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SEAT em Martorell: 27 anos, 11 milhões de carros e 22 horas para um Leon

Carro desportivo vermelho Martorell 30S num showroom moderno com braços robóticos ao fundo.

Em 2019, a SEAT alcançou o melhor desempenho comercial e financeiro dos seus 70 anos, depois de um longo período marcado por prejuízos, deixando a sensação de que a marca espanhola tinha finalmente garantido um caminho sustentável.

Esse ano terminou em alta: a faturação ultrapassou os 11 mil milhões de euros e os lucros ficaram acima de 340 milhões de euros (17,5% acima de 2018), no que foi o resultado mais elevado de sempre. Já 2020 arrancou com um cenário bem menos favorável.

Além da saída do CEO da SEAT, Luca De Meo, para a concorrência (Renault), foi sobretudo a pandemia a travar uma sequência de melhorias sucessivas em praticamente todos os indicadores económicos - tal como aconteceu, de forma transversal, na grande maioria dos setores e empresas a nível mundial.

Por isso, a trajetória recente de crescimento anual de vendas da marca espanhola (de 400 000 em 2015 para 574 000 em 2019, 43% mais em apenas quatro anos) deverá mesmo ser interrompida este ano.

11 milhões de carros fabricados

A unidade de Martorell abriu portas em 1993, após uma construção concluída em apenas 34 meses (exigindo, na época, um investimento de 244,5 milhões de pesetas, equivalentes a 1470 milhões de euros) e, ao longo de 27 anos, produziu cerca de 11 milhões de veículos, repartidos por 40 modelos ou derivativos.

Desde então, o complexo industrial transformou-se profundamente: a área total cresceu sete vezes, até aos atuais 2,8 milhões de metros quadrados - espaço onde, para facilitar a visualização, caberiam 400 campos de futebol.

E Martorell não é o único polo de produção da marca nesta zona. Na Zona Franca, junto à cidade (onde a produção automóvel da empresa começou em 1953 e se manteve até 1993), faz-se a estampagem de várias peças (portas, tetos, para-lamas, num total de mais de 55 milhões para 20 fábricas de várias marcas do Grupo Volkswagen só em 2019). Existe ainda outra unidade dedicada a componentes (de onde saíram 560 000 caixas de velocidades o ano passado) nas imediações do aeroporto, em Prat de Llobregat, além de um Centro Técnico (desde 1975 e onde hoje trabalham mais de 1100 engenheiros).

Isto significa que a SEAT é uma das poucas empresas no país que desenha, faz o desenvolvimento técnico e fabrica os seus produtos em Espanha. E, na região e em ligação à SEAT, há também um grande centro de logística, um centro de impressão 3D (uma adição recente e dentro da própria fábrica) e um Digital Lab (em Barcelona), onde se projeta o futuro da mobilidade humana - com integração relevante de estudantes universitários, que também realizam formações contínuas na fábrica, ao abrigo de um protocolo com a Universidade Politécnica da Catalunha.

27 anos mudam tudo

Quando arrancou, em 1993, Martorell concluía 1500 carros por dia; hoje saem 2300 a rolar “pelo seu próprio pé”, o que significa um carro novo pronto a enviar para algum ansioso cliente a cada 30 segundos.

O tempo necessário para produzir um automóvel desceu de 60 horas para 22 horas: atualmente, 84 robôs aplicam camadas finas de tinta numa cabina de pintura e um scanner de última geração avalia a suavidade da superfície em apenas 43 segundos. Realidade virtual, impressão 3D e realidade aumentada são outras evoluções trazidas com a Indústria 4.0.

É assim que Juan Pérez, hoje responsável pelos Processos de Impressão, recorda os primeiros tempos, há 27 anos, em Martorell, quando os trabalhadores chegavam a percorrer 10 km por dia: “Na hora de voltar para casa nem conseguia encontrar o vestiário. Era muito fácil perdermo-nos”.

Atualmente, há veículos autónomos que apoiam os trabalhadores no transporte de cerca de 25 000 peças por dia para a linha, além de 10,5 km de ferrovias e 51 linhas de autocarros.

Um português lidera a Qualidade

Tão importante quanto o aumento de volume é a evolução contínua da qualidade, mesmo nos anos mais recentes, como indicam os números: entre 2014 e 2018, o total de reclamações de proprietários de modelos da marca espanhola diminuiu 48% e Martorell está praticamente ao nível dos registos de qualidade/fiabilidade da fábrica-mãe da Volkswagen, em Wolfsburgo.

O resultado torna-se menos surpreendente sabendo que os procedimentos industriais seguidos são os mesmos, do início ao fim, como confirma José Machado - o português que hoje lidera o controlo de qualidade em Martorell, depois de ter começado na Autoeuropa (em Palmela) e de ter seguido para Puebla (México), antes de assumir esta função no berço de quase todos os SEAT:

80% são homens, 80% têm menos de 50 anos, estão na empresa em média há 16,2 anos e 98% dispõem de contrato de trabalho permanente, o que ajuda a criar estabilidade nas pessoas, que depois se reflete na qualidade do seu trabalho.

Leon é o que mais se fabrica e vende

Ramón Casas - diretor da secção de Montagem e Revestimento Interior - guia esta visita com evidente orgulho no que ali se faz, concentrando o percurso precisamente na área pela qual responde diretamente: “temos três linhas de montagem no total, a 1 é do Ibiza/Arona (que completa 750 carros/dia), a 2 do Leon e Formentor (900) e a 3 exclusiva do Audi A1 (500)”.

Neste caso, o foco está no Leon e nos seus derivativos porque esta visita complementou uma deslocação à fábrica para recolher a carrinha Leon Sportstourer, antes de esta chegar ao mercado português pelos canais habituais.

Casas detalha que “esta linha 2 é a que mais automóveis fabrica porque o Leon é o SEAT mais vendido globalmente (cerca de 150 000/ano) um pouco acima do Ibiza e do Arona (cerca de 130 000 cada) e que agora que o SUV Formentor se juntou a esta linha de montagem a capacidade de produção ficará muito perto de esgotar”.

Em 2019, saíram de Martorell 500 005 automóveis (81 000 dos quais Audi A1), mais 5,4% do que em 2018. Esse volume correspondeu a 90% da capacidade instalada da fábrica - um dos valores mais elevados da Europa e um sinal muito positivo da robustez financeira da empresa.

Ainda assim, as vendas da marca espanhola ficaram acima dos 420 000 SEAT produzidos em Martorell no ano passado, uma vez que alguns modelos são fabricados fora de Espanha: o Ateca na República Checa (Kvasiny), o Tarraco na Alemanha (Wolfsburgo), o Mii na Eslováquia (Bratislava) e o Alhambra em Portugal (Palmela).

No conjunto, a SEAT produziu 592 000 carros em 2019, tendo como principais mercados a Alemanha, Espanha, Reino Unido, por esta ordem (80% da produção destina-se à exportação para cerca de 80 diferentes países).

22 horas para fazer um SEAT Leon

O percurso continua ao longo de parte dos 17 km de vias com carris eletrificados, seguindo carroçarias suspensas e bases rolantes com motores/caixas já montados, que mais à frente se juntam no que as fábricas chamam de “Casamento”. Pelo caminho, os dois guias acrescentam mais detalhes: em cada linha de montagem existem três grandes áreas - Carroçaria, Pintura e Montagem -, mas “mas a última é onde os carros passam mais tempo”, sublinha de imediato Ramón Casas, não fosse a área que também depende diretamente da sua gestão.

No total de 22 horas que cada Leon demora a ser produzido, 11h45min permanece na Montagem, 6h10min na Carroçaria, 2h45min na Pintura e 1h20min em Acabamentos e Verificação Final.

A liderança da fábrica mostra particular satisfação por conseguir fazer transições de geração sem parar a linha. “Mesmo com vias mais largas e uma distância entre eixos diferente, conseguimos ir integrando a produção do novo Leon sem termos tido que parar a da anterior geração”, salienta Casas, embora reconheça que existem desafios ainda mais sensíveis.

Um dos mais complexos é o sequenciamento de componentes, para garantir que cada configuração corresponde exatamente ao que foi encomendado. Só na dianteira do Leon podem existir 500 variações, o que ilustra bem o nível de dificuldade.

José Machado acrescenta ainda que “não há diferença de tempo entre a produção de um Leon cinco portas ou de uma carrinha Sportstourer e o facto de esta última ter ganho popularidade nos últimos anos – 40% das vendas contra 60% do cinco portas – não afetou a linha de montagem”.

Drones e robôs a ajudar…

Em Martorell, a robotização assume várias formas. Existem robôs dedicados à logística interna entre diferentes zonas do enorme complexo (incluindo drones e veículos terrestres automatizados, num total de 170 dentro e fora da fábrica) e existem, por outro lado, os robôs envolvidos diretamente na montagem dos automóveis.

Machado refere que “existem índices de robotização diferentes dependendo da zona da linha de montagem, com cerca de 15% na zona de montagem, 92% na chaparia e 95% na pintura”. Na área de montagem, muitos destes robôs servem para auxiliar os trabalhadores a manusear peças mais pesadas, como as portas (podem chegar aos 35 kg), rodando-as antes de as encaixar na carroçaria.

…mas é o ser humano que faz a diferença

Ainda assim, o responsável máximo pela Qualidade em Martorell volta a sublinhar o papel decisivo das equipas humanas nesta unidade industrial.

Martorell esteve encerrada durante a fase mais grave da propagação do COVID-19, como me explica Ramón Casas:


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