Poucos dias após ter passado pelo Porto para levar "Bérénice" ao palco do Teatro Nacional São João, Isabelle Huppert regressa ao nosso país, agora por causa da estreia de um dos seus filmes mais recentes, "A Mulher Mais Rica do Mundo". Inspirado de forma livre num episódio ligado à herdeira do grupo L'Oréal, o filme centra-se numa multimilionária que começa a oferecer somas avultadas a um fotógrafo homossexual que a conquista - gesto que desencadeia uma batalha judicial com a filha. Na altura da apresentação mundial em Cannes, conversámos com a atriz.
O que descobriu sobre a verdadeira Liliane Bettencourt que desconhecia antes?
Limitei-me a ler o guião e, logo aí, senti que havia matéria interessante para interpretar. Não me preocupei com a realidade: para mim, a ficção supera a realidade. Quando inicio um filme, o meu objetivo é ter a maior liberdade possível. Além disso, tenho muito pouco em comum com aquela mulher. Acima de tudo, quis evitar parecer-me demasiado com ela - e, honestamente, nem sequer sei como ela era de facto. Nunca a conheci em vida..
Esta mulher luta contra a imagem que os media dão dela. Como figura pública, sente também necessidade de lutar contra uma certa imagem que as pessoas possam criar de si?
Não, na verdade não. Não considero que exista aí um ponto de contacto. Não vejo um paralelismo entre ser rica e ser famosa, e nunca me detive muito a pensar nisso. Mesmo sabendo o que a fama representa na minha vida, sou como toda a gente: tento fazer as coisas da melhor forma possível. No caso dela, uma das coisas que também me agrada é que não é mostrada como vítima. Não é a caricatura da pobre coitadinha que, de repente, se transforma. Não: ela é uma mulher com poder. E isso torna a história ainda mais interessante.
Há um momento no filme em que ela diz que, em França, as pessoas odeiam os ricos.
Talvez venha da Revolução Francesa, suponho; é o que observo. Mas não sei se corresponde à verdade. Não me parece que os odeiem mais do que noutros sítios. Ainda assim, penso que, sobretudo em Paris, existe, por um lado, um culto do luxo muito visível em certas zonas e, por outro, um tabu em torno do dinheiro. Para mim, isso é um paradoxo. Paris é bastante esquizofrénica nesse sentido, e ninguém fala disso.
As pessoas procuram-na constantemente para trabalhar consigo. Pensa que tem a ver também com a sua celebridade?
Sim, embora isso me surpreenda sempre um pouco. Para mim, significa apenas que me propõem papéis. Mas não acredito totalmente nessa ideia. É mais uma fantasia vista de fora. Acho que, na vida de qualquer atriz, estamos sempre à procura. Não acordamos todas as manhãs com uma pilha de obras-primas à espera, a pensar o que vamos escolher nesse dia. Não é assim que funciona.
A que presta atenção em primeiro ligar no momento de decidir se faz ou não um filme?
Talvez, antes de mais, aos diálogos. Acho que é o ponto essencial, porque é aí que tudo começa. Se os diálogos forem terríveis, como imaginar essa pessoa a falar? Neste caso, eram muito bons. E, além disso, já davam uma pista clara sobre o tom do filme. Há algo de teatral na situação, na exuberância. O tom já estava na escrita. E isso sugeria que não seria nem demasiado sentimental nem psicológico. Era outra coisa, mais interessante.
Alguma vez conheceu alguém que tenha tido um impacto semelhante ao que este homem tem na vida dela? Alguém que a tenha despertado de forma diferente?
Não, mas consigo perceber como alguém assim pode marcar uma vida. Ele é muito encantador, muito inteligente. E também é artista. De repente, transforma-se numa espécie de chave para a alegria. Aquilo que ela recebe dele, logo no primeiro encontro, é o riso. Aparentemente, ela não tem muitas oportunidades para rir, e nota-se que, com ele, ri bastante. Talvez isso também tenha a ver com a forma como ele capta a imagem dela de um modo mais fresco.
A Isabelle já deu corpo a mulheres tão diferentes. O que a atraiu mais nesta personagem?
O que mais me interessou foi o facto de nunca entrarmos verdadeiramente na psicologia dela. O filme conserva uma certa distância. Não sabemos ao certo o que ela pensa; compreendemos a situação, mas apenas deduzimos. Nunca quis interpretá-la de maneira demasiado realista ou emocional. Isso não me interessava. O que torna o filme interessante é, sobretudo, o estudo dos mecanismos - o que significa representar uma fortuna imensa.
No final, ela acaba por pagar um preço pela liberdade que sempre desejou?
Sim. No fim, vai ter de abdicar disso. Até então, nunca tinha pago preço nenhum, porque podia pagar tudo. E essa é, de certa forma, a vingança da filha. Em vez de ser amada, ela é obrigada a renunciar à relação. É esse o preço que paga.
A sua interpretação mostra muitos lados dela, ridícula, cruel, forte, quase infantil.
Eu não tinha uma visão global totalmente definida. E penso que isso também é interessante no filme,: não mostrar um destino, mas sim os mecanismos do que significa ser rica. Não é um melodrama, não é "A Dama das Camélias" nem "Madame Bovary". É diferente, e é isso que o torna moderno.
Já fez uma centena e meia de filmes. Ainda sonha com novas colaborações? Há realizadores com quem ainda quer trabalhar?
Esse número não é bem verdade. Mas sim, claro. Embora hoje me interesse mais por quem quer trabalhar comigo. Em teoria, adoraria trabalhar com muitos grandes realizadores, mas a questão é saber se eles querem trabalhar comigo.
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