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Amore: Zidrou e Merveille celebram o amor em Itália

Casal sentado numa esplanada a olhar um álbum de fotografias num dia ensolarado numa praça animada.

"Amore": histórias curtas que chamam o leitor a amar

"Amore" junta vários contos breves em que Zidrou e Merveille convocam o amor - e, ao mesmo tempo, fazem um convite directo ao leitor para amar.

A certa altura, depois de terminada a primeira de várias narrativas, fica a ressoar uma pergunta que um empregado de café lança ao homem que, todas as tardes, se senta no estabelecimento para escrever: "Porque escrever vários romances, com centenas de páginas cada um, quando já sabe o nome do assassino desde o início?". A frase ganha ainda mais peso quando percebemos que este volume, publicado numa co-edição recente Arte de Autor/A Seita, se constrói precisamente a partir de pequenas histórias, cada uma com o seu impacto.

Zidrou e Merveille percorrem a Itália e multiplicam as formas de amor

Da primeira pergunta nasce outra, inevitável: "Porquê escrever sobre o amor, se já tanto se disse sobre ele?". Ainda assim, é exactamente esse o caminho que Zidrou e Merveille escolhem, atravessando uma Itália interior e nostálgica até ao litoral mediterrânico e viajando do coração mais profundo da península para lugares tão turísticos e mediáticos como Veneza.

Ao longo destes relatos curtos - directos, certeiros e incisivos, mas também cheios de matéria para sonhar - surgem as muitas maneiras de amar: um amor capaz de ser luminoso e de encher o coração, ou, pelo contrário, marcado pelo desencanto; um sentimento que pode durar um instante, ser passageiro e pacífico, ou explodir de forma arrebatadora; um fulgor breve mas intenso, ou algo que atravessa vidas inteiras. Há amor feito de ternura imensa e há amor eufórico; há amor correspondido, há amor platónico e há o que existe apenas na mente de quem o sente e o imagina. No fim, pode ficar um sorriso - ou uma pergunta - nos lábios; pode devolver-nos a fé no ser humano e empurrar-nos para o sonho de um amor ideal, seja ele o que for, e seja ele o que for para cada um de nós.

Escrita segura e um desenho “maravilha” com cores mediterrânicas

Nessas variações cabem muitas categorias: o amor tradicional, o amor carnal, o amor sexual, o amor subliminal, o amor à distância, o amor sacrificial, o amor enquanto o padre prega, o amor que espera enquanto o par procura alguém com quem se vingar de uma traição...

Se a qualidade da escrita de Zidrou já não nos apanha desprevenidos a cada novo livro - e em Portugal já lhe foram publicados vários -, o traço de Merveille é, literalmente, uma maravilha (fica feito o trocadilho): uma linha clara, ligeiramente retro, apoiada em belas cores mediterrânicas, com um sombreado que sublinha os instantes mais recatados e uma iluminação intensa que expõe os sentimentos à vista de todos.

Num conjunto assumidamente heterogéneo, onde convivem paixão e tragédia, violência e ternura, histórias de vidas e vidas dentro das histórias, "Amore" acaba por ser uma evocação delicada e serena de uma Itália profundamente nostálgica - um lugar em que o tempo ainda consegue parar, ou avançar apenas com preguiça -, lembrando também que, no amor como em tudo, temos sempre uma parte decisiva a cumprir: deixar-nos amar e saber amar os outros.

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