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Poucos conhecem esta empresa francesa, mas foi a primeira no mundo a produzir hidrogénio verde diretamente a partir de turbinas eólicas.

Mulher com colete refletor numa estação de abastecimento de hidrogénio com camião e turbina eólica ao fundo.

Longe dos CEOs tecnológicos celebridades e dos megaprojectos vistosos, uma empresa francesa de média dimensão conseguiu pôr no terreno aquilo de que os gigantes da energia falavam há anos: produzir hidrogénio verde certificado diretamente a partir de energia eólica, à escala industrial, e fornecê-lo a autocarros, camiões e fábricas reais - em vez de ficar por apresentações bonitas em PowerPoint.

A pioneira francesa pouco conhecida do eólico-para-hidrogénio: a Lhyfe

A empresa chama-se Lhyfe. Fora de França, o nome ainda diz pouco a muita gente, mas o que está a fazer começa a ser citado como caso de referência para os planos climáticos europeus.

O hidrogénio verde obtém-se através da separação da água em hidrogénio e oxigénio, recorrendo a eletricidade de origem renovável, como a eólica ou a solar. Depois de produzido, o gás pode substituir combustíveis fósseis em aplicações onde as baterias têm mais dificuldade: indústria pesada, camiões de longo curso, navegação, comboios e grandes frotas de autocarros.

A Lhyfe não inventou a eletrólise. A diferença está na forma como a tecnologia é implementada no terreno. Em vez de instalar eletrolisadores gigantescos longe das fontes de energia e longe dos clientes, aposta em unidades compactas posicionadas perto de ambos. Assim, reduz perdas no transporte, custos de ligação à rede e burocracia.

A abordagem da Lhyfe é simples: colocar unidades de produção junto de parques eólicos ou solares, e também junto das fábricas, garagens e estações que realmente precisam do gás.

Uma estreia mundial na costa atlântica

Desde 2021, a Lhyfe opera uma instalação em Bouin, na região da Vendée, na costa atlântica francesa. À primeira vista, parece um projeto discreto. Na prática, representa uma estreia mundial: uma unidade alimentada por vento que produz hidrogénio verde de forma totalmente autónoma.

A unidade está perto de turbinas eólicas em terra, capta a eletricidade diretamente delas e converte-a em hidrogénio todos os dias. Aqui não há simulações nem ambiente de laboratório. O sistema tem de lidar com ar salgado, variações do vento, janelas de manutenção e a logística do mundo real.

Este demonstrador transformou-se numa plataforma de testes para um novo tipo de infraestrutura energética. Permite observar como os eletrolisadores reagem a uma produção eólica variável, que métodos ajudam a estabilizar a produção e como planear entregas para clientes que exigem abastecimento fiável.

Perto de Chambéry: 400 kg de hidrogénio verde por dia para autocarros

No leste de França, nas proximidades de Chambéry, em Isère, a Lhyfe está a avançar com outro projeto central. Com apoio de financiamento europeu, a unidade deverá produzir cerca de 400 quilogramas de hidrogénio verde por dia a partir de 2026.

O gás irá abastecer frotas regionais de autocarros, permitindo às autarquias reduzir o consumo de gasóleo sem terem de esperar por infraestruturas novas e dispendiosas. A lógica é que, uma vez criada uma estação base, mais veículos podem transitar para esta solução e podem juntar-se outros utilizadores - como plataformas logísticas ou veículos municipais.

A Lhyfe descreve este conceito como uma cadeia de abastecimento territorial: unidades relativamente pequenas, mas bem localizadas, cada uma ancorada numa rede local de transportes e indústria.

  • Localização: perto de Chambéry, Isère, sudeste de França
  • Meta: cerca de 400 kg de hidrogénio verde por dia
  • Utilização principal: frotas regionais de autocarros e mobilidade local
  • Apoio: financiamento europeu e parceiros regionais

Em vez de um mega-hub de hidrogénio a alimentar meio continente, a Lhyfe aposta numa malha densa de locais mais pequenos e descentralizados, próximos dos utilizadores finais.

2026: quando a economia começa a pesar

Até agora, muitos projetos de hidrogénio verde foram avaliados sobretudo pela ambição e pelo simbolismo. A partir de 2026, a equação financeira torna-se mais exigente - e a Lhyfe está consciente disso.

A empresa definiu um objetivo difícil: reduzir os custos de produção em 30%. Isso não será alcançado com uma única instalação “brilhante”, mas sim com um trabalho contínuo de otimização.

De “crescer a qualquer custo” para afinar o que já está no terreno

A Lhyfe está a deslocar parte do foco do anúncio de novos locais para a melhoria do desempenho dos que já existem. Isso passa por:

  • Aumentar a eficiência e a durabilidade dos eletrolisadores
  • Partilhar infraestruturas entre unidades próximas, quando fizer sentido
  • Automatizar operações e monitorização para diminuir custos de pessoal
  • Afinar a logística e a gestão de cilindros/transporte

A redução dos custos da energia eólica e solar ajuda, uma vez que a eletricidade é o principal componente do preço final do hidrogénio verde. Em paralelo, a Lhyfe procura contratos de compra de longo prazo com autarquias e clientes industriais, para conseguir planear investimentos com horizonte de vários anos.

Até ao final de 2026, a empresa pretende ter 11 locais em operação ou em construção na Europa, com uma meta conjunta de cerca de 80 toneladas por dia. No horizonte mais longo, o roteiro aponta para até 9,8 gigawatts de capacidade instalada até 2030, caso o mercado e o apoio político se mantenham.

Uma peça-chave no puzzle europeu do hidrogénio

A União Europeia deixou de encarar o hidrogénio verde como uma aposta longínqua. Bruxelas definiu uma meta de 40 gigawatts de capacidade de eletrolisadores até 2030, para produzir cerca de 10 milhões de toneladas de hidrogénio verde por ano, esperando-se mais 10 milhões de toneladas através de importações.

O objetivo é usar este gás para descarbonizar aço, químicos, refinação e transportes difíceis de eletrificar. Não se trata apenas de trocar combustíveis: grandes segmentos da indústria europeia terão de alterar equipamentos, processos e contratos de fornecimento.

As novas regras - em particular a diretiva RED III - aumentam a pressão sobre a indústria pesada para mudar. As metas apontam para fontes baseadas em hidrogénio cobrirem 42% do consumo energético industrial até 2030, subindo para 60% até 2035.

O apoio da UE já totaliza cerca de 20 mil milhões de euros através de vários fundos e mecanismos, sinalizando que o hidrogénio verde deixou de ser um projeto opcional e secundário.

As metas de França e o choque com a realidade

A França pretende instalar 4,5 gigawatts de eletrolisadores até 2030 e 8 gigawatts até 2035. Isso permitiria produzir aproximadamente 520 000 toneladas de hidrogénio de baixo carbono por ano.

No terreno, porém, a realidade ainda é bastante mais contida. Até 2024, estavam efetivamente instalados apenas cerca de 308 megawatts. A diferença ilustra como é difícil transformar estratégias nacionais em centrais concretas, licenças e contratos com clientes.

Empresas como a Lhyfe estão no centro desta tensão. Precisam de apoio público para os primeiros projetos, mas também têm de provar que o modelo se sustenta por si. Os próximos anos vão mostrar se o hidrogénio verde descentralizado consegue escalar sem fazer disparar os custos.

Uma estação de autoestrada para camiões antecipa uma nova era no transporte de mercadorias

Já existe um projeto que dá pistas de como poderá ser o transporte de mercadorias descarbonizado no dia a dia. Desde novembro de 2025, a Lhyfe fornece hidrogénio à primeira área de serviço de autoestrada em França dedicada a veículos pesados de mercadorias.

Explorada pela TEAL Mobility na A4, na região Grand Est, a estação consegue distribuir cerca de uma tonelada de hidrogénio por dia. Com dispensadores de 350 bar e 700 bar, consegue abastecer tanto camiões articulados como veículos mais leves.

A escolha do local não é por acaso. A A4 liga diretamente a Alemanha, o Luxemburgo e a Bélgica - corredores logísticos de grande peso. Na prática, a estação funciona como uma porta de entrada do hidrogénio entre a Europa ocidental e a central.

A Lhyfe entrega gás certificado segundo a norma RFNBO da UE, que define de forma rigorosa que hidrogénio pode ser rotulado como renovável e contabilizado para as metas europeias. Nos bastidores, uma frota com mais de 70 contentores de alta pressão e quatro locais de produção certificados RFNBO em França e na Alemanha asseguram a continuidade da cadeia de abastecimento.

Porque o hidrogénio verde importa para camiões e autocarros

Caso de uso Elétrico a bateria Hidrogénio verde
Autocarros urbanos Funciona bem, percursos curtos, carregamento no depósito Útil para percursos mais longos e reabastecimento rápido
Camiões de longo curso Baterias pesadas, carga útil reduzida Depósitos mais leves, reabastecimento mais rápido em corredores
Veículos industriais Viável, mas pode exigir longos tempos parados a carregar Pode reabastecer durante janelas curtas de manutenção

No transporte de mercadorias em autoestrada, em particular, o hidrogénio oferece uma via de descarbonização sem penalizar autonomia e carga útil. Por isso, a estação da A4 - apesar de pequena em capacidade - é acompanhada de perto por operadores logísticos e decisores políticos.

O que significa, na prática, hidrogénio “verde”

A palavra hidrogénio abrange realidades muito diferentes. A maior parte do hidrogénio usado hoje em refinarias e na produção de fertilizantes é feito a partir de gás natural, gerando emissões relevantes de CO₂. É o chamado hidrogénio “cinzento”.

Já o hidrogénio “verde” utiliza eletricidade renovável e água, com quase nenhumas emissões diretas. Pelo meio, há quem fale em hidrogénio “azul”, produzido a partir de combustíveis fósseis mas com captura e armazenamento de carbono. Estas etiquetas são importantes porque subsídios, regulamentação e compromissos empresariais tendem a aplicar-se apenas às versões mais limpas.

A certificação RFNBO na UE acrescenta ainda outra camada. Para qualificar, os produtores têm de provar que a eletricidade usada é verdadeiramente renovável e adicional ao que já existe na rede, e que são cumpridas regras de correspondência temporal e geográfica. Para empresas como a Lhyfe, isto aumenta a complexidade - mas também cria uma vantagem clara se conseguirem cumprir em escala.

Riscos, estrangulamentos e o que pode falhar

O impulso em torno da Lhyfe e de empresas semelhantes não significa que o sucesso esteja garantido. Há vários riscos evidentes.

  • Volatilidade do preço da eletricidade: preços grossistas elevados podem destruir o caso de negócio de um dia para o outro, se faltarem contratos de longo prazo.
  • Licenciamento lento: oposição local ou atrasos administrativos podem travar novas instalações eólicas, solares e de hidrogénio.
  • Concorrência de importações baratas: hidrogénio transportado de regiões com sol ou vento intensos e custos laborais mais baixos pode pressionar produtores europeus.
  • Corrida tecnológica: avanços em baterias, biocombustíveis ou hidrogénio de origem nuclear podem desviar atenção e financiamento.

O modelo descentralizado da Lhyfe responde parcialmente a estes desafios, ao reduzir dependência de grandes ligações à rede e ao distribuir o risco por vários locais. Ainda assim, cada unidade precisa de clientes fiáveis, e o investimento inicial continua a ser elevado para um operador de média dimensão.

Como isto pode mexer com a vida do dia a dia

Para a maioria das pessoas, o hidrogénio verde continua a soar abstrato. No entanto, se projetos como os da Lhyfe resultarem, os efeitos poderão tornar-se visíveis em rotinas comuns.

Autocarros regionais poderão circular com hidrogénio produzido a poucos quilómetros, reduzindo fumos de gasóleo junto às escolas. Mercadorias de supermercado poderão chegar em camiões abastecidos em autoestradas com combustível feito a partir do vento da costa. Zonas industriais poderão cortar emissões sem deslocalizar fábricas para o estrangeiro, reduzindo o risco de perda de emprego.

Até pequenas localidades poderão acolher eletrolisadores compactos ligados a um pequeno conjunto de turbinas ou a coberturas com painéis, fornecendo combustível para camiões do lixo e linhas de autocarro locais. Em algumas regiões, o hidrogénio destas unidades poderá alimentar fábricas próximas de vidro, aço ou produtos químicos, ligando o emprego local diretamente à transição energética.

Por agora, a Lhyfe continua a ser um nome relativamente discreto. Se a aposta no hidrogénio verde descentralizado se confirmar, essa discrição poderá não durar muito.

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