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Quem faz rabiscos em reuniões costuma lembrar-se de mais detalhes e tem ideias melhores a longo prazo.

Jovens em reunião híbrida, alguns em videoconferência num portátil e outros a escrever em cadernos.

As folhas de Excel vão passando, as vozes transformam-se num zumbido constante e a sua caneta começa a desenhar coisas que não constam da ordem de trabalhos. Espirais, quadradinhos, estrelas tortas no canto do bloco. À primeira vista, parece apenas tédio educado - ou uma forma discreta de falta de consideração. E, no entanto, quem está ali a rabiscar, com ar meio ausente, pode muito bem ser a pessoa que lança a pergunta certa no fim. Ou a que, uma semana depois, ainda se lembra daquele número que toda a gente já apagou da cabeça.

Numa sala de reuniões envidraçada no 7.º andar, um responsável fala do orçamento enquanto avança um PowerPoint carregado de diapositivos. Lá atrás, uma mulher desenha plantas na margem do caderno. Ao lado, alguém alinham hexágonos como se fosse um enxame. Quando chega a pausa e o chefe pergunta quem se recorda das três prioridades referidas logo no início, não são os mais “certinhos”, de olhos colados ao ecrã, que respondem. São os que rabiscam. E, de repente, a sala endireita-se.

A cena é comum. Mas por trás dela há algo curioso, quase o oposto do que nos ensinaram na escola: uma pessoa que parece distraída… e, ainda assim, retém melhor. Porque é que quem desenha bonecos e formas nos apontamentos se lembra tantas vezes de mais coisas do que quem fica imóvel, com a caneta parada?

Porque é que os rabiscos mantêm o cérebro acordado quando as reuniões o tentam desligar

Fomos treinados para “nos portar bem” em reunião: postura direita, caneta pronta, olhar fixo em quem está a falar. O problema é que o cérebro não funciona como um aluno exemplar. Quando a informação é monótona ou vem em demasia, entra em piloto automático. Desliga. Vai passear para o que vai ser o jantar, para os e-mails por responder, para a lista mental de tarefas. Rabiscar é uma forma discreta de evitar que ele apague por completo. O movimento repetitivo da caneta ocupa só a dose certa de atenção para manter a mente ligada ao que está a ser dito.

Há um estudo conhecido, conduzido pela psicóloga britânica Jackie Andrade, que mostrou que os participantes que desenhavam durante uma gravação aborrecida se lembravam de mais 29% de informação do que os que não faziam nada. Só rabiscos simples - não uma obra de arte. Nada de especial para se ver. E, mesmo assim, a memória deles ficava mais nítida, como se o cérebro tivesse mantido uma luz pequena acesa enquanto os outros adormeciam de pé. Em muitos escritórios, quem rabisca no caderno é quem, no dia seguinte, consegue repetir as frases-chave quase palavra por palavra.

A lógica é surpreendentemente simples: o cérebro detesta o tédio absoluto. Quando uma tarefa não exige atenção activa suficiente, a mente foge para outro lado. O rabisco funciona como um “peso leve” pousado na atenção: nem pesado, nem estimulante em excesso. Impede que o pensamento se afaste demais, mas sem o arrancar da reunião. É parecido com bater o pé enquanto se ouve alguém falar - um ritmo discreto que mantém a cabeça na sala. Não é distracção pura; é outra maneira de continuar presente.

Como os rabiscos em reuniões fazem surgir ideias que ninguém estava à espera

Por trás desses desenhos feitos sem pensar, costuma acontecer algo mais profundo. O simples acto de traçar formas acorda a parte visual do cérebro - a que gosta de imagens, símbolos e ligações improváveis. Enquanto as palavras circulam na sala, a mão abre uma segunda via: mais intuitiva, mais solta, sem necessidade de tudo fazer sentido de imediato. É muitas vezes nesse espaço meio indefinido que aparecem as ideias que surpreendem toda a gente mais à frente, já perto do fim de um projecto.

Pense num engenheiro de produto numa reunião técnica sobre uma nova aplicação. No caderno, ele não escreve “melhorar a integração do utilizador”. Em vez disso, desenha um caminho sinuoso com placas, depois um muro, e a seguir uma porta a abrir. Semanas depois, é esse mesmo engenheiro que sugere transformar o tutorial inicial num mini-jogo interactivo, com etapas visíveis como portas a atravessar. Quando ele revê o processo, a ideia parece estranhamente parecida com os desenhos daquela reunião - como se o cérebro tivesse montado uma primeira versão silenciosa muito antes dos slides oficiais.

Do ponto de vista cognitivo, rabiscar activa aquilo a que se chama “pensamento associativo”. A mão desenha um padrão; a mente liga-o a uma ideia e, logo a seguir, a outra, quase sem esforço consciente. Uma espiral pode virar um funil de clientes; um quadrado, uma interface; uma montanha, uma meta ambiciosa. Ao misturar visual e verbal, o cérebro cria uma rede de ligações mais rica. As ideias deixam de ser apenas frases num resumo de reunião: ganham forma, textura e, por vezes, uma pequena história muda. É essa malha que faz com que, meses depois, uma ideia regresse de repente - como uma imagem nítida guardada num canto, sem darmos conta.

Como rabiscar em reuniões sem parecer que já “desligou”

Há uma forma de rabiscar que ajuda mesmo a memória e as ideias, sem dar a impressão de desinteresse. O segredo é manter um fio visual ligado ao que está a ser dito. Em vez de desenhar cenas totalmente desconexas, pode converter a informação em formas simples: setas, balões, símbolos, pequenas personagens que representem intervenientes ou clientes. O caderno transforma-se num espaço híbrido, entre apontamentos e desenho. Por fora, é discreto; por dentro, o cérebro fica muito mais envolvido.

Um método simples é reservar uma página por reunião, dividida em dois “territórios”: um para notas e outro para rabiscos. À esquerda, palavras-chave, números, citações. À direita, formas, ligações, ícones improvisados. Não precisa de jeito para desenhar. Um quadrado para uma etapa, um círculo para uma decisão, uma estrela para algo crucial. Sejamos francos: quase ninguém faz isto religiosamente todos os dias, mas basta experimentar uma vez por semana para notar rapidamente a diferença na clareza das recordações.

Muita gente evita rabiscar por receio do julgamento. Foram repreendidos na escola, ou acham que isso “parece coisa de adolescente distraído”. Outros caem no extremo oposto: perdem-se num desenho elaborado e esquecem-se por completo do tema da reunião. Entre esses dois lados, há um caminho mais equilibrado. Pode permitir-se alguns minutos de rabisco intencional, levantar os olhos, voltar à conversa e, depois, retomar a caneta. O objectivo não é escapar à reunião; é criar um fio discreto que o mantenha ligado sem o deixar mentalmente exausto.

“Os meus rabiscos são como migalhas de pão mentais - mais tarde, basta-me seguir as formas para me lembrar de toda a conversa.”

Para manter isto prático, pode ficar com estas regras simples:

  • Rabisque com alguma ligação ao que está a ouvir (mesmo que seja vaga).
  • Não complique demasiado os desenhos, para não se desligar a sério.
  • Guarde uma parte da página para palavras-chave, não apenas para imagens.
  • Volte aos rabiscos depois da reunião e veja que ideias eles reactivam.
  • Não peça desculpa por precisar disto: é possível que o seu cérebro funcione melhor assim.

A vantagem discreta de quem rabisca, ao longo do tempo

Com o passar do tempo, quem rabisca em reuniões acaba por criar uma espécie de arquivo paralelo. Não é só uma pilha de cadernos com datas e listas: é uma memória visual do que viveu no trabalho. Pode abrir um caderno de há um ano, encontrar uma página cheia de setas e formas estranhas, e ver uma cena inteira a voltar. Quem estava na sala, o que dizia o responsável, aquilo que todos temiam ou desejavam. Os rabiscos funcionam como âncoras emocionais leves, capazes de dar vida a conversas que, no momento, pareciam secas.

A longo prazo, esta forma de tratar a informação também muda a maneira de pensar. As ideias deixam de ser apenas lineares, alinhadas como pontos numa acta. Cruzam-se, chocam, respondem-se em imagens. Há quem repare, ao folhear os cadernos, que um mesmo padrão aparece sempre que um tema os entusiasma de verdade: uma forma para problemas difíceis, outra para oportunidades excitantes. Esses sinais pessoais tornam-se alertas internos: “aqui há qualquer coisa importante para mim”.

Rabiscar numa reunião nunca vai parecer espectacular. É um gesto pequeno, por vezes mal interpretado, quase invisível para quem está de fora. Ainda assim, para quem encontra aí o seu ritmo, é uma vantagem silenciosa: estar presente quando o tédio ameaça, reter quando os outros esquecem, e tecer ideias enquanto o resto da sala se limita a cumprir agenda. E talvez, no canto de uma folha - entre dois rectângulos e uma estrela desenhada à pressa - já esteja a nascer a próxima boa ideia com que vai surpreender toda a gente.

Ponto-chave Detalhe Interesse para o leitor
Os rabiscos sustentam a atenção Ocupam ligeiramente o cérebro e evitam que ele se desligue por completo durante a reunião Acompanhar discussões longas sem acabar esgotado
Os rabiscos reforçam a memória Ligam palavras a imagens, o que melhora a recuperação da informação Recordar com mais facilidade decisões e números-chave
Os rabiscos estimulam a criatividade Activam o pensamento visual e associativo que relaciona ideias entre si Fazer surgir soluções originais e novos ângulos

Perguntas frequentes

  • Rabiscar em reuniões não é um sinal de falta de respeito? Não necessariamente. Quando é discreto e tem alguma ligação ao que está a ser dito, costuma ser uma estratégia cognitiva, não desinteresse.
  • E se o meu gestor achar que não estou a prestar atenção? Pode explicar que rabiscos simples o ajudam a manter o foco e até oferecer-se para partilhar os seus apontamentos após a reunião como prova.
  • Tenho de saber desenhar para isto resultar? Não. Formas básicas, setas e símbolos chegam; o benefício vem do processo, não da qualidade artística.
  • Os rabiscos podem prejudicar a minha concentração? Sim - se o desenho ficar demasiado detalhado ou “narrativo”, corre o risco de sair mentalmente da reunião. Mantenha os traços simples.
  • Rabiscar num tablet é tão eficaz como em papel? Pode ser, desde que mantenha um gesto fluido e evite as distrações de aplicações e notificações.

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