NOVA IORQUE (AP) - Por volta dos 2 anos, a maioria das crianças já sabe brincar ao faz de conta. Transformam o quarto em castelos longínquos e organizam festas de chá imaginárias.
Essa capacidade de criar algo a partir do nada pode parecer exclusivamente humana - uma base da criatividade que abriu caminho a novas formas de arte, música e muito mais.
Agora, pela primeira vez, uma experiência dá a entender que um grande símio em cativeiro pode ter imaginação.
Kanzi, o bonobo: comunicação por símbolos e sinais de “brincar ao faz de conta”
O protagonista é Kanzi, um bonobo criado em laboratório que se tornou particularmente habilidoso a comunicar com humanos através de símbolos gráficos. Chegou a combinar símbolos diferentes para lhes atribuir significados novos e aprendeu a produzir ferramentas simples de pedra.
A partir daí, os cientistas quiseram perceber se Kanzi teria capacidade para brincar ao faz de conta - isto é, agir como se algo fosse real, sabendo ao mesmo tempo que não o é. Já tinham ouvido relatos de chimpanzés fêmeas na natureza a segurar paus como se fossem bebés e de chimpanzés em cativeiro a arrastar pelo chão blocos imaginários depois de brincarem com blocos reais.
Um desafio: como medir a imaginação, por ser algo abstrato
Como a imaginação é um fenómeno abstrato, é difícil saber o que se passa “dentro da cabeça” dos símios. É possível que, afinal, estejam apenas a imitar os investigadores ou a confundir objetos imaginários com objetos reais.
Ainda assim, “o que é realmente entusiasmante neste trabalho é que sugere que as raízes desta capacidade de imaginação não são exclusivas da nossa espécie”, afirmou o coautor do estudo Christopher Krupenye, da Universidade Johns Hopkins.
A “festa do sumo” e o teste do faz de conta
Para testar a ideia, os investigadores adaptaram métodos usados com crianças pequenas e encenaram uma festa do sumo para Kanzi. Fingiram verter sumo imaginário de um jarro para dois copos e, em seguida, fizeram de conta que esvaziavam apenas um deles. Depois perguntaram a Kanzi qual copo queria - e ele apontou para o copo que ainda teria o sumo imaginário em 68% das vezes.
Comparação com sumo verdadeiro e um ensaio com uvas falsas
Para confirmar que Kanzi não estava a confundir o real com o fingido, a equipa também realizou um teste com sumo verdadeiro. Kanzi escolheu o sumo real em vez do imaginário quase 80% das vezes, “o que sugere que ele consegue mesmo distinguir entre sumo real e sumo imaginário”, disse Amalia Bastos, coautora do estudo e investigadora da Universidade de St. Andrews, na Escócia.
Um terceiro ensaio, em que foram colocadas uvas falsas em dois frascos, apresentou resultados positivos semelhantes.
Ceticismo: distinguir imaginar de manter a pretensão
Nem todos os cientistas aceitam que Kanzi esteja a brincar ao faz de conta da mesma forma que os humanos. Segundo o psicólogo comparativo Michael Tomasello, da Universidade Duke, há uma diferença entre imaginar o sumo a ser servido num copo e manter a pretensão de que o sumo é real.
“Para ficar convencido disso, eu precisaria de ver Kanzi a fingir ele próprio que está a deitar água num recipiente”, escreveu Tomasello num email. Não teve qualquer participação no estudo, que foi publicado na quinta-feira na revista Science.
O papel do ambiente e o que ainda falta compreender
Kanzi cresceu no meio de humanos, pelo que é difícil afirmar se as suas capacidades se estendem a todos os grandes símios ou se se devem à sua criação invulgar. Morreu no ano passado, aos 44 anos.
Muitas espécies de grandes símios na natureza estão em perigo crítico de extinção, e será necessária mais investigação para compreender do que as suas mentes são capazes.
“Kanzi abriu este caminho para muitos estudos futuros”, disse Bastos.
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