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Guia prático para evitar quedas no gelo no inverno

Pessoa com casaco amarelo e botas de inverno caminha com paus de apoio sobre gelo e neve numa rua urbana.

Em todo o Reino Unido e no norte dos EUA, os hospitais registam um aumento acentuado de fracturas assim que os passeios ficam com aquele brilho de vidro. Grande parte destas quedas pode ser evitada com bom senso, equipamento adequado e uma forma de andar um pouco menos elegante. Seguem-se conselhos práticos e realistas para se manter de pé quando ruas, parques de estacionamento e degraus à porta de casa se tornam perigosos.

Calçado de inverno que agarra mesmo

Comece pelos pés. Botas “da moda” com sola lisa são, quase sempre, um bilhete para escorregar. O que precisa é de calçado pensado para morder o chão escorregadio.

  • Prefira sapatos ou botas com rasto profundo e solas de borracha.
  • Escolha modelos pelo tornozelo ou acima para mais suporte.
  • Fuja de saltos altos e de solas gastas.

Botas que envolvem bem o tornozelo ajudam a manter o pé estável quando, de repente, ele derrapa. Um escorregão pequeno passa a ser apenas um desequilíbrio, e não uma entorse ou um osso partido.

Para trajectos curtos, quando há gelo, algumas pessoas puxam meias grossas de algodão por cima dos sapatos. Fica estranho e as meias dificilmente duram um dia inteiro, mas esse atrito extra pode dar uma ajuda em passeios sem tratamento ou mesmo à saída de casa.

“Umas boas botas de inverno ficam mais baratas do que perder um mês de trabalho e andar com o braço engessado.”

Use neve fresca e evite gelo polido

Quando os passeios ficam brancos, nem toda a neve é igual. A neve acabada de cair, fofa, costuma oferecer mais aderência do que as zonas compactadas ou que voltaram a gelar e se transformam em gelo escondido.

Sempre que der, pise a neve intacta. A camada de cima ainda não foi comprimida até ficar dura e escorregadia. Aquele som de “crocante” debaixo do pé é um bom sinal de que o chão ainda tem textura.

Desconfie de neve brilhante ou acinzentada, sobretudo em passadeiras, caminhos junto a escolas e entradas de lojas. Milhares de passos e dois ou três ciclos de gelo–degelo podem transformar essas áreas em placas lisas, quase invisíveis.

Domine a “marcha de pinguim”

Ortopedistas e equipas de saúde ocupacional repetem o mesmo conselho vezes sem conta: em dias de gelo, ande como um pinguim.

“Passos curtos, joelhos ligeiramente flectidos, peso sobre o pé da frente - parece ridículo, mas mantém-no de pé.”

Como andar no gelo sem escorregar

Encare a sua passada normal e confiante como um problema quando o passeio está escorregadio. Em vez disso:

  • Dê passos pequenos e arrastados, em vez de passadas longas.
  • Mantenha os pés o mais “assentes” possível no chão.
  • Incline ligeiramente o tronco para a frente, para que o peso fique sobre o pé da frente.
  • Afaste um pouco os braços do corpo para ajudar no equilíbrio.

Esta postura aumenta a estabilidade e faz com que qualquer deslize seja mais lento e mais fácil de corrigir. As crianças, regra geral, adoram imitar a “marcha de pinguim”, o que pode transformar a ida à escola num jogo mais seguro, em vez de um caminhar tenso.

Mãos livres: troque a mala de ombro

Uma mala pesada, uma pasta com computador portátil ou um saco grande a pender de um lado puxam o equilíbrio para fora do centro. Quando um pé foge, esse peso extra pode transformar um escorregão leve numa queda violenta.

Em manhãs geladas, prefira uma mochila. Distribui a carga pelos ombros e pela zona das ancas; ajuste as alças e mantenha-a junto ao corpo.

“Duas mãos livres dão-lhe uma hipótese real de recuperar de um deslize ou, pelo menos, de controlar a queda.”

Evite também enfiar as duas mãos nos bolsos do casaco. Dedos frios são um incómodo; um pulso partido é muito pior. Compre umas luvas isoladas e impermeáveis para poder manter as mãos fora e prontas.

Abrande e antecipe o caminho

Ir a correr para o comboio ou para o portão da escola é uma das principais razões para as pessoas irem ao chão. Dias de gelo pedem outro ritmo.

Saia de casa mais cedo do que o habitual e ande devagar, quase como se estivesse a testar cada passo antes de confiar nele. Em zonas duvidosas, toque de leve com o pé, em vez de colocar logo todo o peso.

Mantenha o olhar em frente e alguns metros adiante, não fixo nos sapatos. Se identificar uma zona brilhante, uma poça congelada ou uma película de neve sobre gelo, ganha tempo para desviar o trajecto ou encurtar ainda mais os passos.

Escolha o lado mais seguro da rua

No mesmo arruamento, os passeios não têm todos o mesmo risco. O lado que apanha mais sol tende a descongelar mais depressa e a manter menos gelo, sobretudo a meio da manhã e no início da tarde.

“Se puder escolher, ande onde o sol bate no chão, e não na sombra permanente.”

Ruas laterais sombrias, vielas e escadas viradas a norte podem manter gelo muito depois de as vias principais já terem sido tratadas com sal. Tenha cuidado redobrado em escadas exteriores e rampas. Uma película fina de neve pode esconder por baixo uma superfície completamente lisa e congelada.

Apoio extra: bastões e ajudas improvisadas

Para quem faz distâncias maiores em dias de gelo - carteiros, donos de cães, pessoas que vão a pé para o trabalho por não terem carro - um apoio adicional pode fazer diferença.

Apoio Como ajuda Melhor para
Bastões de caminhada Acrescentam dois pontos de contacto e permitem testar o piso Caminhadas regulares no inverno, zonas com subidas e descidas
Grampos antiderrapantes Pontas metálicas que cravam no gelo e na neve compacta Passeios muito gelados, pessoas mais velhas
Um pau simples Dá apoio básico ao equilíbrio e pode “sondar” gelo Percursos curtos na zona, solução económica

Em lojas de desporto é comum encontrar bastões de trekking leves e grips/aderentes de gelo que se colocam por cima do calçado normal. São particularmente úteis para pessoas mais velhas, para quem está a recuperar de cirurgia, ou para quem vive em ruas íngremes.

Como cair com menos danos

Nenhuma técnica é infalível. Mesmo a fazer tudo bem, pode haver um momento em que escorrega. Treinar mentalmente a forma de cair ajuda a reduzir lesões quando isso acontece.

“O objectivo é proteger a cabeça e os pulsos, mesmo que isso signifique molhar a roupa e ferir o orgulho.”

Se cair para a frente

Tente não aterrar com os braços esticados e as mãos à frente. Essa posição leva muitas vezes a fracturas do pulso ou do cotovelo.

  • Flicta os cotovelos e procure amortecer com os antebraços, não com as mãos.
  • Rode ligeiramente para um lado e deixe o corpo “rolar” um pouco.
  • Encoste o queixo ao peito para proteger a cabeça.

Se cair para trás

O instinto faz com que muitas pessoas lancem as mãos para trás quando escorregam. Isso provoca frequentemente fracturas do pulso.

  • Baixe o queixo para reduzir a hipótese de bater com a parte de trás da cabeça.
  • Deixe as ancas e o rabo absorverem a maior parte do impacto - os tecidos moles aguentam melhor do que os ossos das mãos.
  • Mantenha os braços junto ao corpo, sem os bloquear esticados para trás.

Riscos escondidos: do gelo negro a condições de saúde

O gelo negro é uma das piores surpresas do inverno. Forma-se quando uma película fina de água volta a congelar sobre asfalto ou lajes, deixando uma camada quase invisível, lisa como vidro. Muitas vezes só o detecta quando os pés começam a deslizar.

Estas zonas aparecem com mais frequência de madrugada e à noite, perto de rios ou ribeiros, em pontes e em locais sombreados por edifícios altos ou árvores. Superfícies com aspecto ligeiramente húmido, com temperaturas abaixo de zero, devem levantar sempre suspeitas.

Algumas condições médicas e medicamentos também aumentam o risco de queda. Pessoas com diabetes, problemas de circulação ou lesões nervosas podem sentir menos os pés. Quem toma sedativos ou analgésicos fortes pode reagir mais devagar. Para estes grupos, apostar em melhor calçado, ajudas de marcha e informar alguém sobre o percurso ajuda a limitar o perigo.

Planeamento e pequenas rotinas que reduzem acidentes

Há hábitos simples que, integrados na rotina de inverno, reduzem a probabilidade de uma queda feia ao longo de toda a estação.

  • Guarde um saco de sal, areão ou areia junto à porta e espalhe nos degraus e no caminho antes de sair.
  • Use corrimãos em todas as escadas, mesmo nas mais curtas que costuma ignorar.
  • Fale com a entidade patronal sobre tratar com sal os parques de estacionamento e as entradas, se ficarem frequentemente gelados.
  • Incentive as crianças a trocar a corrida por “passos de pinguim” em dias de geada.

A comunidade também pode ter um papel importante. Vizinhos que limpam e espalham sal em caminhos partilhados, ou voluntários locais que apoiam residentes mais velhos, reduzem o total de lesões. Um pouco de trabalho com uma pá na sua rua pode poupar a outra pessoa semanas com o braço engessado.

O inverno vai continuar a trazer neve, lama derretida e aquele receio quando o passeio brilha demais. Com o calçado certo, uma mochila em vez de mala de ombro, um ritmo mais lento e uma forma de andar ligeiramente cómica, essas manhãs cintilantes podem continuar bonitas - e não perigosas.

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