A vida marinha acaba, inevitavelmente, por ingerir uma parte do que atiramos ao oceano - incluindo plásticos que já se tornaram omnipresentes. A pergunta é simples e inquietante: a partir de que quantidade é que o plástico passa de “lixo” a sentença de morte?
Um novo estudo divulgado esta segunda-feira sugere que o limite é surpreendentemente baixo. Em aves como os papagaios-do-mar do Atlântico, menos do que o equivalente a três cubos de açúcar em plástico pode ser suficiente para provocar a morte.
Erin Murphy, investigadora em plásticos marinhos na organização não governamental Conservação do Oceano, responsável pelo estudo, afirmou que este limiar “é muito menor do que esperávamos”.
Poluição por plástico e risco letal para a vida marinha
O artigo, publicado nos Anais da Academia Nacional de Ciências (PNAS), analisou resultados de necrópsias de mais de 10 000 animais. O objectivo foi modelar de que forma diferentes tipos de plástico afectam a vida marinha e em que ponto a “dose” ingerida se torna letal.
Segundo Murphy, “a ciência é clara”: é necessário reduzir a quantidade de plástico produzida, melhorar a recolha e a reciclagem e, além disso, limpar o que já se encontra no ambiente.
Para chegar às conclusões, os cientistas compilaram dados de dezenas de estudos e bases de dados internacionais, seleccionando casos em que se conheciam tanto a causa de morte como a informação sobre consumo de plástico. Em geral, tratava-se de animais arrojados em praias ou capturados acidentalmente.
A equipa modelou a relação entre a quantidade de plástico ingerida e a probabilidade de morte, avaliando tanto o número total de peças como o volume consumido em função do tamanho do tubo digestivo do animal.
Que tipos de plásticos afectam mais cada espécie
Os investigadores também compararam o impacto de diferentes materiais em diferentes grupos de animais.
- Aves marinhas: mostraram-se particularmente afectadas por borracha e plásticos rígidos. De acordo com o estudo, apenas seis fragmentos, cada um mais pequeno do que uma ervilha, tiveram 90% de probabilidade de causar a morte nestas aves.
- Tartarugas marinhas: enfrentaram um risco elevado com plásticos moles, como sacos.
- Mamíferos marinhos: os mesmos plásticos flexíveis revelaram-se especialmente mortíferos, tal como as artes de pesca.
Murphy deu um exemplo extremo observado em necrópsias: “uma baleia continha, literalmente, algo como um balde de cerca de 11 litros”.
Entre os indivíduos analisados, metade pertencia a espécies classificadas como ameaçadas, vulneráveis ou em perigo.
A “ameaça existencial” do plástico no oceano
Os autores do estudo esperam que o trabalho ajude a melhorar - ou a criar - programas de monitorização capazes de travar a poluição por plástico.
Para Murphy, a análise também “ajuda-nos a identificar materiais particularmente perigosos” que poderão justificar resposta através de políticas públicas, apontando exemplos como balões ou sacos de plástico.
Ainda assim, o estudo focou-se sobretudo em mortes que ocorreram rapidamente após lesões no trato gastrointestinal, o que representa apenas uma parte do problema. A investigação não incluiu: - efeitos crónicos associados a substâncias químicas presentes nos plásticos; - o risco de emaranhamento (por exemplo, em redes e linhas), que também constitui um perigo grave.
Na avaliação de Murphy, “a poluição por plástico representa uma ameaça existencial para a vida selvagem oceânica - e isto é uma subestimação do risco total”.
Kara Lavender-Law, professora de oceanografia na Associação de Educação Marinha, descreveu o estudo como “notável” e como “uma análise realmente sistemática e cuidadosa dos dados disponíveis” para compreender e prever o risco.
Microplásticos, grandes detritos e um problema com várias frentes
De acordo com a OCDE, em 2019 entraram cerca de seis milhões de toneladas de plástico em rios, lagos e oceanos.
Nos últimos anos, muita atenção tem recaído sobre a ubiquidade dos microplásticos, já detectados na fossa oceânica mais profunda e dispersos por várias partes do corpo humano. Para Lavender-Law, este estudo é um lembrete de que a contaminação por plástico no ambiente continua a ser um problema com várias dimensões.
Segundo a professora, a deslocação do foco para micro- e nanoplásticos, e da fauna para os seres humanos, é compreensível - “mas isso não significa que os riscos dos detritos maiores para animais maiores deixem de ser um problema real”.
O que pode ser feito a seguir
Para reduzir a poluição por plástico no oceano, a intervenção mais eficaz começa a montante: diminuir a produção e o uso de plásticos descartáveis, reforçando simultaneamente sistemas de reutilização, depósito com retorno e responsabilidade alargada do produtor. Medidas deste tipo podem reduzir o volume de resíduos que acaba por chegar aos cursos de água e, por fim, ao mar.
Ao nível local, programas regulares de limpeza costeira, melhorias na gestão de resíduos e a redução de perdas de artes de pesca (por exemplo, com marcação e recolha) ajudam a cortar uma das fontes mais perigosas para mamíferos marinhos e tartarugas marinhas. A combinação de prevenção, recolha eficiente e monitorização contínua é crucial para travar um risco que, como o estudo mostra, pode tornar-se letal com quantidades surpreendentemente pequenas.
© Agência France-Presse
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