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Algo ainda mais sombrio do que um buraco negro pode estar escondido no centro da Via Láctea.

Homem observa holograma de buraco negro no céu noturno com computador e telescópio numa varanda científica.

Não há como negar que existe algo de enorme no coração da Via Láctea, mas um estudo recente questiona se um buraco negro supermassivo é, de facto, a única explicação possível.

Até hoje, todas as medições do centro galáctico são compatíveis com um objecto extremamente denso, com cerca de 4 milhões de vezes a massa do Sol. Contudo, segundo o novo artigo, com um pequeno ajuste de perspectiva, o mesmo conjunto de indícios também pode encaixar num cenário diferente: um grande e compacto aglomerado de matéria escura fermiónica, sem horizonte de eventos.

Neste momento, não dispomos da precisão observacional necessária para distinguir de forma inequívoca entre estes dois modelos. Ainda assim, se o núcleo galáctico for composto por matéria escura, os astrónomos ganham uma nova via para interpretar a estrutura da matéria escura em toda a galáxia.

“Não estamos apenas a substituir o buraco negro por um objecto escuro; estamos a propor que o objecto central supermassivo e o halo de matéria escura da galáxia são duas manifestações da mesma substância contínua”, explica o astrofísico Carlos Argüelles, do Instituto de Astrofísica de La Plata, na Argentina.

A matéria escura é um dos maiores enigmas do Universo. Os cientistas conseguem estimar com grande rigor a quantidade de matéria normal existente no Universo. No entanto, depois de somar tudo, verifica-se que há muito mais gravidade do que essa matéria consegue justificar.

Aquilo que provoca essa gravidade extra não absorve nem emite luz; sabemos que existe apenas devido ao seu efeito gravitacional. É isso a matéria escura. E a sua contribuição para a gravidade é tão grande que representa aproximadamente 84 por cento do “orçamento” total de matéria do Universo.

Sagittarius A* (Sgr A*), o centro galáctico e a matéria escura

A confirmação da existência - e a estimativa da massa - de um objecto muito massivo no centro da Via Láctea também foi feita através da gravidade: seguindo as trajectórias longas e curvas e as variações de velocidade de estrelas muito rápidas que orbitam o centro galáctico.

A explicação mais directa para essa massa, exigindo o menor número de pressupostos, é a de um buraco negro supermassivo, baptizado Sagittarius A* (Sgr A*). Em 2022, uma imagem obtida pela colaboração do Telescópio do Horizonte de Eventos (EHT) chegou mesmo a parecer revelar a “sombra” do buraco negro.

Mas essa não é a única hipótese. Por exemplo, trabalhos anteriores mostraram que um disco de acreção incandescente em torno de um aglomerado concentrado de matéria escura poderia, potencialmente, gerar uma sombra muito semelhante à captada pelo EHT.

Liderada pela astrofísica Valentina Crespi, do Instituto de Astrofísica de La Plata, uma equipa internacional procurou ir mais longe: será que as órbitas observadas das estrelas em torno de Sgr A* também podem ser explicadas por um núcleo de matéria escura?

Alguns modelos de matéria escura descrevem-na como ténue e difusa, mas existe um candidato que permite concentrações densas: a matéria escura fermiónica, cujas partículas obedecem a regras quânticas que impedem uma compressão infinita - de forma semelhante à maneira como electrões e neutrões resistem a serem “esmagados” abaixo de um determinado limite de densidade.

O resultado teórico é um aglomerado ultradenso e gravitacionalmente estável, comparável, em princípio, a uma anã branca ou a uma estrela de neutrões, mas constituído por fermões de matéria escura, e não por partículas de matéria normal.

Daqui surge a questão: se um objecto deste tipo estivesse no centro galáctico, isso alteraria a forma como se comportam as estrelas em órbita?

Existe um conjunto de objectos conhecidos como estrelas S, cuja dança complexa em torno do centro galáctico desenha o potencial gravitacional da massa aí presente. Entre esses “marcadores”, o mais importante é uma estrela chamada S2, porque tem uma órbita relativamente curta, de 16 anos, que foi observada e caracterizada com um detalhe excepcional.

Os investigadores modelaram o comportamento de S2 em dois enquadramentos: um cenário convencional em que Sgr A* é um buraco negro, e o cenário alternativo do seu aglomerado de matéria escura fermiónica.

Em ambos os casos, as simulações reproduziram o movimento da estrela com níveis de exactidão quase indistinguíveis. Ou seja: isto não demonstra que Sgr A* seja matéria escura; mostra apenas que pode sê-lo, e que ainda não há dados suficientes para decidir.

Declínio kepleriano, halo de matéria escura e pistas adicionais

Ainda assim, existe outro argumento a favor da matéria escura fermiónica. O mapa da Via Láctea produzido pela sonda espacial Gaia - o mais completo até agora - indica que a rotação da galáxia abranda a distâncias maiores em relação ao centro galáctico.

Segundo os autores, este chamado declínio kepleriano é explicado com maior facilidade por um halo vasto e extenso de matéria escura fermiónica a envolver a Via Láctea do que por outros modelos de matéria escura.

“É a primeira vez que um modelo de matéria escura consegue ligar com sucesso escalas tão diferentes e várias órbitas de objectos, incluindo dados modernos da curva de rotação e das estrelas centrais”, afirma Argüelles.

Observações futuras poderão ajudar a resolver a questão, intrigante, sobre a verdadeira natureza de Sgr A. Por exemplo, medições prolongadas no tempo podem revelar pequenas características nas órbitas estelares que inclinem a interpretação para um lado ou para o outro. Estrelas que orbitam ainda mais perto de Sgr A do que S2 também poderão conter pistas.

Além disso, novas observações com o Telescópio do Horizonte de Eventos poderão mostrar detalhes mais finos da região onde a luz é desviada em torno de Sgr A*. Certas assinaturas associadas à gravidade extrema de um buraco negro - como um anel de fotões bem definido - poderão estar ausentes ou apresentar alterações se o objecto central for, em vez disso, um núcleo de matéria escura sem horizonte.

A investigação foi publicada nas Notícias Mensais da Royal Astronomical Society.

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