
Ainda assim, os incentivos continuam a multiplicar-se. Segundo a Associação Chinesa de Automóveis de Passageiros (CPCA), as vendas caíram em novembro pelo segundo mês consecutivo, o que “obriga” os construtores a reforçarem campanhas adicionais - mesmo correndo o risco de maior escrutínio regulatório.
O governo chinês também receia impactos mais amplos na cadeia de abastecimento. Com a pressão constante sobre preços, fornecedores de componentes podem sentir-se empurrados para peças mais baratas e potencialmente de menor qualidade; em paralelo, os salários dos trabalhadores podem ficar sob tensão, à medida que empresas tentam compensar margens mais reduzidas.
Além disso, quando a competição assenta sobretudo em descontos, cresce a probabilidade de se assistir a uma consolidação do sector, com marcas mais frágeis a terem dificuldade em financiar desenvolvimento, assistência pós-venda e expansão de rede - factores críticos num mercado tão competitivo.
O que diz a indústria automóvel?
Analistas referem que, apesar da intensidade das campanhas, as marcas ainda não estarão a vender de forma generalizada abaixo do seu custo de produção. No caso da BMW, por exemplo, os cortes funcionam sobretudo como um ajuste entre os preços recomendados e os valores efectivamente praticados nos concessionários. Para Yale Zhang, isto não configuraria uma guerra de preços “pura”, na medida em que os preços continuam acima do que se observava no ano passado.
Para lá dos cortes de preços, muitas marcas recorrem a outros mecanismos para tornar a compra mais atractiva. A Tesla, por exemplo, tem apostado em financiamento com juros reduzidos e numa opção sem juros por cinco anos. Já a Chery e outras marcas estão a oferecer dinheiro ou abatimentos na troca de carros usados, seguindo as orientações definidas pelo governo.
Embora parte destes incentivos esteja associada às campanhas pré-Ano Novo Chinês (17 de fevereiro), a escala da competição mostra que existem pressões estruturais mais profundas no mercado. Desde o início do ano, pelo menos 14 marcas anunciaram novos descontos ou incentivos, sinal de que a disputa por quota e por volume continua longe de abrandar.
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