A Skoola tem vindo a alimentar a ambição de jovens que querem construir um percurso na música, numa fase que o rapper Valete descreve como “muito difícil” para quem está a começar. O projeto, dirigido à Área Metropolitana de Lisboa, reúne dezenas de participantes e aposta no trabalho coletivo como forma de abrir caminho a novas vozes.
Skoola e o desafio de começar na música
"Este é o tempo mais difícil de sempre, a internet está congestionada, as editoras apostam cada vez menos em artistas emergentes, mas os miúdos continuam a querer muito ser músicos", afirma Valete à Lusa, a meio de uma sessão de mentoria na sede da associação Skoola. A estrutura está em atividade há cinco anos e, há cerca de um ano, funciona na escola Manuel da Maia, em Lisboa.
No universo de aproximadamente 40 jovens envolvidos - conhecidos como “skoolers” - o rapper diz ter encontrado “músicos excelentes” e um nível de dedicação assinalável. Para Valete, o essencial é levá-los a exteriorizar o que trazem dentro, tanto no plano das letras como no da música.
A poucas semanas de se apresentarem perante o público, com um espetáculo marcado para a Reitoria da Universidade Nova de Lisboa, o mentor tem estado focado em ajudá-los “a construir canções” e em aproximá-los do que é a escrita criativa. "Também estou a aprender muito", sublinha.
Valete, rap e inclusão entre os “skoolers”
Assumindo-se como “um rapper social”, Valete explica que procura envolver-se “neste tipo de projetos que têm este cunho social e que trabalham com jovens, alguns jovens que vêm de contextos até muito segregados, precários”.
Para o artista, o rap nasce “de um contexto de segregação, de pobreza”, mas é uma linguagem que “aceita e multiplica-se”. E acrescenta: "A cultura hip-hop é uma cultura de inclusão, creio que a única coisa que o hip-hop não aceita é um discurso de extrema-direita, de resto aceita tudo." Na sua perspetiva, uma das maiores qualidades atuais do rap é a versatilidade: "A coisa mais bonita que o rap tem hoje é que ele é polivalente, é multidisciplinar e é multidimensional, tens rappers de classe média alta, rappers de classe alta, rappers no Canadá, rappers na Indonésia, rappers no Congo, é uma coisa universal e toda a gente pode fazer e toda a gente tem feito".
Numa das sessões, Valete trabalha uma letra com Kelsen, de 17 anos, que chegou de Angola há dois anos e vive em Portugal com a família, frequentando a Manuel da Maia. Na sala, o rapper acompanha-o de perto, posicionando-se atrás do jovem enquanto o ajuda a acertar rimas e a encontrar a batida.
"Vou pôr [na música] a minha história de vida, o que eu vivi lá, com os meus amigos e as coisas que eu fazia", conta Kelsen. Em Luanda, no bairro Nova Vida, recorda que ia a festas, cantava em alguns concertos e também dançava.
Do trabalho do ano letivo ao palco a 23 de maio
Embora diga ter saudades de Angola, Kelsen reconhece que Portugal lhe trouxe “muitas oportunidades”. Entre elas está a participação na Skoola, que a 23 de maio vai apresentar ao público um espetáculo original na Reitoria da Universidade Nova de Lisboa. A criação cénica está a cargo de Pedro Coquenão, mais conhecido como Batida, e de Daniel Gorjão, e resulta do percurso desenvolvido ao longo do ano letivo por 40 “skoolers”, com o apoio de uma equipa alargada de mais de 25 artistas-facilitadores, onde se inclui Valete.
"Temos evoluído bastante a nível artístico. Este ano decidimos (...) desenvolver um processo criativo através de módulos, incorporando outras matérias além da música, ou seja, dança, vídeo, improvisação, "beatbox", muita percussão", explica Mariana Duarte Silva, fundadora e diretora da Skoola.
Com um equilíbrio de género, os “skoolers” formam “um grupo diverso”, composto por “jovens de contextos muito diferentes, (...) dos mais vulneráveis aos mais privilegiados”. Ainda assim, nota Mariana Duarte Silva, “todos fazem música em conjunto e todos fazem música nova”.
Entre os participantes está Margarida Coelho, de 24 anos, que já frequenta Jazz e Música Moderna na Universidade Lusíada, instituição que mantém uma parceria com a Skoola.
"Apesar de ter, se calhar, um conhecimento teórico um bocadinho superior, sinto que chego aqui e estou ao mesmo nível de toda a gente, é uma equipa", observa.
"A palavra que caracteriza mais a Skoola é a partilha, porque qualquer pessoa que aqui entra, seja aprendiz ou professor, orientador, toda a gente vai aprender e ensinar alguma coisa. Torna-se um ambiente muito confortável, onde toda a gente se sente valorizada. E, portanto, é muito especial nesse sentido", considera.
Margarida Coelho realça ainda que, no contexto da Skoola, não há um estudo centrado em instrumentos ou em teoria musical, mas sim em “noções musicais” que, no final, poderão “dar a todos os alunos (...) mais uma forma de comunicação, que é a expressão musical”. E, garante, isso “terá um impacto super positivo a nível social de todos estes jovens”.
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