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Investigadores descobriram a idade exata em que fazer novas amizades começa a ser mais difícil para a maioria dos adultos.

Jovens em café moderno, três a conversar e beber café, outros ao fundo a preparar e pedir bebidas.

Chega uma altura, já na vida adulta, em que conhecer pessoas novas começa a parecer estranhamente trabalhoso.

Muitos adultos sentem que “não receberam o memorando” sobre como fazer amigos quando a vida a sério arrancou. Trabalho, contas, companheiros, filhos e deslocações diárias vão apertando a agenda e empurram para fora aquelas tardes longas em que as ligações surgiam quase sozinhas. Nos últimos anos, investigadores tentaram identificar o ponto em que construir novas amizades fortes deixa de parecer natural e passa a ser um verdadeiro desafio.

A idade em que fazer amigos fica mais difícil

Um inquérito de 2019 realizado pela empresa de investigação OnePoll, frequentemente citado em conversas sobre amizade na idade adulta, aponta para uma mudança marcante. Segundo os participantes, criar laços sociais sólidos e duradouros torna-se visivelmente mais difícil a partir do início dos 20 anos, com uma viragem clara por volta dos 23.

“A partir de cerca dos 23, quase metade dos inquiridos disse que fazer novos amigos a sério parecia ‘difícil’.”

À primeira vista, pode soar inesperado. Quem está nos primeiros anos da casa dos 20 costuma estar rodeado de colegas, colegas de curso ou companheiros de casa. Ainda assim, o estudo sugere que é precisamente nesta fase que o cenário social se transforma: passa do espontâneo para o estruturado, e do “vamos ver” para agendas rigidamente marcadas.

Porque é que os 23 são um momento tão decisivo na amizade na vida adulta

Psicólogos apontam para um conjunto de mudanças de vida que, tipicamente, se instala entre o início e meados dos 20. Estas alterações não acabam com a vontade de ter amigos; tornam, isso sim, a logística e a disponibilidade emocional muito mais complicadas.

  • Primeiros empregos a tempo inteiro: Horários longos, deslocações e pressão por resultados roubam tempo social.
  • Foco na carreira: O “networking” substitui o convívio descontraído e as interações ganham um tom mais estratégico.
  • Relações românticas: Um novo parceiro passa muitas vezes a ser o principal centro emocional.
  • Mudança de cidade: Os recém-licenciados espalham-se e os antigos grupos desfazem-se.
  • Parentalidade precoce: Para alguns, cuidados com crianças e cansaço passam a dominar noites e fins de semana.

Evie Rosset, psicóloga e docente na Universidade Anglia Ruskin, em Cambridge, sublinha que os mais novos - sobretudo estudantes - vivem num contexto raro. Campi partilhados, aulas e tempo livre criam oportunidades constantes para “esbarrar” em potenciais amigos. Ficar depois das aulas, ir de cafés para bares, ou simplesmente demorar-se nos corredores permite que as relações cresçam devagar, com pouco esforço.

Quando as rotinas adultas se impõem, essas janelas sem estrutura desaparecem. Os dias ficam talhados em reuniões, prazos, recados e tarefas domésticas. O planeamento torna-se utilitário: o que é absolutamente obrigatório fazer hoje? Nessa lista mental, a amizade acaba muitas vezes no fim.

“A vida adulta raramente deixa horas para simplesmente ‘andar por aí’ - mas são exatamente esses encontros repetidos e sem objetivo que criam amizades profundas.”

O custo em tempo de uma amizade a sério

Outra linha de investigação, publicada na Revista de Relações Sociais e Pessoais, tentou quantificar o esforço por detrás de um laço significativo. A conclusão sugere que são precisas cerca de 90 horas de tempo partilhado só para alguém passar de conhecido a amigo - e bastante mais para chegar ao patamar de amigo próximo.

Distribuídas por agendas adultas cheias, essas 90 horas podem levar meses, quando não anos, a acumular. Ao contrário da escola ou da universidade, onde se vêem as mesmas pessoas diariamente sem qualquer planeamento, as amizades adultas exigem marcação deliberada: cafés combinados, chamadas regulares, hobbies partilhados ou encontros ao fim de semana.

Esse nível de organização pode parecer desconfortável ou artificial, sobretudo quando existe medo de rejeição ou a ideia de que toda a gente já está socialmente “orientada”.

O que torna a amizade adulta diferente

Os psicólogos realçam que a amizade não se assemelha à família nem às relações românticas porque é, em grande medida, livre de obrigação explícita. Boris Charpentier, psicólogo clínico, descreve a amizade como um espaço raro de autenticidade, onde não há um papel formal a ditar como devemos agir.

“A amizade oferece um dos poucos espaços sociais em que ser totalmente você próprio não só é permitido como é esperado.”

Essa liberdade pode tornar as amizades particularmente reparadoras. Ser aceite sem condições fortalece a confiança e a sensação de segurança. Segundo clínicos, há três ingredientes centrais para manter amizades adultas saudáveis:

  • Autenticidade: Mostrar pensamentos e sentimentos reais, em vez de representar um papel.
  • Comunicação cuidadosa: Falar com honestidade sem perder de vista o ponto de vista da outra pessoa.
  • Escuta ativa: Ouvir de facto, não apenas esperar pela sua vez de falar.

Criar este tipo de relação não acontece sem esforço. Exige contacto repetido, abertura emocional e disponibilidade para partilhar momentos bons e maus. Muitos adultos, esgotados por exigências do trabalho e da família, acham esse investimento intimidante.

Porque é que os laços sociais importam para a felicidade e a saúde

Apesar do esforço, as ligações sociais parecem estar entre os melhores indicadores de bem-estar a longo prazo. O estudo mais duradouro sobre felicidade, conduzido pela Universidade de Harvard ao longo de mais de oito décadas, chega repetidamente à mesma conclusão: pessoas com relações calorosas e fiáveis tendem a viver mais, a sentir-se melhor e a lidar de forma mais eficaz com o stress.

Aspeto da vida Efeito de amizades fortes
Saúde mental Menor risco de depressão e ansiedade, maior resiliência após contratempos.
Saúde física Menor inflamação, melhor funcionamento do sistema imunitário, menor risco de mortalidade.
Satisfação com a vida Maior felicidade reportada e maior sentido de propósito.
Amortecimento do stress Maior capacidade para gerir pressões financeiras, profissionais ou familiares.

Por outras palavras, tratar a amizade como um “extra” opcional - encaixado quando tudo o resto estiver feito - entra em conflito com o que os dados indicam. Os laços sociais funcionam mais como um hábito básico de saúde, ao nível do sono, do movimento e da alimentação.

Porque tantos adultos se sentem socialmente bloqueados

Muitas pessoas no fim dos 20 e nos 30 descrevem uma sensação de estagnação social. Os círculos existentes podem parecer superficiais ou dispersos. Novas amizades surgem apenas nas margens do trabalho ou através das atividades escolares dos filhos. Vários obstáculos aparecem com frequência:

  • Medo de julgamento: Receio de que os outros os vejam como carentes ou desconfortáveis.
  • Desilusões passadas: Traições antigas ou afastamentos tornam as pessoas mais cautelosas.
  • Perfeccionismo: Esperar por amigos “ideais”, com interesses idênticos, em vez de aceitar ligações suficientemente boas.
  • Escassez de tempo: Falta real - ou sentida - de tempo livre limita a experimentação.

Estas barreiras psicológicas somam-se a entraves estruturais, como horários irregulares, trabalho por turnos ou mudanças frequentes, sobretudo em grandes cidades e em mercados de emprego mais precários.

Formas práticas de construir amizades depois dos 23

Embora os dados apontem para os 23 como um limiar mais desafiante, isso não significa que os vínculos próximos fiquem reservados a adolescentes e estudantes. O que muda é que a amizade passa do acidental para o intencional. Algumas estratégias podem ajudar:

  • Transformar ligações fracas já existentes - vizinhos, colegas, conhecidos do ginásio - em conversas ligeiramente mais profundas.
  • Organizar a semana em torno de um ou dois momentos sociais recorrentes, como uma aula, um clube ou uma caminhada partilhada.
  • Ser a pessoa que propõe, de facto, hora e local, em vez de ficar pelo vago “temos de combinar”.
  • Aceitar que a amizade costuma crescer devagar e de forma irregular; um início um pouco estranho não dita o resultado final.

Psicólogos falam muitas vezes de “aptidão social”: a noção de que as relações, tal como os músculos, respondem melhor a pequenos esforços regulares do que a grandes gestos raros. Uma mensagem de voz rápida, um meme enviado a um amigo ou uma chamada de 15 minutos no carro podem contar para essas 90 horas tão significativamente quanto um jantar prolongado.

Termos-chave e cenários do dia a dia

Duas expressões usadas com frequência na investigação sobre relações na idade adulta merecem ser clarificadas:

  • Capital social: A rede de pessoas a quem pode recorrer para conselhos, ajuda ou apoio emocional. Um capital social mais elevado tende a prever melhor saúde e melhores perspetivas de emprego.
  • Solidão: Não é apenas estar sozinho, mas sentir que as relações não têm profundidade ou fiabilidade.

Imagine uma pessoa de 28 anos que já mudou de cidade duas vezes por causa do trabalho. Os amigos da universidade vivem noutras localidades e a conversa de circunstância no escritório nunca chega a transformar-se em ligação real. Mesmo indo a copos depois do trabalho, volta para casa com a sensação de ser invisível. Pode ter a agenda cheia, mas pouco capital social e muita solidão.

Compare com um pai ou mãe na casa dos 40 que vê o mesmo grupo no parque infantil todas as semanas. Com o tempo, partilham preocupações, trocam conselhos e, ocasionalmente, encontram-se sem as crianças. O calendário está cheio, mas existem várias pessoas a quem podem mandar mensagem quando algo corre mal. A diferença não está em quantas pessoas conhecem, mas em quão seguras e recíprocas essas ligações parecem.

Riscos de ignorar a amizade - e os benefícios discretos de pequenos passos

Investigadores em saúde pública já assinalam a solidão crónica como um fator de risco comparável a fumar vários cigarros por dia. O isolamento social prolongado associa-se a tensão arterial mais elevada, problemas de sono e aumento do risco de morte prematura.

A outra face é animadora: até passos sociais modestos podem alterar a trajetória. Entrar num grupo local, iniciar um ritual semanal curto com um conhecido, ou ser um pouco mais aberto nas conversas pode, ao longo de meses, ajudar a sair daquele “afundanço” aos 23 e caminhar para uma rede mais estável. A ciência não diz que a amizade se torna fácil depois de certa idade; sugere que o esforço, sobretudo após o início dos 20, compensa de formas que vão muito além de uma lista de contactos cheia.

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