As joaninhas são vistas como amuletos de sorte, aparecem nos desenhos das crianças no jardim de infância e são adoradas por quem trata do jardim - mas, ainda assim, muita gente só reconhece a versão vermelha com pintas pretas. Quando se olha para estes insetos minúsculos com atenção, percebe-se depressa que, por trás do ar simpático, está um predador altamente especializado, com estratégias capazes de surpreender até biólogos.
Explosão de cores em formato mini
A imagem mais comum é simples: vermelho com pontos pretos. Só que, na natureza, o “catálogo” é bem mais variado. Existem joaninhas amarelas, laranja, pretas, castanhas, brancas e até num tom rosa muito suave. Algumas espécies quase não têm pintas; noutras, as manchas são tantas que parecem salpicos por todo o corpo.
"As cores berrantes não são enfeite, são um sinal de aviso: “sei mal, deixa-me em paz”."
Os especialistas chamam a isto coloração de aviso. Aves e outros predadores aprendem rapidamente que um animal tão vistoso tende a ser tóxico - ou, no mínimo, desagradável de comer. É precisamente dessa reputação que as joaninhas tiram proveito.
Mais de 5.000 espécies em todo o mundo
No planeta, conhecem-se mais de 5.000 espécies e, só na Europa, existem várias dezenas. Eis alguns exemplos:
- Joaninha-de-sete-pontos: a “clássica” dos jardins, vermelha com sete pontos pretos.
- Joaninha-de-dois-pontos: geralmente vermelha com dois pontos, embora também existam exemplares pretos com manchas vermelhas.
- Joaninha-arlequim: extremamente variável - pode não ter ponto nenhum ou apresentar mais de vinte.
Esta diversidade facilita a conquista de habitats muito diferentes - do campo agrícola a uma varanda no quinto andar.
Auto-defesa química com “sangue” amarelo
Se uma joaninha for apertada com força, por vezes surgem gotículas amareladas junto às bases das patas. Não se trata de sangue por ferimento, mas de um recurso de emergência: o inseto expulsa fluido corporal para o exterior. Os investigadores descrevem este comportamento como hemorragia reflexa.
Nesse líquido existem alcaloides - substâncias amargas e, em alguns casos, tóxicas. Muitas aves, depois de morderem, acabam por cuspir a joaninha. Aranhas e pequenos mamíferos, após experiências semelhantes, também tendem a evitar estes “pontinhos” no futuro.
"Para nós, humanos, este cocktail tóxico é inofensivo; para muitos predadores, traduz-se em dores de barriga."
Em particular, a joaninha-arlequim é considerada especialmente “picante” e pode afastar espécies nativas, em parte por ser ainda menos apelativa para quem a tenta caçar.
Predadores com um apetite enorme
Apesar do aspeto ternurento, joaninhas são verdadeiras máquinas de comer. O prato preferido são pulgões. Uma única fêmea adulta consegue ingerir até 50 destes sugadores de seiva num dia bom. As larvas, por sua vez, costumam ser ainda mais vorazes.
Presa típica:
- pulgões em todas as fases de desenvolvimento
- ácaros-aranha
- cochonilhas-farinhentas e cochonilhas
- ovos de outros insetos, quando lhes aparecem à frente das mandíbulas
Ajudantes indispensáveis na agricultura
Como reduzem colónias de pulgões em pouco tempo, agricultores e jardineiros recorrem de forma deliberada a larvas de joaninha - sobretudo em estufas. Isto permite diminuir o uso de produtos fitofarmacêuticos e protege outros auxiliares, como as abelhas silvestres.
Quem quiser dar uma ajuda no jardim pode deixar, por exemplo, urtigas ou sebes de roseira com alguns pulgões. Isso atrai joaninhas - e, na maioria dos casos, elas próprias tratam de equilibrar o restante.
Minúsculas, mas capazes de voos de longa distância
À primeira vista, as joaninhas parecem caseiras e ligadas ao mesmo local, mas certas espécies percorrem distâncias surpreendentes. A joaninha-arlequim asiática, em especial, destaca-se como uma migradora talentosa.
Quando falta alimento ou o tempo muda, podem formar enxames e deixar-se levar pelo vento sobre campos e vales. Na América do Norte, investigadores observaram-nas a deslocarem-se das planícies para zonas montanhosas - ao longo de centenas de quilómetros.
Encontros em massa no abrigo de inverno
Com a descida das temperaturas, procuram locais resguardados para passar o inverno: fendas em rochas, debaixo da casca das árvores, mas também caixas de estore, sótãos ou pilhas de lenha. Nestas ocasiões, por vezes juntam-se milhares de indivíduos no mesmo sítio.
"O que pode parecer irritante para os moradores é vital para a sobrevivência dos escaravelhos: em grupo arrefecem mais devagar e perdem menos água."
Se aparecerem dentro de casa, pode colocá-las a hibernar num local fresco mas sem gelo, numa caixa aberta com folhas secas, e devolvê-las ao exterior na primavera.
Linguagem secreta de cheiros com feromonas
As joaninhas não “conversam” com sons; comunicam com substâncias odoríferas. As feromonas indicam a outros indivíduos onde há muitos pulgões ou onde se encontra um parceiro adequado.
Estas marcas de cheiro podem ficar, por exemplo, nas plantas ou na superfície onde se agrupam. Outras joaninhas seguem esse rasto invisível. Assim, em bons pontos de alimentação, formam-se verdadeiras “comunidades de banquete”.
Uma caixa de ferramentas para o controlo de pragas
Em laboratório, tenta-se reproduzir estes odores de forma artificial. A proposta é simples: com armadilhas de feromonas ou atrativos, seria possível encaminhar joaninhas para as zonas onde são mais necessárias. Em muitos campos, isso poderia reduzir a aplicação de pulverizações químicas.
Corpos pequenos, vida surpreendentemente longa
Para um inseto tão pequeno, a joaninha pode atingir uma idade considerável. Em média, vive cerca de um ano e, com alguma sorte, quase três. O segredo está na diapausa - uma espécie de “hibernação” poupadora de energia.
Durante este período, o metabolismo e a atividade descem drasticamente, alimentam-se pouco e mantêm-se bem escondidas. Quem consegue atravessar o inverno tem, na primavera, oportunidade de originar a geração seguinte.
O que influencia a sua longevidade
- Disponibilidade de alimento: muitos pulgões significam reservas energéticas cheias e mais hipóteses de aguentar o inverno.
- Clima: invernos suaves ajudam; frio extremo sem abrigo pode ser fatal.
- Inimigos: aves, aranhas, parasitas e também pesticidas reduzem as populações.
- Abrigo: fendas protegidas, montes de folhas ou sótãos aumentam claramente a taxa de sobrevivência.
Amuleto de sorte com raízes profundas em velhas lendas
Poucos insetos têm uma imagem tão positiva. Em grande parte da Europa, a visita de uma joaninha é considerada um bom presságio. Antigamente, muitos agricultores acreditavam que onde surgiam em grande número, a colheita seria melhor.
O nome “joaninha” liga-se a ideias religiosas. Na Idade Média, via-se este inseto como um presente da Virgem Maria, por reduzir pragas de pulgões e, assim, salvar culturas. Destas crenças nasceram histórias para crianças - como a regra de que não se deve matar uma joaninha, sob pena de trazer azar.
Quando a joaninha come outras joaninhas
A imagem é pacífica, mas a realidade pode ser dura: quando há escassez de alimento, joaninhas alimentam-se de ovos de outros indivíduos da mesma espécie - e, por vezes, até das respetivas larvas. As larvas mais fortes ganham, assim, uma vantagem.
"O canibalismo soa brutal, mas muitas vezes salva a população: sobrevivem poucos animais bem alimentados, em vez de muitos morrerem à fome."
Para os investigadores, este comportamento é uma adaptação à disponibilidade instável de alimento. Em anos com muitos pulgões, observa-se muito menos.
Mudanças de cor ao longo da vida
As joaninhas acabadas de emergir costumam parecer pálidas e moles. A cor típica e as pintas bem definidas só aparecem ao fim de algumas horas ou dias, quando o exoesqueleto de quitina endurece. Mais tarde, podem ainda escurecer.
Temperatura, humidade do ar e alimentação também entram na equação. Em regiões frias, surgem com mais frequência variantes mais escuras. Um revestimento escuro absorve mais calor do sol - uma vantagem evidente em dias frios.
A cor como escudo
Os pigmentos cumprem várias funções ao mesmo tempo:
- sinal de aviso para predadores
- proteção contra radiação UV
- regulação térmica
- possível influência na escolha de parceiro
Mini-investigadoras ao serviço da ciência
As joaninhas aparecem em inúmeros estudos. São ótimas para investigar caça a presas, competição, herança de padrões de cor e defesa química. No acompanhamento das alterações climáticas, funcionam como bioindicadores: se a distribuição muda, isso aponta para condições ambientais diferentes.
A joaninha-arlequim recebe atenção especial. Espalha-se rapidamente pela Europa e desloca espécies nativas. Investigadores analisam como as espécies invasoras se estabelecem e que medidas de resposta fazem sentido.
Como qualquer pessoa pode ajudar as joaninhas no dia a dia
Quem quiser fazer algo por joaninhas no jardim ou na varanda não precisa de equipamento especial. Bastam alguns gestos simples:
- evitar pulverizações químicas
- plantar espécies floridas como endro, funcho ou calêndula - aí encontram pólen e pulgões
- deixar montes de folhas ou madeira morta durante o inverno
- no outono, verificar caixilhos e estores e, se houver insetos presos, mudá-los com cuidado
Ao seguir estes pontos, não só se atraem joaninhas como se reforça o equilíbrio ecológico à volta de casa. Assim, o pequeno “besouro da sorte” torna-se um aliado muito útil contra pragas das plantas - e um objeto de observação fascinante mesmo à porta.
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