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No Pacífico, satélites registam ondas gigantes de até 35 metros de altura.

Mulher com tablet observa ondas do mar enquanto satélite sobrevoa o oceano ao amanhecer.

Longe de qualquer linha de costa, uma tempestade isolada agita o Pacífico Norte.

À superfície, para quem olha de terra, quase nada denuncia o que se está a formar. Mas o oceano está a preparar outra história.

Enquanto navios atravessam a região sem perceberem o risco a muitos quilómetros, satélites em órbita registam um fenómeno notável: ondulações gigantes a cruzarem o planeta, transportando energia suficiente para remodelar praias, perturbar portos e até ditar o calendário de provas de surf do outro lado do mundo.

Como uma tempestade “fora do mapa” consegue influenciar oceanos inteiros

No final de 2024, a tempestade Eddie desenvolveu-se no Pacífico Norte, longe de grandes áreas urbanas costeiras. Para a maioria, parecia apenas mais um sistema de vento e precipitação entre tantos que atravessam o oceano todos os anos.

Os registos, no entanto, mostram um episódio fora do comum. Foram observadas ondas médias acima de 19 metros, com picos a rondar os 35 metros - uma altura comparável a um edifício de dez andares. E estas muralhas de água não ficaram confinadas ao local onde nasceram: seguiram viagem.

Conduzidas pela rotação da Terra e pela geometria das bacias oceânicas, as ondulações geradas por Eddie percorreram quase 24 000 quilómetros. Atravessaram a temida passagem de Drake, entre o extremo sul da América do Sul e a Antártida, e acabaram por alcançar o Atlântico tropical no início de 2025.

Antes disso, já tinham marcado presença no Pacífico central e na costa oeste dos Estados Unidos. No Havai e na Califórnia, o mar ganhou uma dimensão rara, criando condições para competições emblemáticas de surf, como o Eddie Aikau Invitational, que só se realiza quando a ondulação atinge níveis extremos.

Uma tempestade em mar aberto, praticamente invisível para quem vive em terra firme, foi capaz de mexer com praias, infra-estruturas portuárias, surfistas e cientistas, em três oceanos distintos.

Tempestade Eddie e satélite SWOT: o que foi possível medir nas ondas de 35 metros

Durante muitos anos, o comportamento de ondas gigantes foi sobretudo inferido com base em modelos numéricos. Na prática, os cientistas alimentavam computadores com informação atmosférica e oceânica e recebiam estimativas sobre altura, período e direcção do swell. Medições directas em mar aberto, particularmente durante eventos extremos, eram muito menos frequentes.

Esta limitação começou a alterar-se com a missão SWOT (Topografia da Água Superficial e do Oceano), desenvolvida numa colaboração entre a NASA e o CNES. O satélite foi concebido para mapear a superfície da água com elevada precisão, tanto em rios e lagos como nos oceanos.

No caso das ondas associadas à tempestade Eddie, os instrumentos do SWOT conseguiram quantificar a altura e o comprimento de ondas com mais de 500 metros entre cristas, já a milhares de quilómetros do local de origem. Mais do que captar um máximo isolado, a missão permitiu descrever o “desenho” completo do campo de ondas, incluindo as componentes de período mais longo.

Um aspecto complementar - e cada vez mais relevante - é a forma como estes dados por satélite podem ser cruzados com medições de bóias oceanográficas e marégrafos costeiros. A combinação de observações no oceano profundo com registos junto à costa ajuda a perceber o que se transforma pelo caminho: que parte da energia se mantém, que parte se redistribui e como é que uma ondulação remota se converte, dias depois, em agitação marítima relevante junto a praias e portos.

Energia acumulada em poucas ondas dominantes

A análise de dados recolhidos em Dezembro de 2024 trouxe um recado desconfortável para algumas formulações mais antigas. As ondas de período muito longo - aquelas em que o intervalo entre cristas pode chegar aos 30 segundos - parecem transportar, em média, menos energia total do que se supunha.

Durante anos, determinadas estimativas empíricas chegaram a sobrestimar até vinte vezes a energia espalhada por esse conjunto de ondas longas. O que as medições do SWOT apontam é diferente: a energia não desaparece, mas tende a ficar concentrada num pequeno número de ondas dominantes, raras e muito potentes.

Em vez de um mar repleto de “golpes” fortes, o padrão sugere um grupo reduzido de “impactos” verdadeiramente devastadores, rodeado por ondulação bem mais contida.

Este enquadramento levou investigadores a defender uma nova forma de representar o espectro de ondas em situações extremas, incorporando interacções não lineares entre ondas curtas e longas. Ou seja: as ondulações não se limitam a somar-se de forma simples; podem trocar energia, reforçar-se ou enfraquecer-se de modo complexo, e em certos momentos produzir esses gigantes relativamente isolados.

Do Pacífico ao porto da sua cidade: por que razão isto altera o risco costeiro

O caso da tempestade Eddie não é apenas uma curiosidade estatística. As ondas que gerou entram directamente na conversa sobre riscos em cidades costeiras, portos e infra-estruturas no mar.

As chamadas ondas de swell de período elevado conseguem atravessar oceanos com pouca perda de energia. Quando encontram uma costa com fundos propícios, podem:

  • intensificar a erosão costeira, removendo grandes volumes de areia;
  • provocar ressacas capazes de danificar pontões, molhes e marinas;
  • originar inundações costeiras em dias de aparente “bom tempo”, sem chuva nem vento forte local;
  • afectar operações de carga e descarga em portos, aumentando o risco para navios atracados;
  • comprometer estruturas de energia em ambiente marítimo, como plataformas e parques eólicos no mar.

Num contexto de alterações climáticas, a sensibilidade aumenta. A coincidência entre episódios extremos de ondas e a subida do nível médio do mar torna mais provável a intrusão de água salgada em zonas habitadas, estradas costeiras e áreas industriais.

Para o mercado português, esta discussão não é abstracta: grande parte da população e de infra-estruturas críticas concentra-se junto ao Atlântico. Mesmo quando a tempestade ocorre longe, ondulações de longo período podem chegar dias depois e tornar-se relevantes em barras, embocaduras e frentes urbanas expostas - o que reforça a importância de planos de contingência portuária e de uma cultura de risco adaptada à variabilidade do mar.

Tempestades mais fortes significam mares mais energéticos?

A hipótese de o aquecimento global favorecer tempestades mais intensas em algumas regiões continua sob avaliação, e as conclusões mantêm-se prudentes. Existem indícios de tendências regionais, mas factores locais - como a topografia do fundo, as correntes e os ventos à superfície - continuam a pesar muito no resultado final.

A diferença prática é que, com missões como o SWOT, estes estudos passam a apoiar-se em observações do comportamento real das ondas, e não apenas em projecções teóricas.

Factor analisado Impacto nas ondas Relevância costeira
Intensidade da tempestade Produz ondas mais altas e períodos mais longos Aumenta o risco de ressacas e de danos em portos
Topografia do fundo Faz as ondas rebentarem mais cedo ou ganharem altura Define quais os troços de costa mais sujeitos a erosão
Nível médio do mar Permite que as ondas avancem mais para o interior Alarga as zonas vulneráveis a inundação marinha

Uma nova geração de alertas e de projectos costeiros

Com a melhoria das observações a partir do espaço, entidades públicas e empresas passam a dispor de uma base mais sólida para planear. A informação extraída da tempestade Eddie - e de episódios anteriores, como a conhecida tempestade Hercules de 2014 - alimenta modelos com aplicação directa em:

  • actualização de normas de projecto para portos e quebra-mares;
  • definição de faixas de recuo em zonas com erosão crónica;
  • dimensionamento de estruturas marítimas para resistirem a ondas extremas;
  • interpretação de sinais sísmicos gerados pelo impacto de ondas em taludes e margens continentais.

À medida que se acumulam observações, a meta é construir mapas mais fiáveis do risco associado a ondas extremas, não apenas nas regiões clássicas de formação de tempestades, mas também em áreas consideradas “secundárias” que recebem swell remoto dias mais tarde.

As ondas gigantes vistas por satélite funcionam como mensageiras: trazem sinais sobre mudanças na atmosfera, vulnerabilidades costeiras e limitações de modelos mais antigos.

Termos essenciais para perceber o fenómeno

Quem acompanha este tipo de investigação acaba por se cruzar com um pequeno conjunto de conceitos que ajuda a explicar por que razão uma tempestade distante pode ter efeitos tão concretos.

Swell: ondulação gerada por uma tempestade longe do local de observação, capaz de viajar grandes distâncias. Não depende do vento local, pelo que um dia de céu limpo pode, ainda assim, trazer ondas grandes à costa.

Período da onda: tempo entre a passagem de duas cristas consecutivas num mesmo ponto. Períodos longos (entre 20 e 30 segundos) costumam indicar ondas que viajaram muito e transportam energia de forma concentrada.

Espectro de ondas: forma de descrever como a energia se distribui por diferentes tamanhos e períodos de ondas. No caso das ondas extremas observadas pelo SWOT, esse espectro deve incorporar interacções não lineares, em que ondas de escalas diferentes trocam energia.

Riscos, oportunidades e cenários que já estão a chegar

Para quem vive junto ao mar, esta leitura mais detalhada das ondas cria urgências concretas. Uma ressaca associada a swell de longo período pode atingir locais antes tidos como relativamente seguros, sobretudo onde existe construção demasiado próxima da linha de água.

Ao mesmo tempo, há sectores que podem beneficiar. A energia renovável marítima e o surf ganham quando conseguem antecipar trajectórias e intensidade de grandes ondulações: isso facilita janelas de operação, manutenção e realização de eventos com melhores margens de segurança.

Modelos numéricos alimentados com dados reais de satélite já permitem testar perguntas práticas, como: que tipo de onda uma tempestade semelhante à Eddie poderia gerar num Pacífico ainda mais quente? Que portos precisariam de reforço? Que troços costeiros tenderiam a perder mais areia após uma sequência de swells longos?

Quanto mais respostas surgem, mais evidente se torna que ondas de 35 metros no meio do Pacífico não são apenas um recorde distante. São um ensaio geral para episódios futuros que podem chegar - com impacto bem real - à faixa costeira onde ainda é fácil acreditar que “está tudo calmo”.

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