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Nenhum país tentou o que a China faz: usar uma nova central nuclear para produzir calor em larga escala para a indústria.

Engenheiro em colete e capacete amarelo apontando para central industrial com torres de arrefecimento e tubagens.

No litoral oriental da China, entre zonas industriais e linhas de produção, um estaleiro de construção prepara-se para receber um tipo de usina (central) nuclear sem equivalente noutro ponto do mundo.

Enquanto em vários países a expansão nuclear continua presa a debates políticos e calendários incertos, Pequim já está a lançar betão em Xuwei: um complexo concebido, desde a prancheta, para fornecer calor em volumes gigantescos à indústria pesada - e apenas depois complementar o fornecimento de electricidade à rede.

Um projecto nuclear que troca as prioridades habituais

Em grande parte das centrais nucleares existentes, o objectivo principal é claro: produzir electricidade para o sistema de transporte e distribuição. O calor libertado pelo reactor é, na prática, um “subproduto” que serve sobretudo para accionar turbinas e que acaba por se dissipar em larga medida.

Em Xuwei, na província de Jiangsu, a ordem é inversa. A instalação é desenhada como uma fábrica de vapor industrial para um corredor de complexos petroquímicos e químicos nas imediações da cidade portuária de Lianyungang. A geração eléctrica está integrada no conceito, mas não é o único eixo do projecto.

Xuwei é pensada como um nó energético híbrido: um núcleo nuclear ligado directamente às fábricas, com a electricidade como segunda coluna do modelo.

A iniciativa é liderada pela China National Nuclear Corporation (CNNC), que a apresenta como o primeiro sistema de demonstração, à escala comercial, a integrar num único esquema um reactor de terceira geração e outro de quarta geração para fornecer, de forma combinada, calor e electricidade.

Três reactores, um alvo: calor à escala industrial em Xuwei

O sítio de Xuwei agrupa três unidades nucleares no mesmo complexo:

  • dois reactores Hualong One, do tipo água pressurizada (PWR) de terceira geração, com cerca de 1.208 MW eléctricos cada
  • um reactor a gás de alta temperatura (HTGR) de 660 MW eléctricos, enquadrado como tecnologia de quarta geração

É precisamente esta combinação que torna o projecto singular. Existem PWRs a fornecer calor noutros contextos e há HTGRs em operação ou em testes (incluindo na China e no Japão). O que não existia era uma arquitectura planeada de raiz para acoplar estes dois tipos de reactor, com prioridade explícita na entrega contínua e massiva de vapor industrial.

Como a usina aproveita e “refina” a sua própria energia térmica

O aproveitamento do calor segue uma cadeia desenhada em duas etapas. Num primeiro momento, água desmineralizada recebe energia térmica do vapor primário gerado pelos dois Hualong One. A partir daí obtém-se vapor saturado com temperatura adequada para uma ampla gama de utilizações.

De seguida, esse vapor entra num segundo patamar de aquecimento, agora alimentado pelo HTGR, que trabalha a temperaturas significativamente superiores. O resultado é um vapor com características (temperatura e pressão) ajustadas a processos industriais mais exigentes, incluindo fases específicas da cadeia petroquímica.

A central funciona como uma “refinaria de calor”: capta energia dos reactores, trata-a em dois estágios e entrega vapor calibrado para consumo industrial permanente.

Apesar de canalizar uma fatia substancial do calor para a indústria, o complexo preserva uma capacidade relevante de produção eléctrica, destinada tanto à rede como às necessidades locais.

Além disso, para a indústria, não conta apenas a energia total: conta a regularidade. Ao contrário de muitas fontes intermitentes, uma central nuclear com desenho orientado ao vapor industrial permite contratos de fornecimento estáveis, reduzindo a dependência de caldeiras fósseis usadas para assegurar produção contínua em períodos de pico.

Uma usina desenhada para as fábricas - e não apenas para a rede eléctrica

Quando entrar em funcionamento, Xuwei deverá gerar cerca de 32,5 milhões de toneladas de vapor industrial por ano. Este volume destina-se a complexos petroquímicos, químicos e outros grupos industriais que compõem um dos maiores polos produtivos da costa oriental chinesa.

No capítulo eléctrico, a previsão oficial aponta para mais de 11,5 mil milhões de quilowatt-hora (kWh) por ano. Trata-se de energia suficiente para abastecer milhões de casas, mas o traço distintivo é a resposta “porta a porta” à procura térmica de parques industriais concentrados nas proximidades do sítio nuclear.

Efeito directo nas emissões e na dependência do carvão

As autoridades chinesas têm divulgado estimativas concretas sobre o impacto ambiental do projecto. Os números oficiais indicam que, anualmente, a central deverá:

  • evitar o consumo de cerca de 7,26 milhões de toneladas de carvão padrão
  • impedir a emissão de aproximadamente 19,6 milhões de toneladas de dióxido de carbono (CO₂)

Na prática, o que está em causa é substituir caldeiras a carvão que actualmente fornecem vapor às indústrias locais, trocando uma fonte fóssil de elevada intensidade carbónica por um centro nuclear com elevada disponibilidade.

Um ponto adicional - muitas vezes subestimado - é a logística do vapor: para que o calor nuclear chegue às fábricas com perdas controladas, são necessárias redes de tubagens, válvulas, isolamento térmico e redundâncias comparáveis às de uma grande utilidade industrial. A proximidade entre a central e os consumidores finais é, por isso, determinante para a viabilidade económica do modelo.

Quem constrói e quem opera Xuwei

O contrato de construção foi adjudicado em 2025 a um consórcio constituído pela China Energy Engineering Jiangsu Electric Power Construction No.3 e pela China National Nuclear Huachen Construction Engineering Company. O pacote, avaliado em 560 milhões de euros, inclui:

  • as chamadas “ilhas convencionais” dos três reactores
  • estruturas auxiliares e infra-estruturas de apoio
  • parte dos equipamentos fora do núcleo nuclear propriamente dito

A empresa proprietária e operadora será a CNNC Suneng Nuclear Power Company, uma subsidiária da CNNC criada para investir, construir e gerir o complexo ao longo de décadas.

Parte de um programa nuclear muito mais abrangente

Xuwei não é um projecto isolado. O complexo integra um conjunto de 11 novos reactores aprovados pelo Conselho de Estado chinês em Agosto de 2024. A localização também foi escolhida com intenção: o sítio fica perto da já estabelecida central de Tianwan, igualmente associada à CNNC.

Essa proximidade permite partilhar mão-de-obra especializada, logística, acesso portuário e cadeias de fornecimento. Em vez de apostar apenas em pilotos pequenos e afastados, a estratégia tem privilegiado a industrialização rápida de conceitos avançados em regiões já densamente industrializadas.

Como Xuwei se posiciona face a outras usinas que fornecem calor

Apesar de inovador na configuração, Xuwei não é o primeiro exemplo de uso nuclear para fornecimento de calor. Existem casos consolidados de aquecimento urbano, como em Haiyang (China) e Bilibino (Rússia). No campo experimental, reactores de alta temperatura como o japonês HTTR ilustram o potencial do conceito em testes controlados.

A tabela seguinte resume projectos frequentemente referidos por especialistas do sector:

Sítio / projecto País Tipo de reactor Electricidade Calor industrial Vários reactores acoplados Situação
Xuwei China 2 × PWR 3.ª geração + 1 × HTGR 4.ª geração Sim Sim, em grande escala Sim Em construção
Shidaowan (HTR-PM) China HTGR Sim Potencial Não Em operação
Haiyang China PWR Sim Sim, aquecimento urbano Não Em operação
Bilibino Rússia Reactores antigos de grafite Sim Sim, calor local Não Fim de vida útil
Linglong One China SMR PWR Sim Sim, urbano e industrial Não Em construção
HTTR Japão HTGR experimental Não Sim, testes Não Investigação
Projectos de calor nuclear Europa PWR, SMR, HTGR Sim Estudos Não Em planeamento

O que torna Xuwei diferente não é apenas produzir calor: é ter sido desenhada, desde o primeiro traço, para combinar tecnologias de gerações distintas em função de um mercado industrial real e imediato.

O que significa, na prática, usar “calor nuclear”

A expressão pode soar intimidante, mas refere-se essencialmente a utilizar a energia térmica produzida no reactor para fins industriais, sem que a água do processo industrial entre em contacto com materiais radioactivos.

No terreno, as indústrias ligadas ao sistema recebem vapor com pressão e temperatura ajustadas a tarefas como:

  • destilação em refinarias e unidades petroquímicas
  • produção de fertilizantes e químicos de base
  • secagem e aquecimento em indústrias de materiais
  • possível utilização futura na produção de hidrogénio de baixa emissão, caso haja adaptação tecnológica

A segurança depende do desenho dos circuitos: o circuito primário, que está em contacto com o núcleo do reactor, mantém-se isolado; o vapor entregue às fábricas é gerado em circuitos secundários ou terciários, concebidos precisamente para eliminar o risco de contaminação.

Riscos, benefícios e o que pode vir a seguir

Projectos como Xuwei carregam desafios típicos de qualquer programa nuclear: exigem controlos de segurança robustos, gestão rigorosa de resíduos e comunicação transparente com as comunidades vizinhas. Se houver falhas de supervisão ou mensagens contraditórias, a desconfiança pode persistir mesmo quando a tecnologia é sólida.

Em contrapartida, os ganhos potenciais são significativos. Ao substituir caldeiras a carvão e a gás por calor nuclear, zonas industriais conseguem reduzir emissões sem travar a produção. E a integração de reactores de diferentes gerações pode abrir caminho a usos futuros, como produção em larga escala de hidrogénio ou apoio a processos metalúrgicos com maior exigência térmica.

Um desfecho plausível é a replicação do modelo noutros clusters industriais asiáticos, caso Xuwei cumpra os objectivos anunciados. Na Europa, onde se discute o papel de SMRs para alimentar parques industriais, estes desenvolvimentos estão a ser acompanhados de perto para perceber até que ponto o calor nuclear pode tornar-se uma ferramenta central de descarbonização da indústria pesada - e não apenas mais uma forma de produzir electricidade.

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