A chefe do Governo italiano e o presidente dos Estados Unidos trocaram gentilezas e acenos por causa da guerra e do Papa. Terá chegado ao fim a “história de amor” entre a primeira-ministra pós-fascista e o comandante da direita radical global? E, no meio disto, terá a versão estadista passado à frente da líder partidária?
Há quem sustente que a matriz ideológica de Giorgia Meloni nasce de um choque muito precoce. Tinha um ano quando a mãe, Anna, de direita, foi deixada pelo pai, Francesco, de esquerda, e a vida das três mudou para Garbatella, um bairro operário no sul de Roma - um bastião tradicional da esquerda e, para alguns, terreno fértil para o renascer de nostalgias fascistas. A ideia de uma vingança simbólica contra o progenitor que “condenou” Giorgia e a irmã, Arianna, a uma infância difícil com uma mãe solteira teria alimentado as convicções que levaram a jovem, nascida em 1977, a entrar em circuitos neofascistas. Ou então não: pode ser apenas uma boa narrativa para cinema.
Loira, de olhos verdes e com um porte confiante, Meloni, aos 15 anos, criada nos subúrbios operários de Roma, encontrou um caminho na Frente da Juventude do Movimento Social Italiano. Esse partido neofascista tinha sido criado por antigos elementos do regime de Benito Mussolini no mesmo ano em que arrancavam os trabalhos de redação da Constituição da República Italiana - 1946 - e acabaria por mudar de nome, em 1996, para Aliança Nacional. Foi no movimento estudantil desta formação que Giorgia se destacaria como dirigente, chegando mais tarde à presidência da Ação Jovem.
Em 2006, entrou na Câmara dos Deputados e manteve-se como vice-presidente até que, em 2008, ascendeu a ministra da Juventude no Governo de Silvio Berlusconi. Já em 2012, lançou o seu próprio partido, o Fratelli d'Italia (Irmãos de Itália), a força política que, em cerca de uma década, a conduziria à presidência do Governo, sustentada também por entendimentos com a extrema-direita de Matteo Salvini.
Ainda assim, Meloni sempre rejeitou o rótulo de fascista, apesar de ter afirmado que Mussolini "foi um bom político - tudo o que fez, fez pela Itália". "Agarrei o bastão de uma história de 70 anos", escreveria na autobiografia "I Am Giorgia", em 2021. No centro de tudo, portanto, esteve sempre a ideologia.
Alinhamento internacional
E é precisamente essa bússola ideológica que a primeira-ministra italiana tem apresentado como fio condutor da política externa. A proximidade a Donald Trump foi notória mesmo quando o republicano estava no intervalo entre presidências; ao mesmo tempo, Meloni promoveu Viktor Orbán, o dirigente iliberal húngaro, como modelo, alinhou-se com a família Le Pen (numa animosidade anti-França associada a um “sucesso” que já nem existe) e cultivou relações com o Vox de Santiago Abascal, em Espanha. Há, porém, nuances: Meloni não se posiciona como anti-europeia, possivelmente porque percebeu que é por dentro que se mudam as regras que incomodam o seu campo político - em particular as políticas ambientais e de imigração.
Sendo a única dirigente europeia convidada para a tomada de posse de Trump, em janeiro de 2025, Meloni evitou sistematicamente críticas à sua atuação. Endossou as declarações deselegantes de JD Vance sobre a Europa em Munique, ficou em silêncio perante a sessão de bullying ao presidente ucraniano na Casa Branca, e voltou a calar-se quanto ao tema da anexação da Gronelândia. Aceitou integrar, como observadora, o "Conselho da Paz" de Trump para Gaza, aplaudiu o mal explicado sequestro do ex-presidente venezuelano Nicolás Maduro e manteve-se novamente em silêncio quando os EUA e Israel investiram contra o Irão.
Também é a economia, estúpido
No plano interno, Giorgia Meloni sempre garantiu que, com ela, a Itália deixaria de ser refém dos mercados - e de “pagar” à Europa por falhar objetivos. Um dos resultados que pode apresentar é a redução do défice: desde que chegou ao poder em Roma, caiu de 8,1% do PIB para 3,4%, embora a revisão dos dados de 2025 aponte para 3,1%. O custo foi uma austeridade que penalizou os italianos e que, mesmo assim, deixa o país no limite acima dos 3% exigidos por Bruxelas. Não chega, tal como não chega o desempenho do crescimento económico: foi de 0,9% em 2023 e foi baixando até se fixar, em 2025, nos 0,5% - quando a média europeia é de 1,5%.
Sobre esta matéria, Veronica De Romanis, professora de Economia na Universidade Luiss Guido Carli, explica ao "Le Monde" que a palavra-chave é "estabilidade", já que uma melhoria expressiva parece inalcançável num país envelhecido, com baixa produtividade e salários médios abaixo dos europeus. "Insuficiente", remata a analista. E nem a deferência em relação à administração Trump trouxe a blindagem esperada contra as tarifas alfandegárias impostas pelos Estados Unidos aos europeus.
O referendo tornado pessoal
Foi neste contexto - economia sem dinâmica e crescente desaprovação popular perante a sua paixão americana - que Meloni acordou no dia do referendo em que investira todo o capital político. A consulta incidia sobre uma reforma da Justiça que a coligação governamental (os neofascistas Irmãos de Itália de Meloni, a Liga de extrema-direita de Matteo Salvini, a Força Itália do falecido Silvio Berlusconi, de direita, e outras pequenas formações) apresentava como necessária para “arrumar” uma magistratura acusada de estar politizada à esquerda e de travar políticas caras à primeira-ministra, como o combate à imigração. Meloni não esqueceu a derrota nos tribunais relativamente ao centro de detenção de imigrantes que Roma montou na Albânia e apontou baterias aos "juízes vermelhos", como gosta de lhes chamar, contrapondo-lhes um discurso securitário e uma narrativa de exaltação das forças da ordem.
A reforma pretendia separar as carreiras de juízes e procuradores, instituir um tribunal superior para disciplinar o sistema judicial, mexer no modelo de autogestão da Justiça e alterar o modo de eleição de juízes. A oposição, pelo contrário, leu nela uma ameaça à separação de poderes e ao espírito da Constituição concebida precisamente para travar o fascismo. E a polarização que Meloni escolheu alimentar - chegou a afirmar que a rejeição da reforma iria lançar para a rua pedófilos e violadores - produziu efeitos. Além de recusarem a mudança, os italianos rejeitaram (o não venceu com 54%) um estilo de governação, um quadro económico que não favorece os cidadãos e a subserviência perante os Estados Unidos (80% dos italianos têm uma opinião desfavorável de Trump, segundo sondagens da plataforma YouGov.com). E rejeitaram também o ataque à "melhor Constituição do Mundo" (um texto que recusa liminarmente a guerra) - e, por inerência, à democracia.
Trump e Orbán
A conhecida aversão de Meloni a contra-poderes - magistrados e jornalistas - acabou por pesar numa derrota ocorrida a um ano das legislativas, e terá feito disparar alarmes. Se o início da guerra no Irão foi marcado pelo silêncio, a posição oficial evoluiu para a recusa de apoiar a intervenção dos EUA e de Israel no Médio Oriente. No dia 30 de março, o ministro da Defesa, Guido Crosetto, fechou a base siciliana de Sigonella a aviões militares norte-americanos que se preparavam para a usar sem autorização, violando o acordo de cooperação bilateral. A Itália recusou ainda participar numa força conjunta para libertar o estreito de Ormuz. Soma-se a isto o impacto de uma guerra que desencadeou uma crise dos combustíveis fósseis, afetando os italianos como os restantes europeus e colocando em dificuldades a estratégia de ataque aos "extremismos ideológicos europeus" no campo ambiental.
A queda de Viktor Orbán na Hungria, no dia 12 de abril, foi mais um choque para Meloni, que via no líder iliberal um aliado natural, sobretudo em matéria de imigração - embora se afastasse da sua posição pró-russa na questão da Ucrânia. Meloni ambicionava, com Orbán, desempenhar para a Europa o mesmo papel que procurou junto de Washington: o de ponte que Bruxelas valorizasse. A derrota de Orbán significou também perder uma ponta-de-lança europeia para Trump e para Israel, cuja ofensiva no Líbano, em Gaza e na Cisjordânia, através de colonos, é amplamente contestada. Por europeus, por italianos e pelo chefe da Igreja Católica.
E o Papa americano
E assim se chega ao dia 13 de abril. O presidente norte-americano escolhe um novo alvo: o americano Robert Francis Prevost, Papa Leão XIV, que se posicionou contra a guerra no Médio Oriente. Trump acusou o pontífice de ser "fraco em relação ao crime e terrível para a política externa". "Não quero um papa que pense que é aceitável que o Irão tenha uma arma nuclear", escreveu na sua rede Truth Social. "Inaceitável", respondeu Meloni, chefe do Governo do país que acolhe a sede da Igreja Católica e ciente de que parte importante do clero se revê na oposição e assume a defesa dos migrantes. Aliás, o Papa agendou para 4 de julho, dia da independência dos EUA que assinala em 2026 os seus 250 anos, uma visita à ilha de Lampedusa - símbolo maior do drama das migrações.
Trump contra-ataca: "Ela é que é inaceitável, porque não se importa se o Irão tem uma arma nuclear e explodiria a Itália em dois minutos se tivesse a oportunidade. Estou chocado com ela. Pensava que ela tinha coragem, estava enganado". A partir daí, o ambiente azedou. E, depois do encolher de ombros italiano perante a ideia inesperada de substituir o Irão pela Itália no mundial de futebol, Trump ameaçou retirar as tropas norte-americanas estacionadas no país.
"Giorgia Meloni sacrificou o interesse nacional de Itália por uma visão ideológica: a ideia de que partilhar uma retórica com a administração Trump poderia gerar uma relação privilegiada", analisa Leo Goretti, do think tank Istituto Affari Internazionali (IAI), citado pelo Le Monde. O facto é que, nesse mesmo dia, a italiana opta por não renovar o acordo de Defesa que a Itália mantinha com Israel. E, no dia 17, desloca-se a Paris para discutir Ormuz e abraçar o presidente Macron, "besta negra" da direita radical italiana, como recorda no The Guardian Riccardo Alcaro, investigador no IAI.
Mudou Meloni? Ou, usando a imagem de Alcaro, a Meloni estadista passou a perna à Meloni líder partidária? O equilíbrio entre as duas, esse, parece ter-se desfeito.
Comentários
Ainda não há comentários. Seja o primeiro!
Deixar um comentário