Ver um McLaren F1 surgir num leilão já é, por si só, algo raro - mas o exemplar vendido pela RM Sotheby’s elevou a fasquia. Não apenas pelo montante alcançado - 25 317 500 dólares (cerca de 23,29 milhões de euros), o valor mais alto alguma vez pago por um automóvel em leilão - como também pelo conjunto muito particular de atributos que o levaram a esse estatuto.
Em automóveis clássicos, há variáveis que tendem a empurrar o preço para cima: por um lado, a exclusividade (quantas unidades existem e como foram configuradas); por outro, o passado do exemplar (ano de fabrico, estado, historial de propriedade e tudo aquilo a que já terá «assistido»).
No caso do F1 das imagens, estes dois fatores parecem ter atingido uma escala pouco comum. E é precisamente por isso que este leilão esteve longe de ser apenas mais um. Muito longe, aliás.
Trata-se do chassis #014, um de apenas 64 McLaren F1 de estrada produzidos. Saiu de Woking em 1994, com a carroçaria em Amarelo Titânio e um interior em pele e Alcantara preta - uma combinação que, só por si, já o coloca num território especialmente raro.
A isto soma-se outro detalhe decisivo: foi encomendado diretamente pela família real do Brunei, passando a integrar uma coleção gigantesca e envolta em mistério, frequentemente apontada como uma das mais extravagantes do mundo.
Ao contrário de outros automóveis dessa coleção, que ficaram anos parados, o F1 #014 teve um percurso diferente. Foi matriculado e manteve-se a circular, escapando ao destino de muitos modelos guardados e esquecidos em garagens discretas.
Ainda nos primeiros anos, ganhou também a assinatura de Michael Schumacher numa das soleiras das portas - um pormenor quase mitológico no universo dos supercarros dos anos 90.
Mais tarde, decidiu-se que este exemplar deveria sair da coleção, tendo sido exportado de forma discreta para o Reino Unido. Mesmo assim, a narrativa deste McLaren F1 estava longe de terminar.
Uma segunda vida do McLaren F1 #014
Já em território britânico, o chassis #014 encontrou novo rumo. A compra foi intermediada por David Clark, antigo diretor da McLaren Cars e figura-chave no acompanhamento e preservação deste tipo de modelos.
Depois de uma primeira revisão completa realizada em Woking, atravessou o Atlântico e passou por coleções em Nova Iorque e na Califórnia. Ao longo desse período, foi sempre mantido pela divisão oficial da BMW na América do Norte, responsável pela assistência aos F1 nesse mercado.
Em 2006, com apenas 3224 milhas (5188 km), foi comprado por um colecionador determinado a transformá-lo num dos F1 mais marcantes de sempre. Assim, em 2007, o #14 regressou às instalações da marca, em Woking, para uma reconstrução integral cujo custo ficou muito perto de meio milhão de euros.
A pintura amarela deu lugar ao Branco Íbis, e foi instalado o raríssimo kit de elevada carga aerodinâmica (HDF) - um elemento presente em apenas oito F1. Este pacote reúne componentes inspirados nos F1 GTR e LM, incluindo uma asa traseira fixa, um para-choques dianteiro específico com um separador aerodinâmico e as conhecidas aberturas nas cavas das rodas.
No interior, também houve uma conversão para a especificação LM, com a montagem de um novo banco para o condutor, maior presença de fibra de carbono à vista e um sistema de ar condicionado atualizado.
O conjunto ficou fechado com jantes OZ Racing de cinco raios, um sistema de iluminação revisto e um escape atualizado. No final do trabalho, o F1 recebeu a assinatura de Lewis Hamilton, então estreante na McLaren.
Um «novo» McLaren F1
Seguiu-se mais de uma década de utilização em solo norte-americano, levando o conta-quilómetros para perto dos 20 000 km. Em 2018, foi feita uma revisão particularmente extensa, que incluiu até a substituição do depósito de combustível.
Hoje, com 22 066 km já percorridos (em 31 anos), o chassis #14 foi a leilão acompanhado pelas ferramentas originais Facom e por um historial verdadeiramente singular. O desfecho foi a venda referida no início e um sinal claro de que este é, talvez, o McLaren F1 mais cobiçado do mundo.
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