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Os groenlandeses acusam cientistas do clima de alarmismo, enquanto orcas rodeiam blocos de gelo a colapsar e políticos exploram o caos.

Homem num barco aponta para glaciares em derrocada com orcas na água, enquanto equipa de filmagem regista a cena.

O gelo marinho estalava como porcelana antiga sempre que o barco avançava uns centímetros. Ao longe, barbatanas dorsais negras rasgavam a água cinzenta‑aço, descrevendo círculos em torno de um bloco de plataforma de gelo partido - que, diziam os habitantes, antes era “rígido como o chão de uma igreja”. Um pescador gronelandês chamado Jon apoiava-se na amurada, olhos semicerrados, a observar as orcas a trabalharem a borda do bloco, à espera de que uma foca escorregasse. Atrás dele, uma equipa de filmagens vinda de fora registava tudo ao segundo, à caça de frases fortes sobre o “apocalipse no topo do mundo”.

Em terra, cartazes das eleições locais batiam em postes metálicos, sacudidos pelo vento, todos com variações do mesmo refrão: caos climático, votar na ordem.

É nesse contraste que, aqui, a discussão realmente se acende.

Quando o gelo vira cenário para as histórias de outras pessoas

Numa tarde luminosa de agosto, em Ilulissat, a claridade parece quase irreal. A baía está cheia de pedaços de gelo, como uma cidade depois de uma explosão, e nos intervalos entre as placas as orcas abrem corredores rápidos, atraindo telemóveis de turistas como se fossem ímanes. Sempre que uma barbatana aparece perto de uma frente de desmoronamento, alguém suspira, alguém grava, alguém murmura “alterações climáticas”, como se estivesse a dar nome a um fantasma.

Para muitos gronelandeses, no entanto, essa cena começou a soar a espetáculo escrito por desconhecidos: a casa transformada em pano de fundo, a vida reduzida a imagens de apoio para títulos dramáticos.

No porto, a mensagem chega depressa. Um jovem caçador, Peter, encolhe os ombros enquanto tira carne de foca do barco; a poucos metros, uma equipa estrangeira de documentário entrevista um cientista. O investigador fala de “colapso iminente” e de “pontos de viragem”, apontando para o gelo como se já tivesse desaparecido.

Mais tarde, à mesa de uma cozinha pequena com cheiro a peixe e sabão da roupa, Peter percorre o telemóvel e mostra um excerto da mesma baía, montado para redes sociais: orcas a rodear “um glaciar a morrer”, com texto sobre “a Gronelândia à beira do precipício”. Ele ri-se, mas a mandíbula fica tensa. “Falam como se fôssemos os primeiros a desaparecer”, diz. “Nós ainda estamos aqui. Não somos figurantes.”

O que mais irrita, dizem muitos habitantes, não é que o clima esteja a mudar. Eles veem-no diariamente: gelo mais fino, estações imprevisíveis, espécies novas a entrarem nos fiordes. O que incomoda é a linguagem de catástrofe enfiada em todos os microfones - o tom de contagem decrescente, como se nada no mundo deles sobrevivesse ao próximo ciclo noticioso.

Ouvem palavras como “colapso” e “fim do mundo” e sentem algo a torcer por dentro. A adaptação do dia a dia - o trabalho de reaprender o mar - nunca cabe num segmento de 90 segundos. A história que viaja é sempre a que leva mais pânico por minuto.

Entre o medo e a sobrevivência na Gronelândia: como se vive, de facto, com o gelo a derreter

Passe alguns dias numa povoação costeira e percebe que o guião é outro. As pessoas ajustam-se, improvisam, testam trajetos novos sobre gelo mais frágil, com passos cuidadosos e conhecimento antigo. Um motor de barco engasga e pega um mês mais cedo do que há dez anos, porque a rota de inverno em trenó já parece arriscada demais. As crianças aprendem a ler aplicações de meteorologia ao mesmo tempo que aprendem a ler o vento.

O gesto prático que se vê por todo o lado é este: recalcular sem parar. Onde é seguro caçar hoje. Onde dá para pescar. Como cruzar imagens de satélite, conselhos dos mais velhos e a cor da água, agora mesmo.

O maior erro, dizem os locais, é pensar em extremos: ou o apocalipse total, ou a negação completa. Muitos gronelandeses ficam num meio-termo mais confuso. Não rejeitam a ciência do clima, mas resistem quando sentem que lhes impõem um texto por cima da cabeça.

Em Nuuk, uma mulher mais velha, Anna, conta-me sobre um painel de televisão em que participou. Falou de como a família passou da caça com trenós puxados por cães para pequenos barcos; de como andavam a testar novas pescarias; de como o neto aprendia tanto programação como trabalho com pele de foca. “Cortaram isso tudo”, diz ela. “Ficaram só com a parte em que eu chorei pelos velhos tempos.” E acrescenta, em voz baixa: “Não estamos só a perder coisas. Também estamos a aprender maneiras novas.”

Aquilo a que os cientistas chamam “sinais de alerta precoce” coincide muitas vezes com o trajeto diário de alguém - ou com o seu lugar de caça. Essa realidade dupla alimenta a irritação com o que alguns chamam alarmismo (“fearmongering”). Quando um grupo de orcas junto a uma plataforma a desfazer-se vira, na televisão internacional, um símbolo de colapso, quem conduz barcos por esse mesmo canal pergunta-se quem tem o direito de definir o risco - e em que horizonte temporal.

Sejamos francos: quase ninguém vive como se cada dia fosse o último antes de um ponto de viragem. Vive-se como se amanhã ainda houvesse escola, mais uma ida à pesca, mais um cartaz eleitoral para arrancar ou voltar a pendurar. A tensão está exatamente aí - entre modo sobrevivência e modo alarme - e não cabe bem num tweet.

Como a política se alimenta do pânico enquanto as pessoas pedem outra coisa

Caminhe por Nuuk em época de campanha e os slogans sobre clima aparecem em todo o lado - mas não significam todos o mesmo. Um partido promete “defender a Gronelândia do colonialismo verde estrangeiro”, acusando ONG e investigadores de fora de usarem a ilha como cartaz moral. Outro desfila planos polidos para hidrogénio verde e mineração de terras raras, embrulhados em frases sobre “transição urgente” e “última oportunidade de prosperidade”.

O truque é fino: o medo do gelo a derreter transforma-se facilmente no medo de ficar para trás. Os políticos sabem converter plataformas a desmoronar e orcas a circular em argumentos para votos, contratos ou licenças aceleradas.

As pessoas falam de um tipo específico de cansaço. Não é exaustão por ouvirem falar de alterações climáticas; é saturação por lhes dizerem que o pânico é a única emoção responsável. Uma professora em Ilulissat diz que os alunos passam por mais um vídeo de pores do sol vermelhos sobre gelo fraturado e perguntam: “Então o que é suposto fazermos, só ter medo?”

É aí que aparece uma resistência mais silenciosa: recusar que cada rangido do glaciar seja imediatamente traduzido em drama. Recusar que o medo seja a única moeda do debate público. Os gronelandeses conhecem a urgência - vivem-na quando uma tempestade entra mais depressa do que a previsão, ou quando a época de caça vira do avesso sem aviso. Só não querem que o risco diário deles se transforme no suspense interminável de outra pessoa.

Uma ativista local, que colabora muitas vezes com cientistas, resumiu assim:

“Não queremos menos ciência, queremos menos teatro. Digam a verdade, mas parem de falar como se já fôssemos fantasmas.”

À volta das mesas da cozinha, surgem três pedidos, repetidos quase como uma pequena lista de verificação:

  • Vozes locais no ecrã quando se fala de gelo, orcas ou “colapso”
  • Explicações simples do que se sabe, do que se estima e do que ainda é incerto
  • Financiamento climático e projetos de investigação que deixem ferramentas reais ou formação no terreno

Não são exigências teatrais. São pedidos de respeito - e uma tentativa de trocar o medo como espetáculo pelo risco como algo com que as comunidades possam, de facto, trabalhar.

Viver com uma crise lenta num mundo de notícias rápidas

Fique tempo suficiente em cima de uma frente de desmoronamento e nota algo que a maioria dos vídeos virais ignora: longos, aborrecidos intervalos em que nada acontece. Depois, de repente, um estrondo como um trovão, uma parede de gelo dobra-se, e toda a gente à sua volta agarra no telemóvel. A nossa atenção está programada para o drama, e a narrativa climática na Gronelândia foi sendo moldada para caber nesse reflexo.

Quem vive aqui não pode desligar entre os momentos “bons para câmara”. As crianças continuam a precisar de internet, os barcos continuam a precisar de combustível, os mais velhos continuam a precisar de comida entregue através de gelo instável. Querem que o mundo compreenda o que está em jogo sem transformar a sua casa num filme permanente de catástrofe.

Muitos gronelandeses com quem falei não rejeitam a ciência; rejeitam a banda sonora. Pedem uma história mais lenta e mais constante, que respeite ao mesmo tempo o risco e a resiliência. Uma história em que orcas a circular junto de uma plataforma de gelo em colapso não sejam apenas símbolos de desgraça, mas parte de um ecossistema complexo e em mudança, que as pessoas tentam interpretar, dia após dia.

Eles sabem que o gelo está a mudar. Não pedem a ninguém que desvie o olhar. Pedem um olhar capaz de segurar pânico e paciência ao mesmo tempo, sem correr sempre para a palavra mais alta. É uma história mais difícil de contar - mas mais verdadeira de viver.

Ponto‑chave Detalhe Valor para o leitor
Raiva local com a “fala do medo” Os gronelandeses sentem que a sua vida é usada como cenário de desastre para campanhas climáticas e para os media Ajuda a questionar narrativas climáticas sensacionalistas e a procurar vozes locais
Política a explorar o caos climático Partidos transformam gelo a derreter e orcas em argumentos para votos, negócios de mineração ou slogans nacionalistas Mostra como o medo climático pode ser instrumentalizado em debates democráticos em todo o mundo
Para lá de pânico vs. negação Comunidades equilibram adaptação, tradição e ferramentas modernas, em vez de viverem em modo apocalipse permanente Oferece uma forma mais próxima da realidade para pensar como é viver com alterações climáticas a longo prazo

Perguntas frequentes (FAQ)

  • Os gronelandeses estão a negar as alterações climáticas? A maioria não. Vêem as mudanças todos os dias, do gelo mais fino às alterações nos padrões dos animais. O que muitos criticam é a dramatização do tom, a conversa constante de colapso total que apaga os seus esforços para se adaptar e permanecer.
  • Porque é que as orcas entraram de repente nesta história? As orcas tornaram-se uma imagem forte: barbatanas negras contra gelo branco a desfazer-se, perfeita para manchetes dramáticas. Refletem, sim, ecossistemas em mudança, mas os locais dizem que o foco nas orcas muitas vezes tapa transformações mais profundas e diárias nas pescarias e nas rotas de caça.
  • Os cientistas fazem mesmo alarmismo (“fearmongering”), ou isso é enquadramento dos media? Alguns investigadores usam linguagem muito forte, sobretudo em entrevistas, mas grande parte da amplificação acontece nas salas de edição e nas redações. Os gronelandeses tendem a responsabilizar a cadeia toda: agências de financiamento, media, ONG e, só depois, cientistas individuais.
  • Como é que os políticos estão a explorar a situação? Ao ligar o medo do clima a promessas de dinheiro rápido, fronteiras mais rígidas ou a ideia de “salvar” a Gronelândia com mineração e mega‑projetos. O gelo a derreter vira um ponto de conversa para justificar políticas que podem nem ajudar as comunidades locais a adaptar-se.
  • O que dizem os gronelandeses que querem em vez disso? Pedem decisões partilhadas sobre investigação, conversa honesta sobre incerteza, investimento em competências locais e narrativas que mostrem tanto a perda como a engenhosidade. Menos drama, mais parceria - e o reconhecimento de que não são apenas vítimas num palco a derreter.

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