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Viver com o fogo: queimadas prescritas e ecossistemas mais resilientes

Mulher planta árvore jovem num solo queimado perto de fogo controlado numa floresta seca.

Respirava.

Enquanto, nas notícias, as colinas próximas brilhavam a laranja, esta faixa de terreno no Oeste americano mantinha-se estranhamente serena. O ar trazia um leve cheiro a fumo e resina, como uma fogueira que nunca chega a pegar de vez. Entre os pinheiros, viam-se troncos enegrecidos por um incêndio de baixa intensidade que ali passara meses antes - e, mesmo assim, já despontavam rebentos verdes a furar a cinza.

Ao nível do chão, debaixo das botas, o solo parece elástico, vivo, e não seco e sem pó. Nas ramagens chamuscadas, as aves chilreiam como se nada de extraordinário tivesse acontecido. Um guarda-florestal segue à frente, afasta uma pinha com a bota e aponta para plântulas minúsculas que, de algum modo, sobreviveram a um mundo em chamas.

Aqui em cima, custa acreditar que, há apenas alguns anos, esta mesma floresta era uma caixa de fósforos à espera do momento de explodir. Algo mudou. E começou quando se aceitou deixar arder.

Quando o fogo deixa de ser inimigo

A primeira coisa que salta à vista numa floresta que “convive com o fogo” é a desarrumação.

Há toros queimados no chão, troncos marcados, clareiras de luz onde as chamas já passaram. O cenário parece mais indomado, quase abandonado, como se ninguém o tivesse “arrumado” em muito tempo. Ainda assim, o ar sente-se mais fresco e mais leve. A vista abre-se entre as árvores. E, ao caminhar, não se ouve o estalar constante de tapetes de agulhas mortas acumuladas durante décadas.

É isto que acontece quando quem gere o território volta a tratar o fogo como um processo natural, em vez de tentar apagá-lo do mapa. Queimas frequentes e de baixa intensidade removem combustível. As plantas que evoluíram com as chamas recuperam rapidamente. Quando chegam as ondas de calor e a seca, estas florestas não entram em colapso: cedem, adaptam-se. Dobraram, mas não partiram.

No norte da Califórnia, cientistas acompanharam duas florestas vizinhas ao longo de uma sequência dura de anos de seca e calor recorde.

Uma fora protegida de forma agressiva contra o fogo durante quase um século. A outra recebera queimadas prescritas e, em alguns casos, deixara-se que incêndios provocados por raios seguissem o seu curso. Quando finalmente surgiu um grande incêndio, a diferença foi difícil de ignorar. A floresta “protegida” ardeu de forma rápida e violenta, com as copas a explodirem e o solo a ficar chamuscado até formar uma crosta acinzentada. Na floresta adaptada ao fogo, as chamas avançaram sobretudo rente ao chão. Muitas árvores grandes resistiram. A vegetação do sub-bosque rebentou de novo em poucas semanas.

Os dados confirmaram o mesmo padrão. A mortalidade de árvores disparou na floresta onde o fogo fora totalmente suprimido. Nas zonas queimadas e desbastadas, a mortalidade manteve-se muito mais baixa, apesar de terem enfrentado a mesma seca e os mesmos extremos de temperatura. Não foi sorte. Foi estrutura: menos combustível, maior espaçamento entre árvores, raízes mais profundas, microclimas mais frescos. Uma resiliência que se mede em troncos vivos por hectare.

Depois de se ver isto, a lógica quase parece evidente.

Se suprimirmos todos os fogos durante décadas, acabamos por empilhar a floresta como um armazém seco. Basta uma faísca, uma tarde quente e ventosa, e todo o “stock” arde num único incêndio catastrófico. Se, pelo contrário, o fogo regressar em pequenas doses controladas, esse combustível é consumido aos poucos. A natureza paga o seu “imposto do fogo” de forma regular, em vez de receber uma única factura arrasadora.

Os ecossistemas adaptados ao fogo evoluíram ao ritmo deste ciclo. Muitos pinheiros precisam de calor para abrir as pinhas. Alguns arbustos rebentam com mais vigor depois de arderem. Os combustíveis finos são devolvidos ao solo sob a forma de nutrientes, tornando-o mais esponjoso e capaz de reter água quando o clima oscila entre cheias e secas. Por isso, restaurar o fogo não altera apenas o aspecto da paisagem após um incêndio: muda a forma como ela aguenta todos os extremos que se seguem.

Como trabalhar com o fogo, em vez de lutar contra ele

Para gestores do território, comunidades tribais, agricultores ou mesmo grandes proprietários, a mudança começa com um gesto simples: deixar de tratar todo o fogo como uma catástrofe.

No terreno, isso traduz-se em delimitar áreas de queima e escolher épocas mais frescas e seguras. As equipas usam tochas de gotejamento para lançar linhas estreitas de chama, sempre dentro de janelas meteorológicas rigorosas. Abrem clareiras em matagais densos, removem ramos baixos e constroem mosaicos de manchas ardidas e não ardidas. Cada queima é pequena, contida, imperfeita. Ao longo dos anos, estas manchas acabam por se ligar numa paisagem que não entra em pânico quando os raios chegam em Agosto.

Nos bastidores, implica também recuperar o conhecimento ecológico tradicional que nunca perdeu este compasso. Em muitas regiões do mundo, comunidades indígenas utilizaram durante muito tempo fogos baixos e frequentes para manter o território mais aberto, diversificar plantas e proteger espécies alimentares essenciais. A ciência moderna está, finalmente, a alcançar práticas que foram desvalorizadas durante gerações.

A parte mais difícil não é a técnica. É o nosso medo.

Numa manhã com fumo no ar, quando as chamas lambem o mato, os telemóveis acendem-se. As pessoas preocupam-se com as casas, com os pulmões, com as crianças a brincar lá fora. Esse receio é real. E também foi moldado por um século de mensagens que retrataram qualquer fogo como um monstro. Muitas comunidades resistiram às queimadas prescritas, exigindo risco zero, fumo zero, chamas zero. Sejamos honestos: ninguém consegue viver assim todos os dias, mas quando o céu fica baço, todos queremos um vilão limpo e simples.

Na prática, a escolha não é entre “fogo ou ausência de fogo”. É entre muitos fogos pequenos e planeados e alguns poucos fogos aterradores e imprevisíveis. Ecossistemas resilientes parecem-se com pessoas que treinam com regularidade: o stress é frequente, controlado e suportável. Se nunca há treino, o choque grande parte-nos.

Entre as vozes mais marcantes desta viragem estão as de quem vive entre dois mundos: cientistas que queimam e quem queima com método científico.

“Não fomos nós que tornámos estas florestas propensas ao fogo”, disse-me um ecólogo do fogo, enquanto observava uma linha baixa de chamas a sussurrar através da erva seca. “Apenas nos esquecemos de que elas já o eram. O nosso trabalho agora é ajudá-las a recordar como arder sem colapsar.”

No terreno, isso significa repensar tanto os detalhes práticos como os grandes discursos políticos. Sistemas de alerta precoce, medidas de reforço das casas e “dias do fogo” comunitários - em que os moradores limpam o mato em conjunto - somam camadas de resiliência. Também ajuda aprender a “ler” o fumo e a distinguir quando ele sinaliza ameaça e quando sinaliza recuperação.

  • Queimas de baixa intensidade: reduzem a carga de combustível e protegem árvores de grande porte.
  • Desbaste de povoamentos densos: dá mais água e luz às árvores que ficam.
  • Protecção de refúgios-chave: zonas húmidas, galerias ripícolas, afloramentos rochosos.
  • Apoio à queima tradicional: parcerias com guardiões indígenas do fogo.
  • Preparação das casas: coberturas resistentes a brasas, caleiras limpas, perímetros seguros.

Viver com um futuro que arde

Estamos a entrar numa era em que os mapas de extremos climáticos parecem uma erupção de calor espalhada pela pele.

Em todos os continentes, os gráficos de ondas de calor, secas e tempestades “uma vez por século” começam a lembrar um mercado em bolha, sempre a tentar bater um novo máximo. Florestas, pradarias, turfeiras e savanas estão a ser abanadas com mais força do que os sistemas que as moldaram. Algumas mudarão para algo novo. Outras irão resistir. E, por estranho que pareça, o fogo pode ser a diferença.

Quando o fogo volta a ser reconhecido como processo natural, os ecossistemas ganham ferramentas. Reorganizam-se, perdem algumas espécies e favorecem outras, construindo paisagens em retalhos onde nenhum evento isolado consegue levar tudo de uma vez. Os ciclos da água ajustam-se à medida que os solos retêm mais carbono e mais humidade. Os animais aprendem a usar bordos queimados para se alimentarem e manchas densas para se esconderem. Ao nível humano, as comunidades observam, adaptam-se, queixam-se do fumo e, aos poucos, percebem que as suas florestas já não são apagadas do mapa todos os verões.

Quase toda a gente já viveu aquele momento: passar de carro junto a uma encosta enegrecida, sentir o cheiro a carvão por uma janela entreaberta e pensar: “Isto é só perda.” Mas, um ano depois, se voltar a pé, muitas vezes encontra outra narrativa. Tremoços a florir na cinza. Pica-paus a caçar insectos na casca queimada. Árvores jovens a correr para a luz nova. A pergunta deixa de ser “Como é que travamos isto?” e passa a ser “Como é que garantimos que esta energia não destrói o que não podemos substituir?”

Restaurar o fogo não é uma solução mágica. Não vai congelar o clima no ponto em que está, nem vai salvar todas as árvores antigas de que gostamos. Vai trazer fumo, conflitos políticos e compromissos desconfortáveis. Vai pedir que toleremos uma paisagem mais “desarrumada” e menos perfeita para o Instagram. E também dará a muitos ecossistemas uma hipótese real de se curvarem, de rebrotarem e de continuarem a oferecer sombra, água, alimento, histórias e abrigo num século que os vai testar de forma brutal.

Ponto-chave Detalhe Interesse para o leitor
O fogo como processo natural Muitos ecossistemas evoluíram com fogos frequentes e de baixa intensidade Ajuda a olhar para o fogo de outra forma e a perceber por que motivo “fogo zero” pode sair pela culatra
Redução de combustível e estrutura Queimadas prescritas e desbaste baixam a carga de combustível e abrem o coberto arbóreo Explica por que algumas florestas resistem a incêndios extremos e outras não
Escolhas humanas e resiliência Políticas, conhecimento indígena e preparação das casas influenciam os resultados Mostra o que comunidades e pessoas podem, de facto, fazer num mundo mais quente e mais seco

Perguntas frequentes:

  • Nem todo o incêndio florestal é mau para o ambiente? Nem sempre. Muitas paisagens dependem de fogos regulares e moderados para reciclar nutrientes, abrir sementes e evitar a acumulação de combustível. O que tende a ser mais destrutivo são incêndios raros e extremos, agravados por décadas de supressão e por stress climático.
  • Como é que as queimadas prescritas se mantêm sob controlo? As equipas queimam apenas com condições específicas de meteorologia, humidade e vento, com equipamento, aceiros e planos de contingência preparados. Há sempre algum risco, mas é muito menor do que o risco de não fazer nada durante anos.
  • Restaurar o fogo reduz mesmo o fumo no total? Sim, quando é feito em escala. Queimas mais frequentes e pequenas criam episódios de fumo mais curtos e menos intensos, ajudando a evitar semanas ou meses de fumo denso causado por grandes incêndios descontrolados.
  • Que papel têm as comunidades indígenas nisto? Os guardiões indígenas do fogo detêm conhecimento profundo sobre plantas locais, estações do ano e padrões de queima. Onde as agências trabalham com eles, as paisagens tendem a tornar-se mais diversas, mais seguras e melhor adaptadas a extremos climáticos.
  • O que podem fazer pessoas comuns que vivem perto de zonas propensas a incêndios? Pode reforçar a casa contra brasas, manter uma zona limpa à volta dos edifícios, cumprir restrições locais e apoiar políticas que financiem queimadas prescritas e programas colaborativos de gestão do fogo, em vez de exigir “nunca haver fogo”.

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