O Centro de Portugal foi a zona mais castigada pela depressão Kristin na madrugada de 28 de janeiro, precisamente numa área onde se concentra um número elevado de empresas ligadas à produção de componentes para a indústria automóvel. Os danos no tecido empresarial foram expressivos, atingindo fábricas de moldes, componentes automóveis e vidro, com reflexos imediatos nas exportações e nas linhas de abastecimento de grandes multinacionais.
Componentes automóveis e a depressão Kristin: ruturas nas linhas de abastecimento
Segundo José Couto, presidente da AFIA (Associação de Fabricantes para a Indústria Automóvel), há já consequências para o fornecimento internacional. Em declarações ao Eco, sublinhou que “há empresas com problemas para abastecer linhas de produção de clientes na Europa. Alemanha e Espanha são os países que mais vão sofrer”.
Entre as atividades mais afetadas está o setor de componentes automóveis. Couto referiu que existem situações-limite: “há casos em que as empresas foram destruídas. Há uma linha de abastecimento que é interrompida”. No terreno, cerca de uma dúzia de empresas registou “paragens significativas” e perdas elevadas; em paralelo, um segundo conjunto, com aproximadamente 20 empresas parcialmente afetadas, enfrenta “prejuízos significativos e paragem de produção”.
A perturbação destas cadeias de fornecimento, além de pressionar prazos de entrega, aumenta o risco de penalizações contratuais e de reprogramações nas fábricas clientes, num contexto em que o abastecimento just-in-time continua a ser determinante para a indústria automóvel europeia.
Outros setores impactados
No segmento dos moldes, os estragos também são relevantes. Manuel Oliveira, secretário-geral da CEFAMOL - Associação Nacional da Indústria de Moldes -, estima que os danos acumulados já representem “uns milhões largos”.
Muitas unidades reportaram problemas estruturais, cortes de energia e avarias em equipamentos de elevada sofisticação tecnológica, com alguns operadores a conseguirem manter apenas atividade mínima através de geradores. “Há uma parte das unidades com problemas ao nível das coberturas, estruturas danificadas no interior e no exterior”, indicou Oliveira, acrescentando que a falta de materiais e de equipas de construção está a atrasar a normalização e a tornar a recuperação mais difícil.
Também o setor do vidro contabiliza perdas de milhões de euros, somando os custos de reconstrução industrial às quebras em exportações decorrentes da redução ou suspensão temporária de capacidade.
Apesar da gravidade dos impactos em fornecedores, há multinacionais que asseguram continuidade operacional. A Autoeuropa declarou que “estas ocorrências não tiveram impacto na produção, mas estamos a colaborar de forma estreita com todos os fornecedores afetados para garantir a continuidade das operações”.
Apelo à celeridade
As associações empresariais da região defendem uma resposta imediata e apoios diretos às empresas atingidas. AIP, NERLEI, NERSANT e NERC apresentaram propostas que incluem a extensão das subvenções até 10 mil euros, a ativação de apoios não reembolsáveis previstos no Decreto-Lei n.º 4/2023 e a simplificação do acesso a linhas de crédito e incentivos do PRR e do Portugal 2030.
Em comunicado, a AEP (Associação empresarial de Portugal) realçou que “a situação de calamidade afeta uma região com um tecido empresarial forte e com elevada vocação exportadora, o que reforça a necessidade de uma resposta eficaz e bem calibrada”.
Para Luís Miguel Ribeiro, presidente da AEP, o ponto decisivo é a rapidez de execução: “o que é verdadeiramente crítico é garantir uma ação célere. As empresas precisam de respostas rápidas para reparar danos, retomar a atividade e evitar prejuízos adicionais que possam comprometer a sua viabilidade”.
Ribeiro acrescentou ainda que fenómenos meteorológicos extremos são hoje “mais frequentes e previsíveis”, defendendo que Portugal deve reforçar a preparação para mitigar impactos económicos e empresariais associados a eventos desta natureza.
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