Saltar para o conteúdo

Cientistas geram polémica ao sugerir que salvar espécies em risco pode já não justificar o custo.

Homem com tablet realiza estudo estatístico ao lado de rinoceronte numa savana.

A fotografia que incendiou as reacções parecia, à primeira vista, quase irreal. Um rinoceronte-de-sumatra, com as costelas apenas a sobressair, o focinho encostado às grades de um curral veterinário, enquanto um grupo de cientistas se juntava, ali ao lado, em volta de um computador portátil. Não havia legendas sobre esperança, nem um apelo do género “última oportunidade para salvar uma espécie”. Só uma frase asséptica por baixo: “A análise custo–benefício sugere recuar em alguns esforços de conservação.”

Em poucas horas, a imagem estava por todo o lado. No X, no Facebook, e nos grupos de família no WhatsApp - aqueles em que primos que nunca conversam, de repente, tinham muito a dizer sobre ecologia e dinheiro.

No meio do ruído, uma pergunta atravessava tudo com uma frieza difícil de suportar:

E se salvar certas espécies ameaçadas deixar de justificar o preço?

Quando a conservação se transforma num cálculo frio

A faísca veio de um grupo de investigadores que fez aquilo que os investigadores fazem: pôs números em cima da mesa.
Compararam o dinheiro gasto todos os anos com alguns dos animais mais raros do planeta com o número de indivíduos restantes, o risco de extinção e as probabilidades de “sucesso”.

Depois verbalizaram aquilo que, normalmente, fica por dizer. Sugeriram que há espécies tão perto do desaparecimento que continuar a despejar milhões na sua protecção pode ser um “mau uso de recursos limitados”.

No papel, isto parece razoável. No ecrã, ao lado do rosto de um rinoceronte ou de um papagaio com apenas dois parceiros vivos na Terra, soa a murro no estômago.

Um caso voltava repetidamente nas entrevistas: o rinoceronte-branco-do-norte.
Restam duas fêmeas vivas, ambas inférteis, a viver sob guarda armada no Quénia. Os cientistas tentam recuperar a espécie através de fertilização in vitro, células estaminais e embriões desenvolvidos em laboratório - procedimentos que podem custar tanto como um apartamento de luxo.

Alguns economistas olham para esse esforço e respondem: com essas dezenas de milhões, seria possível restaurar sistemas fluviais inteiros, proteger florestas que armazenam carbono ou financiar projectos comunitários que, de uma só vez, salvam dezenas de outras espécies.
Numa folha de cálculo, a escolha torna-se brutal: dois rinocerontes ou milhares de outros seres vivos.

Essa lógica enfurece quem não vê os rinocerontes como uma linha de orçamento, mas como uma promessa que já falhámos em cumprir.

O que estes cientistas, na prática, estão a promover é uma mudança desconfortável: passar de histórias de resgate heroico para a ideia de triagem.
Num serviço de urgência, os médicos por vezes têm de decidir quem recebe o último ventilador ou quem é tratado primeiro. A nova argumentação na conservação pega nessa mesma clareza impiedosa.

Os recursos não são infinitos. O cansaço dos doadores existe. Os governos assinam compromissos que, no ano seguinte, ignoram discretamente.
Por isso, um grupo cada vez maior defende a “triagem na conservação”: aceitar que algumas espécies estão, na prática, perdidas e redireccionar o dinheiro para onde as probabilidades de sobrevivência são mais altas.

Sejamos francos: ninguém quer ser a pessoa que dá luz verde a deixar uma espécie desaparecer.
Ainda assim, é exactamente esse cenário que este debate recente traz para a praça pública.

Como se coloca um preço numa espécie viva?

Por trás da indignação, há um método muito concreto.
As equipas recorrem a modelos que atribuem valor económico aos “serviços dos ecossistemas”: polinização, controlo de cheias, turismo, e até benefícios para a saúde mental associados ao simples facto de sabermos que ainda existem animais selvagens algures.

Depois colocam isso ao lado do custo de patrulhas anti-caça furtiva, centros de reprodução, reservas vedadas, colares de monitorização de alta tecnologia, processos legais.
Algumas espécies parecem “bons investimentos” porque ajudam a proteger florestas, atraem turistas ou ocupam um papel crucial no ecossistema. Outras ficam, sem rodeios, com o rótulo de caras e isoladas.

É aqui que nasce o escândalo: transformar uma linhagem viva e respirante numa espécie de carteira de acções biológica. Como se um tigre fosse um activo de alto risco e uma abelha uma acção de primeira linha.

E os valores podem ser vertiginosos.
Uma avaliação de 2023 de uma equipa europeia de investigação, por exemplo, sugeriu que o custo de impedir completamente a extinção de todas as espécies ameaçadas conhecidas chega a dezenas de milhares de milhões de dólares por ano. Não uma vez, mas todos os anos.

Quando se compara isso com o investimento global em conservação, o buraco é enorme.
Daí que alguns cientistas insistam que é preciso priorizar. Concentrar-se em “espécies-chave”, como lobos ou grandes herbívoros, que moldam paisagens inteiras. Ou em “espécies guarda-chuva”, como as onças, cuja protecção acaba por resguardar dezenas de outras.

Os críticos respondem com outros números: despesas militares, subsídios aos combustíveis fósseis, benefícios fiscais para grandes empresas.
Do ponto de vista deles, o problema não é a conservação ser demasiado cara. O problema é que as nossas escolhas políticas fazem com que salvar a vida na Terra pareça um projecto de luxo.

O debate também esconde um incómodo mais silencioso: quem tem legitimidade para decidir quais as espécies que valem a pena salvar.
Uma parte importante da indignação inicial veio de países do Sul Global, onde a biodiversidade é maior, mas os orçamentos são mais curtos. Há responsáveis cansados de sermões vindos de nações ricas que já eliminaram os seus próprios lobos e ursos e, depois, enviam apoios com condições.

Alguns conservacionistas notam que, quando investigadores ocidentais falam de “custo–benefício”, raramente contabilizam o peso cultural de uma espécie.
O último golfinho de rio para uma aldeia amazónica não é o mesmo que um “ponto de dados” abstracto num escritório em Londres.

Por trás das equações, há uma pergunta mais funda que nenhuma calculadora resolve:
o que é que isso faz a nós, enquanto sociedade, sabermos que deixámos uma espécie desaparecer porque a factura era demasiado alta?

Entre o realismo e a dor: a triagem na conservação no terreno

No terreno, guardas florestais, biólogos de campo e comunidades locais já vivem dentro desta matemática impossível.
Um gestor de parque em Madagáscar contou a um jornalista que tem financiamento para patrulhar apenas metade da reserva. Sabe que os caçadores furtivos entram na zona sem vigilância durante a noite e sabe que, desse lado, os lémures estão a desaparecer.

Por isso, de forma discreta, prioriza áreas de nidificação de espécies com melhores probabilidades ou com apoio mais forte por parte dos doadores.
Os restantes cantos da floresta ficam com menos patrulhas, menos câmaras e mais dedos cruzados.

Isto não é uma decisão sem coração. É triagem feita após anos à espera do “grande financiamento” que nunca chega.

Quando as redes sociais explodem de raiva contra cientistas, muitos dos que trabalham no terreno sentem-se mal compreendidos.
Não estão a festejar extinções. Estão exaustos de fingir que é possível salvar toda a gente com o dinheiro que existe actualmente.

Isso também não significa que as apostas sejam sempre certas. Espécies dadas como perdidas às vezes surpreendem.
Os furões-de-patas-negras nos Estados Unidos, em tempos declarados extintos na natureza, regressaram a partir de um pequeno grupo em cativeiro. O condor-da-califórnia desceu a 27 aves em 1987; hoje existem centenas.

Todos já estivemos nesse ponto em que olhamos para um problema enorme e caótico e pensamos: “Não consigo resolver tudo, por isso por onde é que começo?”
O risco é essa sensação transformar-se em política: uma rendição silenciosa mascarada de eficiência.

Alguns investigadores pedem outro tipo de conversa.
Não uma conversa sobre desistir, mas sobre sermos implacavelmente claros quanto ao que trocamos quando escolhemos um caminho em vez de outro.

“Cada extinção é uma história de escolhas”, diz o biólogo indiano de conservação Rohan Bhatt. “Algumas são escolhas que fizemos directamente, como drenar uma zona húmida. Outras são escolhas que fizemos ao desviar o olhar, ao financiar um projecto em vez de outro, ou ao decidir que o valor de uma criatura termina onde deixa de ser medível em dólares.”

Eles propõem três perguntas que qualquer pessoa pode manter em mente quando pensa nestes debates:

  • Que acções protegem não apenas uma espécie, mas habitats inteiros?
  • Quem vive com esta espécie todos os dias e o que é que ela significa para essas pessoas?
  • O que é que vamos lamentar mais daqui a 50 anos: o dinheiro gasto ou o silêncio onde antes existia uma voz selvagem?

Um futuro em que alguns animais só existem na memória?

A parte mais inquietante desta história não são as folhas de cálculo.
É a ideia de que nos possamos habituar à linguagem de “perda aceitável” quando falamos de seres vivos que evoluíram ao longo de milhões de anos.

Depois de aceitarmos que certas espécies estão “demasiado perdidas para serem salvas”, o que nos impede de fazer essa chamada um pouco mais cedo na próxima vez, quando o orçamento apertar e as eleições estiverem à porta?
Em que momento a triagem deixa de ser um último recurso doloroso e passa a ser rotina?

Há ainda um choque cultural que ninguém consegue modelar a sério.
Crianças que crescem num mundo onde certos animais só existem em vídeos e em gavetas de museu herdarão não apenas um planeta diferente, mas uma história diferente sobre aquilo que os humanos se permitem apagar.

Para alguns, a resposta é reforçar o realismo: concentrar-se em habitats, clima e comunidades locais, em vez de animais “cartaz” com olhos tristes.
Para outros, perder sequer uma espécie por decisão financeira consciente é cruzar uma linha moral que muda quem somos.

Ambos os lados suspeitam que estão a defender algo frágil: uns, a integridade da ciência e a coragem de escolhas difíceis; outros, a convicção de que há coisas que nunca deviam ter preço.
A conversa está longe de ficar encerrada - e talvez nunca fique.

Talvez este seja o verdadeiro teste do nosso tempo: não apenas se conseguimos, do ponto de vista técnico, salvar espécies, mas se escolhemos fazê-lo, mesmo quando o custo parece absurdo no papel e absolutamente necessário no coração.

Ponto-chave Detalhe Valor para o leitor
A triagem na conservação está a entrar no debate dominante Alguns cientistas defendem transferir recursos de espécies quase perdidas para outras com melhores probabilidades Ajuda a perceber porque é que as discussões sobre “valer a pena salvar” estão, de repente, em todo o lado
A lógica económica choca com o instinto moral Modelos de custo–benefício têm dificuldade em captar significado cultural e impacto emocional Dá ao leitor linguagem para questionar argumentos sobre a natureza baseados apenas em finanças
As escolhas já estão a acontecer, em silêncio Guardas e gestores no terreno priorizam espécies e habitats sob orçamentos apertados Mostra que não é apenas teoria e convida o leitor a pensar no seu próprio papel nessas escolhas

Perguntas frequentes:

  • Pergunta 1 Os cientistas estão mesmo a dizer que devemos deixar algumas espécies extinguir-se?
  • Pergunta 2 O que significa, na prática, “triagem na conservação”?
  • Pergunta 3 Como é que os investigadores decidem que espécies “valem” o custo?
  • Pergunta 4 Há alguma alternativa a estas trocas económicas tão duras?
  • Pergunta 5 O que pode fazer uma pessoa comum se discordar desta abordagem?

Comentários

Ainda não há comentários. Seja o primeiro!

Deixar um comentário