A francesa Sophie Adenot é vista como uma das figuras mais marcantes da nova geração europeia de astronautas. Engenheira, piloto de elite, oficial, com perfil de investigação - e, tudo indica, com uma missão na ISS a partir de 2026. O percurso até aqui parece escrito para cinema, só que sem filtros de glamour e com uma dose enorme de trabalho duro.
Um sonho de infância, aceso por um lançamento na televisão
Sophie Adenot nasce a 5 de julho de 1982, na pequena Cosne-Cours-sur-Loire, uma localidade de cerca de 10.000 habitantes, longe dos grandes centros. A mãe é farmacêutica e o pai notário - um ambiente familiar estável, muito distante da ideia romântica da exploração espacial.
Ainda assim, a atração pelo espaço surge cedo. Leituras sobre foguetes, imagens de estações espaciais e relatos de astronautas passam a ocupar-lhe a imaginação. Aos 14 anos, acontece o momento que fixa a ambição em definitivo: ela vê o lançamento da francesa Claudie Haigneré rumo à estação espacial russa Mir.
"O lançamento de Claudie Haigneré em 1996 tem, para a jovem Sophie, o efeito de um estalo - no melhor sentido: de repente, o sonho parece possível."
Nessa altura, frequenta um internato feminino com tradição, em Saint-Germain-en-Laye. Enquanto muitas colegas ponderam universidade, formação profissional ou um ano no estrangeiro, para ela a decisão torna-se inequívoca: quer ir ao espaço - com tudo o que isso implica.
Formação de topo entre Toulouse e o MIT
Depois do secundário, aposta tudo numa direção: a aeronáutica e o espaço. Prepara-se com rigor para os exigentes exames de acesso às grandes escolas francesas e, em 2001, entra na reconhecida ISAE-Supaero, em Toulouse, onde se foca em mecânica de voo e engenharia espacial.
Em 2003, termina o curso com um diploma de engenharia em mecânica aeronáutica e espacial e, em paralelo, obtém uma licença de piloto privado. Ou seja, junta base teórica sólida a prática real aos comandos - uma combinação particularmente valorizada no setor espacial.
Investigação na fronteira entre o corpo humano e a engenharia espacial
Em 2004, dá mais um passo importante com uma estadia académica no Massachusetts Institute of Technology (MIT), nos Estados Unidos. Em vez de se dedicar à propulsão, centra-se no organismo humano - mais concretamente, na forma como o sistema de equilíbrio do ouvido interno reage à gravidade artificial.
Embora pareça um tema muito específico, tem impacto direto nas missões longas. Viver meses em microgravidade leva à perda de massa muscular, densidade óssea e sentido de orientação. A gravidade artificial, por exemplo através de módulos rotativos, é apontada como uma possível solução - desde que seja bem tolerada pelo corpo.
- Área de investigação: adaptação do sentido de equilíbrio humano à gravidade artificial
- Objetivo: treino mais seguro e melhor preparação de astronautas
- Grau académico: Master of Science em fatores humanos na aeronáutica e no espaço
- Qualificação adicional: licença de paraquedismo desportivo
Após o MIT, passa pela Airbus, em Marignane, onde trabalha como engenheira de desenvolvimento em design de cockpit. De novo, o foco recai na interface entre pessoas e tecnologia - um fio condutor evidente no seu percurso.
Carreira no cockpit: missões de salvamento e transporte de Estado
Pouco depois, integra a Força Aérea e Espacial Francesa. Na École de l’air, em Salon-de-Provence, recebe formação de oficial e, ao mesmo tempo, vai acumulando experiência de voo em helicópteros.
Missões em cenários exigentes
Entre 2008 e 2012, voa no esquadrão de helicópteros 1/67 "Pyrénées". A unidade está baseada numa base aérea no sul de França e opera, entre outras zonas, em regiões montanhosas onde pessoas podem ficar presas em situações de risco extremo.
"Missões de salvamento com mau tempo, pouca visibilidade, vales estreitos, paredes de rocha - nesses momentos, cada segundo e cada movimento no manche contam."
Nesse período, ganha experiência operacional em cenários de elevado risco e desenvolve rotinas para lidar com pressão, imprevistos e cadeias de erro - competências que, mais tarde, podem ser decisivas dentro de uma cápsula espacial.
Uma função de elevada confiança ao serviço do Governo
A partir de 2012, entra numa missão com forte exposição pública: passa a integrar a unidade responsável pelo transporte, em helicóptero, de membros do Governo e do Presidente. Locais de descolagem e aterragem, planos de segurança e horários rigorosos - aqui, simplesmente não há margem para falhas.
Com isso, deixa de ser apenas piloto militar: torna-se também uma figura de confiança do Estado. Quem transporta a liderança política de um país tem de estar acima de qualquer dúvida.
Primeira mulher francesa piloto de ensaios de helicópteros
Até 2018, Sophie Adenot soma já cerca de 3.000 horas de voo. Nesse ano atinge outro marco: torna-se a primeira francesa a exercer como piloto de ensaios de helicópteros na agência de armamento DGA.
Pilotos de ensaios avaliam aeronaves novas ou modificadas no limite do desempenho. Simulam avarias, testam manobras e devolvem às equipas de engenharia relatórios e propostas de melhoria. Para assumir esta função, Adenot frequenta a prestigiada Empire Test Pilots’ School, no Reino Unido - uma das formações mais exigentes do mundo nesta área.
Em paralelo, progride na hierarquia militar: em 2021 é promovida a tenente-coronel e, em 2025, atinge o posto de coronel. A combinação de liderança, base científica e experiência de voo de alto nível torna-a particularmente apelativa para as agências espaciais.
De mais de 22.000 candidaturas à seleção como astronauta
Em 2022, a Agência Espacial Europeia (ESA) abre um novo recrutamento de astronautas. Candidatam-se mais de 22.000 pessoas em toda a Europa. No fim, apenas um pequeno grupo é escolhido - e Sophie Adenot está entre os selecionados.
| Critério | Importância na seleção |
|---|---|
| Formação técnica | Compreensão sólida de sistemas espaciais e de física |
| Experiência de voo | Segurança a operar tecnologia complexa sob stress |
| Capacidade de trabalho em equipa | Convivência durante meses em espaço muito reduzido |
| Saúde e condição física | Resistência à microgravidade e à aceleração no lançamento |
A 23 de novembro de 2022, a ESA anuncia a decisão: Adenot integra a nova turma de astronautas, o chamado "Grupo 4" do corpo europeu. Além dela, entram também candidatos de países como Espanha, Bélgica, Reino Unido e Suíça.
Treino exigente em Colónia
Desde 2023, treina no Centro Europeu de Astronautas, em Colónia. A formação base dura cerca de dois anos e é mais abrangente do que muita gente imagina:
- Teoria: mecânica orbital, sistemas de suporte de vida, funcionamento dos módulos da ISS
- Tecnologia: operação de fatos espaciais, veículos e sistemas robóticos
- Medicina: primeiros socorros, resposta a emergências, intervenções dentárias simples
- Psicologia: gestão de isolamento, conflitos e comunicação em equipa
- Treino: exercícios subaquáticos, treino em grutas e sobrevivência em ambiente selvagem
Um dos momentos mais impressionantes são os exercícios numa piscina onde existem módulos completos de estação espacial submersos. Ali, os candidatos simulam uma atividade extraveicular. A microgravidade não se reproduz de forma perfeita na Terra, mas é possível aproximar as condições de trabalho típicas do espaço.
Missão com a SpaceX prevista para 2026
O primeiro grande objetivo está apontado para fevereiro de 2026: um voo até à Estação Espacial Internacional. O lançamento deverá ser feito numa cápsula SpaceX Crew Dragon. Esta nave, desenvolvida por uma empresa privada, tem transportado regularmente astronautas para a NASA e a ESA nos últimos anos.
"Em poucos anos, Sophie Adenot pode tornar-se o rosto mais jovem da Europa na ISS - e, para muitas raparigas e rapazes, ser aquilo que Claudie Haigneré foi um dia para ela."
Na estação, deverá participar em experiências científicas, assegurar tarefas de manutenção e integrar estudos sobre o impacto de meses em microgravidade no corpo humano. Os temas típicos vão de testes de materiais a experiências com células, plantas e robótica.
O que significa, na prática, a "gravidade artificial"
Um ponto da sua investigação inicial voltou a ganhar destaque: a gravidade artificial. O conceito é relativamente direto: em vez de ausência de peso, tenta-se criar a bordo de uma nave uma "gravidade substituta", geralmente por rotação.
Quando um módulo gira, surge uma força centrífuga que empurra o corpo para o exterior. Isso poderia reduzir muitos efeitos negativos de longas estadias no espaço. O desafio é que pequenas variações na rotação podem causar tonturas e desconforto. É precisamente desta tensão - entre potencial e limites fisiológicos - que nasce a investigação de Adenot no MIT.
Com futuras missões à Lua ou a Marte, o tema ganha cada vez mais importância. Quem passa meses num módulo de transferência precisa de soluções para proteger ossos e músculos. Uma astronauta com conhecimento profundo destas relações pode contribuir com dados valiosos e ajudar a desenhar programas de treino.
Porque este percurso também importa para Portugal e para o espaço lusófono
Histórias como a de Sophie Adenot mostram que a exploração espacial europeia já não se limita a um círculo fechado de poucos países. A sua seleção aconteceu em concorrência direta com candidatos de muitas nacionalidades - um sinal de que a Europa aposta, de forma deliberada, na cooperação.
Para crianças e jovens em Portugal e noutros países de língua portuguesa, o seu percurso é um exemplo concreto: ela não vem de uma metrópole, nem começou como "criança-prodígio". Foi avançando passo a passo, entre anfiteatros, cockpit e laboratório. É essa progressão, construída com consistência, que torna a história próxima.
Quem hoje sonha com o espaço não precisa de começar já com o objetivo de ser astronauta. Cursos em engenharia aeronáutica e espacial, medicina, informática, biologia ou psicologia são vias de entrada. Estágios na indústria aeronáutica, em empresas do setor espacial ou em centros de investigação ajudam a clarificar interesses. E, tal como aconteceu com Adenot, o desporto, o serviço militar ou a experiência em equipas de salvamento podem desenvolver competências que contam muito em processos de seleção.
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