Exportar automóveis a partir da Europa raramente foi tão complexo. A dinâmica de procura na China arrefeceu, os fabricantes chineses ganharam uma expressão inédita e antigos dominadores - como a Volkswagen - viram o maior mercado automóvel do planeta mudar de protagonistas. Do outro lado do Atlântico, a volatilidade política e comercial nos Estados Unidos acrescentou mais uma camada de incerteza, tornando o planeamento estratégico dos grandes construtores europeus ainda mais difícil.
Num setor em que as decisões são tomadas a muitos anos de distância, com investimentos pesados, cadeias de abastecimento intrincadas e uma forte necessidade de previsibilidade, este cenário forçou a indústria automóvel europeia a redefinir prioridades e a procurar alternativas para continuar competitiva à escala global.
Foi neste contexto que, em poucas semanas, surgiram duas oportunidades que podem mexer no tabuleiro. É precisamente sobre isso que falamos num episódio do Auto Rádio, o podcast da Razão Automóvel com o apoio do Pisca Pisca: os entendimentos alcançados pela União Europeia com a Índia e com o Mercosul, capazes de alterar de forma significativa o acesso das marcas europeias a novos mercados.
Antes de olhar para cada acordo, há um ponto adicional que importa ter em conta: abrir portas comerciais não significa, por si só, vender mais. No automóvel, contam também as regras de homologação, os requisitos técnicos e ambientais, a rede de pós-venda, a disponibilidade de peças e a capacidade de adaptar produtos a gostos e utilização locais - fatores que podem acelerar (ou travar) o aproveitamento real de qualquer redução tarifária.
Acordo UE-Índia e oportunidades para a indústria automóvel europeia
A 27 de janeiro, a União Europeia (UE) assinou com a Índia um acordo comercial apontado como histórico, com o objetivo de aumentar a abertura do mercado indiano a bens europeus - com efeitos diretos no setor automóvel. A Índia é, neste momento, o terceiro maior mercado automóvel do mundo, com cerca de 4,5 milhões de veículos vendidos por ano.
O entendimento prevê uma descida faseada das tarifas aplicadas à importação de automóveis europeus, que até aqui podiam chegar aos 110%. Numa etapa inicial, essas taxas baixam para perto de 35%, seguindo-se uma eliminação gradual ao longo de um intervalo de cinco a 10 anos. Ainda assim, permanecerão várias limitações que poderão reduzir o alcance prático do acordo - apesar de Ursula Von der Leyen, presidente da Comissão Europeia, o ter ter descrito como a “mãe de todos os acordos”. Para aprofundar, consulte os detalhes aqui:
Ao longo do episódio, debatemos se este acordo poderá - ou não - transformar-se num ganho efetivo para a indústria automóvel europeia. Falamos também sobre a forma como os construtores já se estão a posicionar no mercado indiano, num quadro em que alguns grupos europeus já contam com produção local.
Um aspeto extra que merece atenção é o equilíbrio entre exportar e fabricar no destino. Num mercado com crescimento e concorrência intensa como o indiano, a estratégia pode passar por combinar importações (beneficiando da queda de tarifas) com maior localização de componentes e produção, mitigando riscos cambiais e logísticos e, ao mesmo tempo, respondendo mais depressa a preferências do consumidor.
Acordo UE-Mercosul
Noutra frente, a União Europeia deu aprovação política ao acordo comercial com o Mercosul, após 25 anos de negociações. Este bloco inclui Brasil, Argentina, Paraguai e Uruguai e, apesar da contestação de alguns Estados-membros, o acordo reuniu maioria qualificada no Conselho, abrindo caminho à criação de uma das maiores áreas de comércio livre do mundo, com cerca de 700 milhões de consumidores.
Para o setor automóvel, o potencial é relevante. O texto prevê a remoção progressiva de tarifas que hoje podem atingir 35% sobre veículos produzidos na UE, facilitando a entrada no mercado sul-americano, estimado em aproximadamente três milhões de veículos por ano. A Comissão Europeia antecipa que as exportações europeias para o Mercosul possam crescer de forma expressiva. Para mais informação, veja os detalhes:
Tal como no acordo com a Índia, neste episódio do Auto Rádio analisamos de que forma os construtores europeus poderão tirar partido deste entendimento entre a Europa e o Mercosul.
Encontro marcado no Auto Rádio para a próxima semana
Razões de interesse não faltam para ver/ouvir o episódio mais recente do Auto Rádio, que regressa na próxima semana às plataformas habituais: YouTube, Apple Podcasts e Spotify.
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