A reciclagem de baterias é, neste momento, um segmento ainda relativamente especializado, mas tende a transformar-se num dos grandes negócios da transição energética. De acordo com um estudo da consultora McKinsey & Co, o setor poderá alcançar receitas anuais globais de 70 mil milhões de dólares (59,4 mil milhões de euros) até 2040 - um salto muito expressivo face ao ano passado, quando o mercado não ultrapassou 2,5 mil milhões de dólares (2,12 mil milhões de euros).
A consultora antecipa que a aceleração mais marcada aconteça a partir de 2030, quando muitos dos veículos elétricos lançados no início desta década começarem a chegar ao fim do seu ciclo de vida e forem retirados de circulação, alimentando um fluxo crescente de baterias usadas.
Ao mesmo tempo, a padronização e a escala da reciclagem de baterias tornaram-se uma prioridade regulatória na Europa, com o objetivo de reduzir a dependência de fornecedores externos - em particular da China - para matérias-primas essenciais como lítio, cobalto e cobre. Este reforço da reciclagem pode também ajudar a moderar a pressão sobre os preços destes materiais, numa fase em que a procura tende a aumentar com a disseminação dos automóveis elétricos.
Um tema cada vez mais relevante é o da logística e segurança: recolha, armazenamento e transporte de baterias em fim de vida exigem procedimentos rigorosos, dado o risco de danos, curto-circuitos e incidentes térmicos. A criação de redes de recolha eficientes e a formação especializada ao longo da cadeia (oficinas, centros de abate e operadores de resíduos) serão determinantes para garantir escala com segurança.
Regulamentos cada vez mais rigorosos para a reciclagem de baterias
O Regulamento de Baterias da União Europeia aprovou, a 4 de julho de 2025, novas regras para medir e verificar a eficiência da reciclagem e a recuperação de materiais provenientes de baterias usadas.
Segundo o Anexo XII do regulamento, os operadores de reciclagem passam a ter de cumprir, até ao final de 2025, metas mínimas de eficiência de reciclagem:
- 75% para baterias de chumbo-ácido
- 65% para baterias de lítio
- 80% para baterias de níquel-cádmio
- 50% para outros tipos de baterias
Estas exigências sobem em 2030, com objetivos reforçados para: - 80% nas baterias de chumbo-ácido - 70% nas baterias de lítio
Em paralelo, as metas de recuperação de materiais estabelecem:
- 90% de recuperação para cobalto, cobre, chumbo e níquel
- 50% para o lítio
até 2027, passando depois para:
- 95% (cobalto, cobre, chumbo e níquel)
- 80% (lítio)
até 2031.
Por sua vez, a Lei das Matérias‑Primas Críticas (CRMA), aprovada em 2024, define que 25% das matérias-primas estratégicas - lítio, cobalto, níquel e manganês - devem ser obtidas a partir de resíduos gerados internamente na União Europeia até 2030.
Também fora da Europa a regulação avança: na China, o maior mercado automóvel do mundo, a reciclagem de baterias já é obrigatória e inclui rastreabilidade digital ao longo do processo.
Uma evolução associada a estas regras é o reforço da transparência e da rastreabilidade, com mecanismos como registos digitais e documentação mais rigorosa sobre origem, composição e destino dos materiais. Isto tende a facilitar auditorias, reduzir perdas na cadeia e aumentar a confiança dos fabricantes na incorporação de matérias-primas recicladas.
Construtores europeus aceleram iniciativas de reciclagem de baterias e veículos elétricos
Vários construtores automóveis já estão a avançar com modelos de negócio e parcerias focados na gestão de veículos em fim de vida útil e, em particular, na reciclagem de baterias. Um exemplo é o acordo entre a BMW e a PreZero (empresa dedicada à gestão e tratamento de resíduos), com o intuito de desenvolver soluções específicas nesta área.
No início deste ano, a Volkswagen colocou em funcionamento um centro dedicado à desmontagem e reciclagem de veículos elétricos na fábrica de Zwickau, na Alemanha, com a ambição de chegar a uma capacidade de 15 000 veículos por ano até 2030.
Em 2024, a Mercedes-Benz inaugurou uma unidade de reciclagem de baterias em Kuppenheim, também na Alemanha, anunciando a recuperação de mais de 96% dos materiais - incluindo lítio, cobalto, níquel e manganês.
A Renault aposta igualmente no tema através da sua unidade Refactory, orientada para dar uma “segunda vida” a baterias que já não oferecem desempenho suficiente para utilização em automóveis elétricos, ao mesmo tempo que permite recuperar e reciclar metais valiosos.
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