Betelgeuse é uma das estrelas mais invulgares do céu - e os astrónomos conseguiram agora esclarecer um dos seus enigmas mais persistentes. Foi confirmada a existência de uma pequena estrela companheira, identificada graças ao rasto que deixa ao atravessar a atmosfera da gigante vermelha.
Dois ciclos de variação de luz em Betelgeuse
Deixando de lado a interferência ocasionada por um “espirro” poeirento, o brilho de Betelgeuse parece oscilar segundo dois ciclos distintos. Um deles dura cerca de 400 dias e tem sido associado a pulsações internas. O outro, porém, estende-se por aproximadamente 2,100 dias e tem sido muito mais difícil de explicar.
A hipótese da companheira e a confirmação de Siwarha em Betelgeuse
A explicação mais aceite apontava para uma companheira pequena e pouco luminosa, em órbita apertada em torno da gigante vermelha - hipótese reforçada por observações que culminaram numa provável deteção em julho passado. Agora, a “parceira” de Betelgeuse foi finalmente confirmada, vários meses após o nome proposto, Siwarha, ter sido aceite.
Quase oito anos de dados recolhidos com o Telescópio Espacial Hubble, o Observatório Fred Lawrence Whipple, no Arizona, e o Observatório do Roque de los Muchachos, nas Ilhas Canárias (Espanha), forneceram provas suficientes de um “rasto” associado a uma segunda estrela: uma trilha de gás de elevada densidade na atmosfera dilatada de Betelgeuse.
"É um pouco como um barco a mover-se na água. A estrela companheira cria um efeito de ondulação na atmosfera de Betelgeuse que conseguimos, de facto, ver nos dados", afirma Andrea Dupree, astrónoma do Centro de Astrofísica Harvard & Smithsonian (CfA).
"Pela primeira vez, estamos a observar sinais diretos deste rasto, ou trilha de gás, confirmando que Betelgeuse tem mesmo uma companheira oculta a moldar o seu aspeto e comportamento."
Como Siwarha altera o espectro: ultravioleta e ferro ionizado
Siwarha não está a atenuar a luz de Betelgeuse - o que faz é modificar o espectro da supergigante vermelha, em particular comprimentos de onda no ultravioleta (UV) emitidos por ferro ionizado. Quando a companheira passa à frente de Betelgeuse, surge um pico forte na luz emitida pelo ferro.
Mas, depois de Siwarha “eclipsar” a estrela, a cauda de gás que segue atrás começa a absorver esses comprimentos de onda, fazendo com que o pico seja mais curto. O efeito desvanece-se lentamente até Siwarha completar outra volta - cerca de 2,109 dias, ou aproximadamente 5.77 anos, mais tarde.
"Com esta nova evidência direta, Betelgeuse dá-nos um lugar na primeira fila para ver como uma estrela gigante muda ao longo do tempo", diz Dupree.
"Encontrar o rasto deixado pela sua companheira significa que agora podemos compreender como estrelas deste tipo evoluem, perdem material e acabam por explodir como supernovas."
Entretanto, Siwarha já voltou a esconder-se atrás de Betelgeuse e não deverá reaparecer até agosto de 2027.
O estudo foi aceite para publicação no Jornal Astrofísico e, neste momento, encontra-se disponível no servidor de pré-publicações arXiv.
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